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Para o protestantismo brasileiro, em parte, algumas tipologias, apresentadas por Mendonça e por outros, bem como a idéia de ondas, apresentada por Freston e utilizada por inúmeros, são atraentes, pois conseguem dar conta da periodização do pentecostalismo que se procedeu com suas especificidades. Porém, nessa pesquisa, está-se propondo uma abordagem de um cisma pentecostal ocorrido na Conve nção Batista Brasileira na década de 1960 e, portanto, procura-se um locus para o Movimento de Renovação Espiritual que se operacionalizou na denominação batista, vindo a culminar no referido cisma.

Há uma controvérsia referente à caracterização dos batistas como sendo protestantes. Entretanto, para Azevedo, foi pelo uso da história que o protestantismo passou a ser aplicado a todos os grupos religiosos decorrentes da Reforma e os batistas são chamados de herdeiros no que tange à aplicação do termo. Notem-se as palavras de Azevedo acerca do protestantismo:

“Pelo uso da história, passou a ser aplicado a todos os grupos religiosos decorrentes dos movimentos reformadores (cisões) do século 16: os matrizes (luteranos, presbiterianos [calvinistas e zwinglianos], anglicanos e anabatistas); os herdeiros (congregacionais, batistas e metodistas) e os vice- herdeiros (adventistas e pentecostais, entre os principais). O traço de genericidade é dado pela afirmação dos três princípios de Martinho Lutero (1483-1546): Solus Chistus, Sola Fide e Sola Scriptura”. 70Grifo nosso

Portanto, as Igrejas Batistas são representativas do chamado protestantismo histórico71. Toda Igreja Batista é autônoma e independente, bem como regida pela forma de um governo congregacional. Por conseqüência do exposto, prega m-se as expressões de individualismo e de autonomia nas manifestações de fé e na vida cristã. Segundo Azevedo, a

70 AZEVEDO, Israel Belo de. A Celebração do Indivíduo, p. 15.

71 Segundo Reis Pereira, existem três teorias sobre as origens dos batistas: a primeira é conhecida como JJJ, ou seja, Jerusalém-Jordão-João, e afirma que os batistas vêm em linha ininterrupta desde os tempos em que João Batista realizava batismos no rio Jordão; a segunda traça a origem no parentesco espiritual com os anabatistas do século XVI; a terceira refere-se ao “fato” de que os batistas surgiram dos separatistas ingleses, pois criam no batismo por imersão. Breve História dos Batistas. Rio de Janeiro: Juerp, 1987, p. 9.

doutrina, a moralidade, a ética e as demais expressões existentes no âmbito batista advêm da valorização do esforço próprio, da liberdade de consciência e do acesso direto a Deus72.

“No auto-elogio dos Batistas, eles são os campeões da democracia representativa e se orgulham de a praticar no dia-a-dia da sua igreja, cujo “governo é uma pura democracia”. Essa democracia – ensina Watson – é “garantida pela soberania de Deus” e efetivada “mediante a Palavra Divina e a atuação do Espírito Santo no coração de cada crente”. 73

A partir dessa afirmativa, há fortes indícios que demonstram uma forma de governabilidade batista que poderá ser procedida na legitimação das atitudes de poder no ambiente congregacional. Portanto, preza-se o uso constante da Bíblia, que é considerada pelo grupo como Palavra de Deus e, conseqüentemente, a ação do Espírito Santo nas expressões de subjetividade humana dos sujeitos religiosos referidos. Segundo Watson, é justamente esse aspecto que denota a soberania de Deus nas atuações governamentais, o que constitui um sujeito religioso com determinada consciência de seu estado de instrumentalidade do divino.

Contudo, em dado momento da história dos batistas, foi necessária a criação de uma Convenção Batista Brasileira, pois a influência dos americanos no começo do século passado fora muito acentuada. Assim como as Igrejas Batistas dos Estados Unidos, de onde vieram muitos missionários, também foi conveniente para as igrejas batistas brasileiras a criação de uma Convenção que lhes pudesse servir.

