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Embora ainda seguindo com a atmosfera cômica, a tensão narrativa aumenta no momento do retorno dos vaqueiros. Combina-se forte tensão e verve cômica. Dois eventos concorrem, indicando desfecho trágico: um deles é a iminência do propalado ajuste de contas entre os vaqueiros Silvino e Badu, podendo resultar em crime de morte, com assassinato de um dos dois ou de ambos (ou ainda com o envolvimento de

terceiros); o outro é o prenunciado pelos perigos da travessia de volta do córrego da Fome em sua enchente. KATHRIN ROSENFIELD103 descreve, com precisão e justeza, o

desenrolar do conto como um “(...) insidioso deslizar da normalidade para a catástrofe”. Há, sim, uma calmaria; mas uma calmaria um tanto suspeita, deixando a sensação de que se vai iludindo, ludibriando, distraindo o leitor, que embalado pelo riso, por uns átimos de segundos se esquece dos eventos trágicos prenunciados, mas que de repente os pressente de novo, como algo que vai inexoravelmente acontecer.

A possibilidade do sinistro aparece mais incisivamente no momento de retorno dos vaqueiros à fazenda; e ela é sugerida mais pela tensão que se cria entorno dos dois vaqueiros, Silvino e Badu, na ameaça deste último ser morto por aquele, do que propriamente pela ameaça da natureza, com a enchente do córrego. A atenção do leitor é desviada da tragédia que de fato acontece para outra, o assassinato, que acabará malogrado. Embora a catástrofe no rio seja prenunciada ao longo do enredo, com índices bem marcados, acaba no desfecho caracterizando-se como secundária frente à disputa entre os vaqueiros. Os artifícios de comicidade são imprescindíveis para se criar a ambiguidade da situação. Assim, o trágico do conto fica neutralizado pelo indefectível tratamento formal dado à narrativa.

Mas o curioso da situação é notar que major Saulo tem consciência da possibilidade desses dois eventos perigosos. E é de um e de outro que ele se livra ao abandonar a comitiva. Quanto a isso aparecem referências no texto. Sobre a enchente, como já ficou visto, ele sabe dos perigos e tem medo. E quanto ao caso da disputa entre os dois vaqueiros, ele estabelece extensa discussão com Sebastião e também com Francolim. E é deste último que ele tira suas conclusões mais precisas: realmente as intenções de Silvino são de matar Badu e fugir. Então, ele entrega o comando da volta a

103 Kathrin Holzermayr Rosenfield. Desenveredando Rosa – A obra de João Guimarães Rosa e outros

Francolim, “(...) você vai vir com os vaqueiros, trazendo na algibeira autoridade minha”, e previne-o sobre o possível crime: “(...) ele [Silvino] quer mesmo matar o Badu e tomar rumo. Agora, eu sei, tenho certeza. Não perde os dois de olho, Francolim Ferreira!” Ele, ironicamente, entrega o comando da volta a ninguém menos que Francolim, eximindo-se das responsabilidades de intervir, como “representante da lei”. Aliás, com menos respeitabilidade que ele, Francolim, não poderia haver outro. Major Saulo, tendo conhecimento das possibilidades dos dois eventos, abandona os vaqueiros como quem diz: não me importa mais, o gado está embarcado, e agora vocês morram ou se matem.

Na travessia da ida, o fazendeiro, ao transpor o córrego com boiada grita: “— Viva, meu povo, não se perdeu nenhum!...” (32). Nenhum dos bois, diga-se. O mais importante é não perder a mercadoria (boi), mesmo que para isso se sacrifique muito mais da metade dos vaqueiros com seus respectivos cavalos, que é o que de fato acontece no retorno.

No instante em que os vaqueiros caem no centro da correnteza do rio, a imagem que se cria é a da cobra que os enlaça em sua rodilha “faminta”: “(...) enrolou- os em suas roscas, espalhou, afundou, afogou e levou. Ainda houve um tumulto de braços, avessos, homens e cavalgaduras se debatendo.” O que se percebe nesse rebuliço de águas é que a massa, que antes era pelotão, “bicho inteiro”, “centopéia”, se dissolve. Assim, finalmente, revela-se o desfecho trágico, na travessia de volta, o afogamento dos vaqueiros:

