O ambulatório originalmente previsto para sediar a intervenção clínica era a Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas, vinculada ao Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (UNIAD/UNIFESP-EPM), instituição na qual atuo como psicóloga clínica desde 2001. Mudanças estruturais ocorridas no serviço, a partir de 2006, contudo, impossibilitaram que ele se mantivesse locus da intervenção.
Partimos, então, para a busca de outro serviço para viabilizar a realização da intervenção terapêutica. Como segunda escolha, estabelecemos contato com um Centro de Atenção Psicossocial para Álcool e Drogas (CAPS-ad) da cidade de São Paulo. Tal tentativa, no entanto, não chegou a ser concluída. No período em que o projeto foi entregue ao CAPS (abril de 2008), houve uma mudança na coordenação deste serviço, que passou a ser ocupada por um novo profissional. Embora estivesse autorizada a realizar a pesquisa naquela instituição, era necessário obter a aprovação da Coordenadoria Regional de Saúde do município de São Paulo. Atentos ao tempo que poderia levar aquele processo e já com o cronograma de pesquisa atrasado por dificuldades anteriormente enfrentadas, optamos por abrir novas frentes de contato para a realização desta etapa da pesquisa, enquanto aguardava a resposta deste CAPS-ad – retorno que não ocorreu.
O terceiro contato estabelecido ocorreu na própria UNIAD/UNIFESP, com a coordenadora do Curso de Acompanhamento Terapêutico lá ministrado. Sabendo da pesquisa em curso e das dificuldades enfrentadas nesta etapa, ela mencionou a possibilidade de que o estudo fosse realizado com uma amostra de alunos do referido curso, já que muitos deles possuíam um quadro de dependência química, que estava estabilizado. A partir de suas experiências pessoais, haviam optado por trabalhar neste campo, como principal atividade profissional ou como atividade secundária à ocupação central.
Compareci, então, ao final de uma das aulas para falar aos alunos sobre o estudo em questão e convidá-los a participar de algumas conversas sobre o tema. Do total de vinte e quatro alunos inscritos no curso, dez apresentavam histórico de dependência química.
Destes, oito optaram por participar de quatro conversas sobre a pesquisa, ajudando a refletir sobre o tema da inclusão do trabalho no tratamento da dependência química, a partir de seus percursos pessoais. Nesta etapa, foram realizados no total quatro encontros, no formato de grupos focais, em frequência semanal, com duração média de uma hora e meia cada encontro, a partir de um roteiro previamente estabelecido, contemplando os seguintes tópicos: levantamento dos históricos ocupacionais; concepções sobre fatores que favorecem o processo de reabilitação ocupacional para quem está em tratamento; concepções sobre trabalho. Os dados emergentes nesta etapa da pesquisa foram analisados em conjunto com os demais dados, relacionados à residência terapêutica pesquisada.
Foi a partir de um dos alunos deste curso, Daniel, que cheguei, por fim, à residência terapêutica onde se desenvolveu a etapa de campo desta pesquisa. Para fins deste relato, nomearei esta organização apenas como a Casa.
O encontro com o campo pesquisado: a Casa
“Vai lá visitar a gente”. Foi a partir deste convite, feito recorrentemente por Daniel, que iniciei o contato com a Casa, em meados de Junho de 2008. Daniel era aluno do Curso de Acompanhamento Terapêutico da UNIAD e membro da equipe técnica da Casa. Dirigia este convite a todos que acabava de conhecer, genuinamente interessado em divulgar a nova organização em que ingressara como monitor e pessoalmente muito engajado e orgulhoso do projeto terapêutico da Casa. Tratava-se de um “duplamente novo”: para ele, que havia acabado de ingressar na equipe técnica da entidade, e para a própria Casa, que havia sido recém-inaugurada como residência terapêutica.
Depois vim a saber que a Casa, para Daniel, além de seu local de trabalho, era também sua moradia. E as pessoas que compunham aquela organização, em alguma medida, haviam se tornado de tal modo importantes em sua vida que poderiam facilmente ser tomadas por familiares. Notava-se em seu entusiasmo que aquele projeto era também seu. Uma apropriação que se concretizava em espaço de trabalho, de moradia e em sua rede social.
Foi de uma maneira bastante despojada que falei pela primeira vez ao telefone com Patrícia, a coordenadora da Casa. Não tinha nem certeza se ela sabia quem eu era
quando um dia Daniel me passou, repentinamente, o telefone, na recepção da UNIAD: “A Alessandra quer falar com você!” Eu queria. Embora não naquele minuto, pega desavisadamente de surpresa. Apresentei-me brevemente e, após poucas palavras sobre a pesquisa, ela me abriu a Casa para que eu fosse visitá-los quando eu quisesse, sem mais perguntas ou checagens sobre a natureza da pesquisa ou sobre quem eu era. Esta seria a relação da coordenação com a pesquisa e comigo, durante todo o trabalho de campo realizado: “Se estiver bom para eles, para mim está bom também. Isto daqui existe para eles.” – era sua fala recorrente, diante de minhas tentativas em lhe explicar sobre os procedimentos que íamos (os participantes do estudo e eu) combinando em campo. Era também, como pude perceber mais adiante, o tom com que coordenava a Casa, tanto administrativa quanto clinicamente. Tratava-se de um misto de liberdade e confiança que às vezes me gerava um estranhamento grande, pois temia que tal postura pudesse se confundir com negligência, trazendo, junto com as diversas vantagens de um posicionamento mais livre, algumas complicações.
No dia combinado, o despojamento foi o mesmo, senão maior. Patrícia foi quem me abriu a porta, quando cheguei à Casa. Estava na sala, conversando com uma das moradoras. Logo pediu para que chamassem Daniel, que me mostraria o espaço físico da Casa e me apresentaria aos pacientes. “Você quer falar com os meninos né?” Sim, eu queria, embora quisesse antes falar com ela. Desta vez, fui preparada para uma conversa: esclarecer em detalhes os objetivos da pesquisa, os procedimentos, responder a perguntas etc. Mas nada me foi perguntado neste dia, pela coordenação; como não seria em momento algum. Ao contrário, o pouco que acabamos conversando naquele dia teve a ver com a história de formação da Casa. Esta conversa foi bastante breve. O tempo de Daniel chegar e me conduzir por um tour pelo espaço físico da casa, seguido da apresentação para os pacientes-moradores. Uma descrição pormenorizada deste primeiro contato com a Casa, contendo as impressões suscitadas, será apresentada no Capítulo 4.
A Casa constituiu, por fim, o campo pesquisado. Difícil de ser encontrado, mas fácil de ser acessado. Por campo, compreendemos o espaço físico em que estão as pessoas que podem falar, com autoridade, sobre o tema pesquisado, conforme descreve Turato (2003); trata-se de um recorte espacial no qual o pesquisador relaciona-se com estas pessoas, objetivando ouvir o discurso pertinente e observá-las em sua postura.
complexidade de natureza relacional, uma vez que o enquadramento do setting engloba justamente as “relações interpessoais, eminentemente psicológicas” (TURATO, 2003) – aspecto bastante intensificado no campo pesquisado, conforme se verá mais adiante, quando da apresentação dos saberes gerados em campo (Capítulo 5).