“Desde o século passado até agora, o modelo permanece o mesmo, com algumas alterações. O órgão máximo é a Assembléia anual da Convenção, a que comparecem os membros (pastores e leigos) das igrejas para deliberação. No interreegno das assembléias, um Conselho executivo procura coordenar a implementação das decisões, cuja execução compete às entidades (jutas), que têm um conselho consultivo (que se reúne quatro vezes por ano) eleito nas assembléias e uma equipe de funcionários escolhida por esse conselho setorial. O mesmo modelo se reproduz no plano estadual e, em menor grau de complexibilidade, no plano regional”. 74

Desse modo, na forma batista de pensar a funcionalidade da eclesiologia, as igrejas locais são soberanas e as Associações, as Convenções Estaduais, bem como a

72 AZEVEDO, Israel Belo de. A Celebração do Indivíduo, p. 304. 73 AZEVEDO, Israel Belo de. A Celebração do Indivíduo, p. 308. 74 AZEVEDO, Israel Belo de. A Celebração do Indivíduo, p. 195 e 196.

Convenção Batista Brasileira servem para auxiliar as igrejas, promover a cooperação e principalmente as missões nacionais, estaduais e mundiais.

Segundo o historiador José dos Reis Pereira, a primeira intenção acerca da criação da Convenção Batista Brasileira, através das igrejas já existentes e sob a liderança do Pr. Salomão Guinsburg, concretizou-se somente a 22 de junho de 1907, na cidade de Salvador, por causa da forte atuação da chamada Primeira Igreja Batista no Brasil, que se situava naquela localidade75.

Portanto, no decorrer da história dos batistas no Brasil e no interior das igrejas pertencentes à Convenção Batista Brasileira, ocorreu, como se mencionou, determinado Movimento de Renovação Espiritual que fora marcado por um intenso avivamento religioso. Como se referiu, tal movimento culminou, após muita militância, no primeiro cisma pentecostal da história dos batistas no Brasil, ocorrido na Convenção anual de 1965. Há causas remotas do movimento pentecostal que resultou no cisma denominacional, pois, segundo Reis Pereira, sempre houve nas igrejas batistas do Brasil, o que ele chama de

“santa insatisfação”, porque se queria um nível elevado de vida espiritual e moral, de tal

forma que a rotina não determinasse a pregação do evangelho e sua vivência espiritual76. Enéas Tognini alega que ele e seus colegas mais próximos sempre tomavam conhecimento dos grandes avivamentos ao longo dos séculos, achavam bonitos e desejavam que tornassem a acontecer, agora no Brasil77. Para Tognini, a efervescência do avivamento no seio da denominação batista teria sido resposta das orações de Appleby. A missionária teria sonhado com o avivamento e vivido o avivamento, conquanto ela tenha sido considerada como a “fagulha que incendiou a pátria brasileira” 78.

Para ele, as orações da missionária americana em prol de renovação espiritual foram atendidas com veemência e o tão desejado avivamento entrou em curso no

75 Existe uma controvérsia acerca do início do protestantismo batista no Brasil. Alguns historiadores, como Reis Pereira, concordam com a posição oficial da Convenção Batista Brasileira, segundo a qual a primeira igreja batista no Brasil teria sido fundada a 15 de outubro de 1882, em Salvador, no Estado da Bahia. In: PEREIRA, J. Reis. História dos batistas no Brasil. Rio de Janeiro, p. 251.

Entretanto, outros historiadores, como Marcelo Santos, advogam que a primeira igreja batista teria sido fundada em Santa Bárbara, Estado de São Paulo, a 10 de setembro de 1871, a segunda igreja teria sido organizada a 02 de novembro de 1879 e a terceira teria sido fundada em 1882 em Salvador, no Estado da Bahia. In: SANTOS, Marcelo. O Marco Inicial Batista.

76 PEREIRA, J. Reis. História dos batistas no Brasil, p. 251. 77 TOGNINI, Enéas. A autobiografia, p. 75.

Brasil, pois entre 1954 e 1985 dois homens teriam sido batizados com o Espírito Santo, a saber, em sua ordem, José Rego do Nascimento e o próprio Enéas Tognini.

