No Brasil, o estudo das aglomerações territoriais com atividade produtiva predominante – tratadas como clusters ou como arranjos produtivos locais (APLs), dependendo do referencial teórico utilizado – já faz parte da agenda de órgãos tanto federais quanto estaduais e municipais. Na esfera federal, por exemplo, foi instalado em agosto de 2004 o Grupo de Trabalho Permanente para Arranjos Produtivos Locais (GTP APL), responsável pela elaboração do documento entitulado Termo de Referência para Política Nacional de Apoio ao Desenvolvimento de Arranjos Produtivos Locais, o qual consolida as discussões feitas pelo GTP e fornece diretrizes para o desenvolvimento de políticas públicas na área.
Por meio da atualização do Levantamento dos APLs do País8, realizada em 2010, foram identificados 957 arranjos, possibilitando, posteriormente, a organização de uma lista de arranjos prioritários, contando com 10 arranjos por estado, estes ratificados pelos parceiros estaduais. A Figura 7 - Arranjos Produtivos Locais (APLs) no Brasil mostra alguns APLs identificados pelo governo federal em cada estado e complementa a visualização com o mapa institucional dos APLs, também feito por região, e elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).
Observa-se que o GTP, ainda que inserido na estrutura organizacional do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), é composto por representantes de diversos órgãos como o Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (INMETRO), o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social (BNDES), o Serviço Brasileiro de Apoio às Pequenas e Médias Empresas (SEBRAE), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), entre outros9. Além da criação do GTP APL, o governo federal trata ainda o tema dos APLs nos Planos Plurianuais (PPAs) 2004-2007 e 2008-2011, sendo estes promotores da
[...] articulação entre as instâncias executivas da administração pública, proporcionando a base para a construção das ações governamentais integradas e também para a articulação dessas ações com as da iniciativa privada, do
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O primeiro Levantamento dos APLs do País foi realizado em 2004, sendo atualizado posteriormente em 2005, 2007 e, finalmente, em 2010.
terceiro setor e das demais esferas de governo. (SECRETARIA DE ESTADO DE ECONOMIA E PLANEJAMENTO DO ESTADO DE SÃO PAULO, 2010)
Figura 7 - Arranjos Produtivos Locais (APLs) no Brasil
Fonte: Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior em Di Serio (2007)
Dos arranjos identificados pelo GTP APL, alguns são bem conhecidos setorialmente ou mesmo em âmbito nacional, de acordo com características individuais
que os tornam proeminentes. Dentre eles, podem ser citados o APL aeroespacial de São José dos Campos, no estado de São Paulo, o qual abriga a Empresa Brasileira de Aeronáutica S.A. (Embraer), fundada em 1969 pelo Decreto-Lei nº 770 como empresa de capital misto e privatizada em 1994, estando seu controle acionário em mãos brasileiras. A Embraer é uma das principais integradoras de aeronaves do mundo - grupo composto ainda por Boeing, Airbus e Bombardier - e é reconhecida como uma das principais empresas de tecnologia de ponta do país. Além da Embraer, o arranjo de São José dos Campos possui outro ator de grande importância no cenário nacional, que é o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), onde está localizada uma das mais reconhecidas e respeitadas escolas de engenharia do país, formando profissionais nas áreas de ciências e tecnologia com foco no setor aeroespacial.
Sabendo que cada arranjo possui forma e grau de desenvolvimento próprios, cabe ressaltar que o arranjo aeroespacial desenvolve-se, em geral, ao redor de uma empresa específica – a Embraer – sendo, assim, dependente de suas atividades; em se tratando das micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) participantes deste arranjo no setor aeronáutico, acredita-se que entre 70% e 80% de suas receitas esteja atrelado às demandas da Embraer.
Outro arranjo de grande importância apoiado pelo GTP APL é o APL Madeira Móveis do Alto Vale do Rio Negro, no estado de Santa Catarina. A região do Alto Vale do Rio Negro abrange as cidades de São Bento do Sul, Rio Negrinho e Campo Alegre, próximas à divisa com o Paraná, sendo que seu pólo moveleiro é especializado em móveis de madeira, cuja produção é feita por cerca de 470 empresas, gerando em torno de 13.600 empregos diretos na região.
O estado de Santa Catarina era, em 2002, o maior exportador e terceiro maior produtor de móveis do país e, em 2005, respondia por 44% das vendas externas. Como a demanda moveleira interna é suprida quase que exclusivamente pela indústria nacional, o APL Madeira e Móveis optou por focar-se na demanda externa, impulsionado ainda pela escassez de madeiras nobres no exterior, em contraste com grandes áreas florestais de pinus existentes no estado. (DI SERIO, 2007)
Comparando o arranjo aeroespacial e o arranjo madeira móveis, são observadas muitas diferenças, principalmente devido à natureza dos setores produtivos. Enquanto que o primeiro arranjo é marcado pelo alto grau de desenvolvimento tecnológico e inovação, além de concentração em torno de um player principal, o segundo arranjo possui baixo nível de tecnologia e inovação, demanda pouco sofisticada e um grande número de MPMEs que usam o coletivo para ganhar força no mercado externo.
Um cluster não citado entre os prioritários do GTP APL, mas que possui grade relevância nacional e mesmo internacional é o Cluster de Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo (CAASP). Em contraposição aos dois primeiros arranjos apresentados, o CAASP é composto por grandes empresas e apresenta forte integração. Apesar do setor açucareiro ser considerado um setor produtivo tradicional, o desenvolvimento de setores afins, como o setor alcooeiro, que também utilizam a cana de açúcar como matéria prima, exigiu que fossem feitos grandes investimentos em tecnologia, pesquisa e desenvolvimento (P&D), tornando o setor sucro-alcooeiro brasileiro uma grande promessa para a economia nacional, pois, além da importância do açúcar para o mercado interno e para as exportações nacionais, o álcool vem se mostrando uma alternativa ou complemento viável aos combustíveis fósseis.
A Figura 8 mostra as atividades envolvidas no cluster sucro-alcooeiro do estado de São Paulo, o qual se comunica com outros clusters do estado, como o cluster agrícola, automobolístico e alimentício.
Figura 8 - Cluster de Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo Fonte: Di Serio (2007)
Como dito anteriormente, este cluster é composto por grandes empresas, as quais encontraram nos grupos de cooperação “uma maneira de equacionar seus problemas comerciais e organizacionais através da formação de grupos com interesses afins para cooperação e controle da competição” (DI SERIO, 2007, p.137).