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Breve resumo: Antônio Bento, por causa da pobreza do sertão é criado pelo Padre Amâncio na Vila do Açu, uma miserável vila próxima a Pedra Bonita. Ele não vai ao seminário como era desejo do padre tornando-se coroinha da pequena paróquia. Por ser irmão de cangaceiro e outro fanático, as pessoas não lhe querem bem na vila. O episódio de Pedra Bonita é narrado junto a fictícia história da vida de Bento.

Análise:

Romance de 1938 irá retratar o ciclo do cangaço e do misticismo aliado ao messianismo, que ocorrem no sertão do nordeste.

A obra literária é sobre o relato a respeito do ocorrido em Pernambuco em 1838, em Pedra Bonita, a tragédia, na qual muitas pessoas foram mortas para que com seu sangue as torres da catedral do reino de S. Sebastião, fossem lavadas.

Desse ponto já sabemos que o messianismo e o misticismo já descritos e analisados por Euclides voltam a ser tema do território sertanejo e a obra toma como pano de fundo um relato verdadeiro para criar uma história de ficção, mesmo que esta seja completamente diferente da obra euclidiana.

O sertão é aqui o palco para cangaceiros, santos, místicos, coronéis, heróis, além de um terreno fértil para a fome a para a seca convidando os personagens para ingressarem no cangaço ou no fanatismo religioso, assim como na obra de Euclides.

Para a constituição do conceito do ambiente em que vive o cangaceiro, o sertão, temos uma passagem muito conveniente que é quando José Lins do rego refere-se ao Padre Amâncio, sua vocação e sua irmã. É evidente que ele é uma pessoa ingênua e boa de coração, por isso está no sertão, pessoas gananciosas como sua irmã Eufrásia não são indivíduos para habitar aquela terra humilde a não ser que pertença ao Estado e oprima os que vivem no sertão.

D. Eufrásia trazia para dentro da casa de Padre Amâncio o conceito de todo o mundo sobre ele. Uma ou duas vezes por ano deixava ela o marido e vinha ao sertão viver uns dias com o irmão. Bem se lembrava da vida de ambos, da meninice que levaram juntos. Amâncio sempre fora aquilo mesmo, aquela ternura, aquele coração de ouro de lei. O pai os criara, pois ficara viúvo logo cedo.[..]. Amâncio pegara-se logo com o padre. [...] Vivia na igreja ajudando nas missas, nas bênçãos, sempre com aquela ideia de ser padre.[...] O juiz não gostou da vontade do filho de seguir a vida da igreja. Queria-o para a advocacia, para as lutas do foro. Pensava no Dr. Amâncio de Lemos realizando a carreira que ele não conseguira realizar, com o filho brilhando no foro, tirando uma cadeira de professor na faculdade, com grande nome, com grande fama. (REGO, 1956: 12)

Um relato do que é o ataque do cangaceiro e seu bando sob o ponto de vista do escritor em relação a crueldade cometida pelos homens quando querem vingança, pois o cantador que relato o acontecido, nada sofreu por não ter ligação com a família:

—Menino, não queira ver cangaceiro com raiva! Dê por visto um demônio armado de rifle e punhal. [..].quando vimos os cangaceiros na porta. A família correu para as camarinhas e eu e o velho ficamos mais mortos do que vivos, estatelados. Era Luís Padre com o bando dele.—"Velho safado", foi ele gritando logo, "se prepare para morrer". O homem se levantou e foi duro

como o diabo:—"Estou pronto, bandido, faça o que quiser". Luís Padre perguntou pelas moças. Queria comer. O pessoal estava com fome.

E foi andando para o interior da casa. [...]. As moças e a velha correram para a sala de janta, fazendo um berreiro como se fosse para defunto [...]!" E foi uma desgraça que eu nem tenho coragem de contar. Os cabras estragaram as moças. Ouvi o choro das pobres, os cabras gemendo no gozo, o velho urrando como um boi ferrado. Foi o dia mais desgraçado de minha vida. (REGO, 1956: 38)

Diálogo entre o Padre e o chefe dos cangaceiros demonstra que o cangaceiro tem sua própria lei, isto é, ele persegue pessoas ligadas ao Estado, pois estas são, segundo eles, o mal do sertão, os responsáveis pela miséria do local:

—A gente só tira dos ricos.

—Para que mataram o soldado, um pobre homem cheio de filhos?

—Ninguém mandou êle resistir, Seu Vigário. Aí a palavra do chefe estava já mudando de tom, ficando áspera. —Eu não vim aqui para ouvir santa missão, Seu Padre. A gente tem muito que

fazer.[...].—Nós queremos é o dinheiro do governo. (REGO, 1956: 65) Outra passagem que irá reforçar o relatado acima:

Nós foi que soltemos os presos da cadeia. Para que o senhor não foi dar de comer àqueles pobres, Seu Vigário? Estava tudo mortinho de fome.

—São criminosos, respondeu o padre.

—Criminosos coisa nenhuma. Criminoso é o governo, Seu Vigário. (REGO, 1956: 66)

O próximo excerto refere-se ao misticismo e não diretamente ao cangaço, porém duas necessidades são requeridas pelo “santo”: água no sertão e bondade dos cangaceiros:

O sangue dos meninos ensopou o barro duro, a areia quente. Um Vieira, um homem que fora o pai do velho Aparício, deixara os seus e fora com o governo matar o povo que acreditava no desencanto da lagoa milagrosa. O santo queria o sangue das donzelas e dos meninos para lavar a pedra, para com isto fazer o mundo virar. Rios de leite correriam para os famintos. O sertão seria verde de inverno a verão. Os cangaceiros ficariam mansos, a terra um paraíso de fartura e de beleza. E o desgraçado, por causa de uma moça, correu para levar com êle a morte dos seus. (REGO, 1956: 207)

No livro Pedra Bonita, muito além de ser contada a história do massacre de Pedra Bonita, é também vislumbrada a vida das pessoas que vivem no sertão, na miséria, sendo exploradas pelo governo e aterrorizadas pelo cangaço. O cangaço é contado sob o ponto de vista dos que vivem no sertão. Junto com estas histórias estão o misticismo, a seca, a exploração, brotando daí um cangaceiro que diz fazer justiça da maneira que ele acredita, fora da lei.

Benzer Belgeler