No centro da controvérsia encontra-se um fenômeno de renovação espiritual, caracterizado pelos integrantes do Movimento como sendo o Batismo no Espírito Santo.

“Qual foi o cerne da divisão dos batistas brasileiros? Nada mais e nada menos do que batismo no Espírito Santo, experiência distinta do novo nascimento (...) Eu era crente, e até um pouco mais – pois dizem que batista é mais crente, e eu sou batista. Pastor há longos anos, combatia os irmãos pentecostais por causa dessa bênção e, no entanto, fui poderosamente batizado no Espírito em 1958. E, por causa disso, deixei tudo, entreguei meus cargos na denominação, fui mal entendido, perseguido, caluniado”. 79

Ainda que se considerem as causas mais remotas das tendências pentecostais no seio da Convenção Batista Brasileira, faz-se necessário averiguar também que o Movimento de Renovação Espiritual deu-se num ponto de partida estabelecido pela atuação veemente da missionária americana Rosalee Milss Appleby.

Desse modo, sabe-se que as idéias da missionária e o seu desejo por renovação espiritual influenciou inúmeros líderes denominacionais e, por isso, pode-se fazer alusão a ela como uma pessoa que impulsionou o Movimento de Renovação Espiritual através da sua atuação no âmbito batista. Faz-se necessário, portanto, averiguar alguns eventos ocorridos na vida de Appleby para que se tenha certa noção do impacto de sua mensagem nos ouvintes batistas brasileiros.

A missionária nasceu em Oxford, no Mississipi, a 25 de fevereiro de 189580. Sua família era composta por fazendeiros bastante atuantes na vivência protestante. A mãe de Appleby era batista e o pai metodista. A conversão da missionária teria ocorrido como conseqüência de uma solitária experiência vivenciada aos 11 anos de idade, na casa da família. Segundo Xavier, no dia da conversão de Appleby, o “Espírito agitou o seu coração” e, tendo submetido sua vida a Cristo, no culto da noite confessou publicamente a Jesus como seu salvador pessoal, sendo batizada pelo pastor local no domingo seguinte.81.

79 TOGNINI, Enéas. A autobiografia, p. 77.

80 Rosalee Mills Appleby faleceu no dia 20 de maio de 1991, aos 96 anos. 81 XAVIER, João Leão dos Santos. Colunas da Renovação, p. 13.

Mas, foi no período de sua adolescência que Appleby teria vivido algo bastante marcante consoante à sua fé, a saber, o testemunho de sua tia, que relatou sua experiência de “enchimento do Espírito”, coisa que, segundo sua tia, fora concedida por Deus

“quando reconheceu que nada podia ser feito com esforço próprio” 82.

Porém, havia certa inquietação em Rosalee, pois ela afirmava que, desafortunadamente, grande parte dos sermões que ouvia sobre o Espírito Santo era negativista e pregados para combater algumas denominações. Por isso, tudo o que dizia respeito ao Espírito Santo tornou-se antipático para ela; contudo, por ocasião do seu encontro com a tia Mollie, ela alega ter descoberto a verdade sobre a vida espiritual e acerca do enchimento do Espírito Santo83.

“Rosalee lia a respeito de cristãos que possuíam algo melhor do que os altos e baixos, a vida de “deserto-e- maravilha” que a maioria dos membros nominais das igrejas conheciam. Nessa querida mulher, ela via uma demonstração real de vida. Depois que passou a conhecê-la e amá-la, veio sobre Rosalee um desejo muito grande de possuir aquela vida abundante. Como o salmista, ela pôde então dizer: “Minha alma anseia pelo Senhor mais que os guardas pelo romper da manhã”. Seus passos estavam sendo ordenados pelo Senhor”. 84

Aos 25 anos, Rosalee graduou-se no curso “Normal Superior”, na Universidade Batista de Oklahoma, tendo realizado estudos teológicos também no Seminário Teológico Batista do Sul, em Louisville, Kentucky. Foi nesse período de sua vida que conheceu David Appleby, um jovem pastor com quem posteriormente se casou. O Pr. David Appleby, quando estabeleceu contato com o Pr. Salomão Ginsburg85 e com o Pr. Francisco Soren86, sentiu-se “chamado por Deus” para trabalhar no Brasil.

