Ao longo deste tópico iremos focar sobre a questão do modelo histórico do subdesenvolvimento brasileiro e é sobre a análise da estrutura econômica histórico-cultural do Brasil realizada por Celso Furtado é a expressão da
66 Umas das críticas sobre a adoção de modelos com base no desenvolvimento de países
industrializados podem ser lidas a partir da teoria de Furtado em afirmar que “[se] os governantes de muitos países, e entre êstes o Brasil, seguido à risca os conselhos daqueles que se supunham conhecedores da ciência econômica, e êsses países provávelmente se teriam desenvolvido muito menos. Essa observação se aplica inclusive a países como Estados Unidos e Austrália, para ficar apenas com aquêles que liam em sua língua os livros dos economistas ingleses” (FURTADO, 1954, p. 239).
obra A economia brasileira (1954) e, que por sua vez, pode ser atribuídas às demais obras do autor ao longo de seu legado intelectual. Mas, no conjunto desta obra sobre a análise dos problemas fundamentais da economia brasileira e do ritmo irregular desigual que se acentuava entre as regiões do país e da constante violação dos postulados clássicos67, segundo Celso Furtado (1954), do pensamento
tradicional por apresentarem previsões falsas sobre o percurso à superação do subdesenvolvimento pelos países do terceiro mundo em relação aos países industrializados, tornaram-se o objeto de estudo de Celso Furtado sobre os contornos em que se encontravam diante a conjuntura nacional e aos legados destinados aos países de desenvolvimento tardio pela estrutura.
Ao apontar os problemas fundamentais da economia brasileira, Furtado, em primeiro lugar, indicou “algumas circunstancias favoráveis que conheceu a economia colonial brasileira, particularmente em sua etapa cafeeira” (FURTADO, 1954, p. 15) para poder analisar, a partir das transformações da grande depressão de 1929 e sobre os acontecimentos da Revolução de 1930 no Brasil, de que “esgotadas as possibilidades de crescimento de um sistema, a economia entra num período de transição que pode ser de atrofiamento ou de gestão de um novo sistema” (FURTADO, 1954, p. 15), sendo de fundamental importância o reconhecimento do sistema econômico que se processava no cenário estrutural nacional. Como salientado anteriormente, o desenvolvimento industrial nacional foi fruto dos processos de inversão econômica praticado pela política anticíclica do Estado brasileiro para manutenção do nível de emprego, possibilitado pelo processo de substituição das importações geradas a partir das crises no cenário mundial (fazemos referência a depressão de 1929 e as duas grandes guerras de 1917 e 1945), mas vale ressaltar que segundo Furtado, a política anticíclica adotada no país, sobre a manutenção do nível de emprego, não foram resultados gerados pelas crises cíclicas externas, mas sim, sobre a geração do subproduto das necessidades que o país mantinha como o resultado de uma política de fomento de defesa dos interesses do setor cafeeiro onde:
a política de defesa do setor cafeeiro nos anos da grande depressão concretiza-se num verdadeiro programa de fomento da renda nacional. Chega-se a praticar no Brasil, inconscientemente, uma política anti-cíclica de maior amplitude
que a que se tenha sequer preconizado em qualquer dos países industriais (FURTADO, 1954, p. 131).
No entanto, a análise de Furtado sobre a política inconsciente que promovera o subproduto das necessidades industriais no Brasil, no período de recessão econômica, deve ser salientada, também, sobre duas perspectivas indispensáveis acerca da teoria furtadiana, quais sejam: a concepção do Estado e a questão da manutenção e ampliação da renda nos setores dinâmicos da economia brasileira (FURTADO, 1954).
Assim, mais uma vez a questão da relação entre capital/trabalho/Estado aparece com maior propriedade na análise furtadiana sobre a superação do atraso econômico, onde o apoio do Estado em políticas que promovessem a manutenção das frações mais avançadas do capitalismo nacional pudesse promover a expansão da renda e do emprego em todos os setores econômicos (com maiores propriedades, as frações sociais menos privilegiadas) do país. Dessa forma, caberia a função reguladora e normativa do Estado, o objetivo de aumentar o processo dinâmico da renda e do pleno emprego, com o apoio aos setores mais avançados da economia, o que provocaria, por assim dizer, a contradição entre os setores não identificados com o desenvolvimento econômico e social, conduzidas pela ação legitimada e pela racionalidade do Estado condutor e/ou árbitro de promover a justiça social entre os diversos estratos da sociedade brasileira (FURTADO, 1954).