Noite feia! Até hoje ainda é falada a grande enchente da Fome, com oito vaqueiros mortos, indo córrego abaixo, de costas – porque só as mulheres é que o rio costuma conduzir de-bruços... O cavalo preto de Benevides não desceu, porque ficou preso, com a cilha enganchada num ramo de pé-de-ingá. Mas o amarilho bragado de Silvino deve de ter dado três rodadas completas, antes de se soverter com o dono, o jeito de um animal bom. Leofredo não se achou. Raymundão também não. Sinoca não pode descalçar o pé do estribo, e ele e a montada apareceram, assim ligados os

dois defuntos, inchados como balões. Zé Grande e Tote, abraçados, engalfinhados, sobraram num poço de vazante, com urubus em volta, aguardando o que escapasse das bocas dos pacamãs. Mas o que navegou mais longe foi Sebastião, que aproou – barca vazia – e ancorou de cabeça, esticado e leve, os cabelos tremulando como fiapos aquáticos, no barro do vau de Silivéria Branca... (59)

O quadro se constrói nas bases do grotesco: é estarrecedora e desconcertante em sua multiplicidade espectral e macabra. A isso se acresce a ironia do narrador, ao detalhar minúcias funestas. Os urubus marcam mais forte a ideia de morte e putrefação. Há uma espécie de riso Satânico na ironia de alguns detalhes, configurando riso de humor negro. O comentário de KAISER define, de alguma forma, um pouco da

atmosfera:

É somente na qualidade de pólo oposto do sublime que o grotesco desvela toda sua profundidade. Pois assim como o sublime – à diferença do belo – dirige o nosso olhar para um mundo mais elevado, sobre-humano, do mesmo modo abre-se no ridículo-disforme e no monstruoso-horrível do grotesco um mundo desumano do noturno e abismal.104

No parágrafo anterior, o narrador, de modo indireto, já havia apontado o grotesco nas mesclas dos elementos humanos e plantas e humanos e animais: “Lá, acolá, devia de haver terríveis cabeças humanas apontando da água, como repolhos de um canteiro, como moscas grudadas no papel-de-cola.” (59)

A atmosfera grotesca, entretanto, não é duradoura, afoga-se logo na comicidade. Da imagem sinistra, o leitor, estarrecido, talvez volte a reler o texto, na busca entre os nomes arrolados as personagens de sua simpatia: Francolim, Sete-de- Ouros.... Badu (talvez). Não os encontrando, depara-se com outra cena, esta fortemente contrastando com esse instante trágico do afogamento. O final se constrói dissolvendo- se o macabro e indo desaguar na margem oposta, beirando o hilário: Francolim salvara- se agarrado no rabo do burro. Há uma ponta de muxoxo na informação do narrador:

“Alguém que ainda pelejava, já na última ânsia e farto de beber água sem copo, pôde alcançar um objeto encordoado que se movia. E aquele um aconteceu ser Francolim Ferreira, e a coisa movente era o rabo do burrinho pedrês.” (60) Salvo pelo rabo do burro! Até nesse momento dramático, ele volta a assumir, comicamente, a posição que sempre ocupou em relação ao patrão: atrás. A cena se fecha quando, já em terra firme, o burro “despediu um mole meio-coice. Francolim – a pé, safo.” Esquecidos da cena trágica, é nessa situação nada elegante nem magnânima, nem nobre, aliás, digna de um pobre-diabo, de um palhaço, diga-se, que vemos nosso herói mais simpático se salvar da morte. É imediata a sua imagem trazida a mente: o corpo esguio do vaqueiro sendo projetado longe e num átimo, do tombo faz-se um salto, “safo”, finalmente. É bem possível que, desse coice, ele tenha caído por terra, e o corpo magro e ágil tenha logo se posto em pé, ele tomba e levanta, assim, o boneco-de-molas ganha materialidade física também.

O coice do animal é a última repreensão que o leitor presencia a Francolim. Em sua ingenuidade, loucura, devaneio e sonho, Francolim se salva da morte... por acaso. Nesse desfecho, passa-se do grotesco macabro da imagem dos oito vaqueiros mortos à distensão do riso, com a notícia de que o herói comicamente se livrara da morte, e daí para o desfecho cômico-melancólico, com o burrinho no ponto inicial, de volta à fazenda, onde tudo está novamente em ordem. Ele traz no lombo o vaqueiro que também se salvara montado em seu dorso: o amoroso e “bebedérrimo” Badu.

O rebuliço de tempestade, que se inicia mesmo no início do enredo e vai numa progressão em que o ponto de maior tensão é o instante do afogamento dos vaqueiros, a partir desse ponto tudo vai voltando ao estado de paz, em que tudo se tranquiliza e acaba numa “escuridão” melancólica: “Depois [Sete-de-Ouros] procurou

um lugar qualquer, e se acomodou para dormir, entre a vaca mocha e a vaca malhada, que ruminavam, quase sem bulha, na escuridão.” (60)

Benzer Belgeler