Assim, no ano de 1924, os recém-casados, Rosalee e David Appleby, chegaramao Brasil e, após um período adaptativo no Estado do Rio de Janeiro, no qual se esforçaram para aprender a língua portuguesa, a história e a geografia brasileira, foram para Belo Horizonte, cidade de onde partiam para “fazer missões” no interior de Minas Gerais.

82 XAVIER, João Leão dos Santos. Colunas da Renovação, p. 14. 83 XAVIER, João Leão dos Santos. Colunas da Renovação, p. 15. 84 XAVIER, João Leão dos Santos. Colunas da Renovação, p. 15.

85 De origem polonesa, o Pr. Salomão Ginsburg foi conhecido como “o judeu errante”. Foi compositor de alguns hinos que dizem respeito à abundância espiritual. Segundo Tognini e pelo que consta no hinário oficial dos batistas, ele traduziu o hino 161 do Cantor Cristão (Poder Espiritual), e também os hinos: 168 (Chuvas de Bênçãos), 171 (Avivamento), e 176 (Tempo de Ser Santo). História dos Batistas Nacionais, p. 47.

No entanto, após adoecer com uma úlcera, o Pr. David Appleby faleceu em outubro de 1925, no mesmo hospital em que, depois de algumas horas, Rosalee M. Appleby deu à luz ao único filho do casal. Enquanto estava passando pelo chamado “leito de morte”, teria dito à sua mulher: “Faça o seu trabalho e o meu”87. Segundo Xavier, David também sussurrou: “Eles estão me chamando, chamando, chamando – lá no céu. Não sabia que é tão

bonito! Tudo está bem com minha alma” 88.

Desse modo, mesmo após a morte de seu marido, Rosalee começou a evangelizar nos lares dos cristãos e fazer visitas aos crentes, principalmente nos bairros mais pobres de Belo Horizonte. Inúmeras igrejas foram organizadas através de seu empenho missionário. Contudo, o impacto maior que seu trabalho causou está expresso nos livros e folhetos que escrevia, dos quais destacam-se as séries: “Vida Vitoriosa” e “Folhetos de

Poder”. Nessas literaturas encontram-se as idéias de Appleby acerca do batismo no Espírito

Santo como “segunda bênção” e, assim sendo, como fato subseqüente à salvação.

“A expressão “batismo no Espírito Santo” é bíblica e, portanto, aceitável. João a usou. A expressão usada por João ficou registrada nos quatro evangelhos, o que demonstra a sua importância e valor. Eis a declaração do profeta do deserto, João Batista: “Ele (Jesus) vos batizará com o Espírito Santo...” (João 1:33; cf. Mateus 3:11; Marcos 1:8; Lucas 3:16). O próprio Senhor prometeu aos discípulos batizá-los no Espírito (Atos 1:4, 5) e Pedro usou a expressão em conexão com a experiência na casa de Cornélio (Atos 11:16)” . 89

Segundo Reis Pereira, o objetivo da missionária era a evangelização; entretanto, ela dizia que para “evangelizar direito” seria necessário que se tivesse uma experiência com o Espírito Santo90. Para Appleby, o batismo no Espírito Santo “traz interesse pela salvação de outros”, sendo essa experiência fundamental para ter uma

motivação na evangelização de pessoas que não professavam a fé protestante91.

A missionária Rosalee M. Appleby fora muito bem aceita entre os batistas brasileiros, porquanto sua devoção era notória e sua conduta ilibada e, sendo uma missionária americana, Rosalee tinha autonomia sobre o que iria pregar ou ensinar. Conforme Reis Pereira, suas palestras nas igrejas eram sempre motivo de inspiração, pois a missioná ria fazia-

87 XAVIER, João Leão dos Santos. Colunas da Renovação, p. 28. 88 XAVIER, João Leão dos Santos. Colunas da Renovação, p. 27. 89 APPLEBY, Rosalee Mills. O Espírito Santo: Vida e Poder, p. 17. 90 PEREIRA, J. Reis. História dos Batistas no Brasil, p. 194. 91 APPLEBY, Rosalee Mills. O Espírito Santo: Vida e Poder, p. 21.

se conhecida através de sua modéstia, de sua unção autêntica, a qual impressionava a todos92.