Dando seqüência a esta análise, em A Formação Econômica do Brasil (1959), podemos encontrar o exame acurado de Celso Furtado sobre as reformas pelas quais deveria passar o país, a partir da análise conferida à superprodução do café no início do século XX no Brasil e sobre as crises financeiras nacionais e internacionais, que entoaram problemas da ordem dos juros fiscal e cambial no país, como sinônimos de uma política anticíclica da manutenção do emprego e pelo qual possibilitou o processo de industrialização via substituição das importações (FURTADO, 2007). E em relação à visão do autor sobre o Estado, este dever-se-ia manter como provedor da manutenção e ampliação dos setores de produção aos demais setores da economia, bem como, mantenedor da expansão da renda e emprego à sociedade (FURTADO, 1958). A necessidade da elaboração e/ou construção de projeto de Nação a partir da racionalidade e sobre a condução e
arbitragem dos processos sociais conferidos ao Estado, somente se concretizariam, se reformas fiscais, cambiais e sociais fossem planejadas e aplicadas com a finalidade de minimizar o antagonismo latente entre os diferentes estratos sociais para evitar que direitos e benefícios concedidos apenas a cidadãos de Nações desenvolvidas, se tornassem também, realidade de cidadãos de países subdesenvolvidos (FURTADO, 2007)68.
Nesse sentido, ainda sobre a questão do Estado, este aparece para Furtado a partir das conseqüências geradas pelo ritmo desigual do desenvolvimento e acerca da capacidade de poupança e a capacidade de inversão ociosa de empresários ao desenvolvimentismo econômico nacional, onde não havia a causação circular do mesmo para garantia do ritmo constante à capacidade de poupança e à capacidade de inversão ao desenvolvimento industrial nacional, seja pelo setor público ou privado no país (FURTADO, 1954). Assim, a respeito da capacidade de poupança e de inversão a partir da análise de Keynes onde “uma das chaves para o problema do desemprego” estariam sobre “a diversidade entre os motivos que induzem a poupar [os empresários] e aqueles [empresários] que levam a inverter”, Furtado completaria afirmando que “sempre que numa economia o impulso para inverter não seja suficientemente forte para absorver toda a poupança que se forma, haverá desemprego” (FURTADO, 1954, p. 242).
Sendo assim, “a análise dos fatores que induzem o empresário a inverter é certamente a parte mais pobre da obra de Keynes” (FURTADO, 1954, p. 243) por esquecer e/ou abandonar a idéia de lucro a curto prazo, onde a atuação do Estado sobre incentivos ao processo de inversão de capital, dos empresários, no ciclo do desenvolvimentismo econômico de um estado, seria fundamental 69. O que
de mais importante podemos ressaltar sobre essa análise da teoria furtadiana estaria sobre o ritmo desigual do desenvolvimento econômico nos estados do Brasil, onde o impulso para inversão de capital por empresários não eram suficientemente forte para absorver poupança, mas que foram construídos por políticas inconscientes do Estado, ao invés da própria consciência de que deveriam ter os empresários, principalmente nas regiões sul/sudeste do Brasil, comparadas as regiões centro/norte/nordeste, onde o impulso para inverter não foram
68 Myrdal (1972) e Huntington (1968) já haviam observado sobre esse hiato econômico em suas
obras.
69 Ao longo do terceiro capítulo desta dissertação iremos explorar como Furtado já mencionava e
suficientemente forte para absorver poupança, gerando não apenas desemprego, mas anacronismo econômico e social pela inexistência de interação com os demais estados do país, em virtude da falta da ação efetiva do Estado (ou melhor, pela falta de um projeto de Nação) que colocasse os estados mais pobres nas trilhas do desenvolvimento industrial, e que serão preconizados no Plano Trienal e analisado no terceiro capítulo deste trabalho.