310 Ver item 2.9.
311 Cf. PONTES DE MIRANDA, F. C. Comentários ao código de processo civil. Rio de Janeiro: Forense, 1974,
Pelejam alguns autores com o argumento de que função da prova e
objeto da prova são a mesma coisa.
Avulta o descompasso logo no exame preliminar: objeto da prova é
tudo que é suscetível de comprovação perante o órgão judicial (ou
administrativo) do Estado; função da prova é o que se persegue ao se levar a
prova ao juiz.
Prevalece na doutrina a idéia de que o objeto da prova são os fatos.
Echandía se refere aos fatos objeto de prova como sendo tudo que
representa a conduta humana; as coisas e os objetos materiais; a pessoa humana;
os estados e fatos psíquicos ou internos; etc.312
Kielmanovich, por sua vez, fala em fatos articulados e fatos
controvertidos como objeto de prova.313
Moacyr Amaral Santos diz que são objeto de prova os fatos
controvertidos, relevantes e determinados.314 Fatos controvertidos ou
controversos, para Moacyr Amaral Santos, “são os fatos contestados ou não
aceitos como verdadeiros pela parte contrária à que os alega. Onde não há
controvérsia quanto aos fatos alegados pelos litigantes, a questão se reduz à
mera aplicação do Direito. Impõe-se a prova quando há questão de fato”. Fatos
relevantes – para esse autor – são os que têm relação direta ou indireta com a
lide, pois “fatos que não tenham nenhuma relação ou conexão com a lide não
312 Cf. ECHANDÍA, Hernando Devis. Compendio de la prueba judicial, Tomo I, p. 76.
313 Cf. KIELMANOVICH, Jorge L. Teoría de la prueba y medios probatórios. Buenos Aires: Abeledo-Perrot,
influenciam na decisão do juiz”.315 Fatos determinados são os que se apresentam com características suficientes que os distingam de outros que se lhes
assemelham. Acrescenta Moacyr Amaral que, “na falta de uma linha separatória,
de uma qualidade própria, de um sinal individual, não há como separar,
diferenciar ou distinguir o fato probando de outro que absolutamente não se
relaciona com a causa”.316
Não constituem objeto de prova, conforme dispõe o artigo 334 do
CPC “os fatos notórios, os fatos afirmados por uma parte e confessados pela
parte contrária, os fatos admitidos no processo como incontroversos, e os fatos
em favor dos quais milita presunção legal de existência ou de veracidade”.
A doutrina não é uniforme na conceituação de fatos notórios. No
nosso ponto de vista, quem os definiu com mais clareza foi Mario Conte, cujos
ensinamentos resumimos:
“Il fatto notório deve essere inteso in senso rigoroso, cioè come fatto acquisito con tale grado di certezza da apparire indubitabile ed incontestabile, e non quale evento o situazione oggeto della mera conoscenza del singolo giudice.” 317
Acresçam-se ao rol do artigo 334 do CPC os fatos negativos (ex:
João não pode provar que nunca esteve no Rio de Janeiro (RJ), mas pode provar
que lá não esteve no dia 31-07-2001, às nove horas da noite, porque, nesse
mesmo dia e horário, defendia sua tese de mestrado perante banca examinadora
314 Cf. SANTOS, Moacyr Amaral. Comentários ao código de processo civil. Rio de Janeiro: Forense, 1976, Vol.
IV, p. 42-44.
315 Idem, Ibidem.
316 SANTOS, Moacyr Amaral. Op. cit. p. 42-44. 317 CONTE, Mario. Le prove nel proceso civile, p. 36.
da PUC/SP); e os fatos imorais (ex: prova de má-fe, dolo, coação etc.), quando
quem os produz tem o interesse de se beneficiar da própria torpeza.
Deixemos para o momento certo a análise das provas ilícitas.
De acordo com a linha de Bonnier, Malatesta profere que a
finalidade suprema da prova é a comprovação da verdade. São suas estas
palavras:
“Qualquer que possa ser a espécie de verdade que se queira verificar, ela só atua como finalidade sobre a natureza substancial da prova, por seu lado genérico de verdade, e não pelo específico, consistente nesta ou naquela determinada verdade: qualquer que seja a verdade a verificar, a prova, como tal, não a refletirá no espírito, senão como verdade e enquanto verdade; qualquer que seja, em outros termos, a natureza da verdade específica a que se refere a prova, a natureza da prova mantém-se sempre a mesma.” 318
Essa teoria foi abandonada pela maioria dos autores.
Em páginas anteriores, discriminamos as seguintes premissas:
(a) O resultado da prova pode não corresponder à verdade e, ao mesmo tempo, proporcionar ao juiz o convencimento necessário para o julgamento da lide.
(b) A certeza é a crença da verdade.
(c) A prova não é definida em função da verdade, mas em função da certeza.
(d) Convicção nada mais é do que a certeza subjetiva do juiz em relação à verdade dos fatos da causa.
Como é presumível, a prova é o cerne do processo contencioso, do
qual se extraem os elementos essenciais para que o juiz possa formar sua
convicção ao decidir o litígio. Daí deduzirmos que a função processual da prova
não é a verificação da verdade, mas o convencimento do juiz a respeito da
existência (ou inexistência) e das circunstâncias dos fatos da causa.
A expressão “função processual da prova” não foi empregada por
acaso, já que sabemos que a prova também preenche funções fora do processo.
Entre essas funções extraprocessuais da prova deve-se dar ênfase à função de
dar segurança às situações jurídicas.
Retendo-nos naquilo que interessa ao presente trabalho, frisamos
que, por meio da prova, se procura chegar o mais perto possível da realidade dos
fatos. Como assinalamos oportunamente, o que realmente interessa para o
processo é que as alegações das partes sejam declaradas provadas,
independentemente de estarem ou não em conformidade com a realidade.319 O resultado da prova é a conclusão a que chega o juiz, com base
nos diversos elementos probatórios aduzidos no processo, sobre os fatos
afirmados ou negados pelas partes.
Esse conceito encontra-se simplificadamente explanado por Sentís
Melendo, que entende por resultado da prova o esclarecimento dos fatos
controvertidos no processo.320
Para conhecermos o resultado da prova – diz Echandía – não basta
examinarmos os elementos que possam contribuir para o convencimento do juiz
acerca da existência ou inexistência dos fatos; “es indispensable también tener
319 Cf. SERRA DOMÍNGUEZ, Manuel. Estúdios de derecho procesal. Barcelona: [s.n.], 1969, p. 358.
320 Cf. SENTÍS MELENDO, Santiago. La prueba. Buenos Aires: Ediciones Jurídicas Europa-América, 1979, p.
en cuenta los medios aportados por la parte contraria, para tratar de desvirtuar el
valor de convicción de los primeros. Aquéllos formarán una prueba concurrente,
y éstos constituirán una prueba en contrario.” 321