Tognini e Almeida igualmente referem-se de maneira laudatória à missionária Appleby, a ponto de situá-la na galeria dos reformadores protestantes:

“Na galeria desses servos de Deus, desfilam nomes inesquecíveis que estiveram na crista da onda dos avivamentos ou se destacaram como grandes ganhadores de almas, quer nas igrejas ou campos missionários: Savonarola, Lutero, Jonathan Edwards, Wesley, George Whitefield, Charles Finney, Adoniram Judson, David Livingstone, Hudson Taylor, Charles Spurgeon, D. L. Moody, Rosalee Appleby etc.”. 93

Além da influência exercida pela tia de Rosalee, pelo sofrimento de David Appleby, bem como pelo pedido do marido, a missionária também fora influenciada por um sermão que ouviu de um pastor batista chamado Charles Culpepper, que foi missionário na China por 36 anos. Culpepper teria contado acerca do avivamento ocorrido em Shantung, sendo tal movimento bastante marcado por conversões, curas e sinais. Os relatos ouvidos por Rosalee M. Appleby trouxeram-lhe ânimo para buscar uma experiência de avivamento semelhante no Brasil, o que a levou para uma experiência ascética bastante profunda na particularidade de sua fé.

Existem controvérsias com relação ao surgimento do nome “Renovação Espiritual”, que se processou no seio da Convenção Batista Brasileira. Humberto Viegas Fernandes, em seu Renovação Espiritual no Brasil: Erros e Verdades, alega que a missionária americana Rosalee Milss Appleby teria iniciado na rádio de Belo Horizonte um programa chamado: “Renovação Espiritual”. Fernandes diz ainda que teve a oportunidade de pregar durante a programação e que isso se deu no primeiro ano de seus estudos teológicos, em 1956. Segundo o mesmo autor, Appleby teve de voltar ao país de origem para se tratar, depois de

“ter caído gravemente enferma”. Por esse motivo, transferiu a direção do programa a José

Rego do Nascimento, o qual operacionalizou uma mudança de conotação com relação à “Renovação Espiritual” que, a priori, se referia a um “novo nascimento” e, a posteriori, com a direção de José Rego do Nascimento, passou a se referir ao batismo no Espírito Santo como condição para obter mais força e privilégios na vivência cristã94.

92 PEREIRA, J. Reis. História dos Batistas no Brasil, p. 194.

93 TOGNINI, Enéas e ALMEIDA, Silas Leite de. História dos Batistas Nacionais, p. 33. 94 FERNANDES, Humberto Viegas. Renovação Espiritual no Brasil, Erros e Verdades, p. 14.

Entretanto, Tognini discorda de Fernandes, dizendo em seu livro “História

dos Batistas Nacionais”, que dialogou com Rego e com Appleby a respeito do programa

radiofônico. Com a missionária, a comunicação se deu através de correspondência e na resposta, segundo o autor, Appleby afirmou que sua chamada “ministerial” havia sido feita mais para que ela escrevesse literatura evangélica do que pregasse. Rego, por sua vez, em conversa com Tognini, alegou que todas as rádios estavam “fechadas” para programas evangélicos; no entanto, ele orou e Deus “abriu as portas” da Rádio Guarani; Nesse caso, o programa teria se iniciado no ano de 1958, e não em 1956, como quer Fernandes95.

Para Appleby, a partir da experiência pentecostal de batismo no Espírito Santo, o Brasil deveria vivenciar, através da influência de igrejas cristãs, um avivamento bastante intenso, conquanto, para ela, naquele período específico da história, entre as décadas de 1950 e 60, notava-se um mundo com profundas transformações pertinentes. Portanto, seria necessário que o maior “número de crentes” fossem “dominados pela Terceira Pessoa da

Trindade”.

Segundo Appleby, aquele era o período “mais oportuno da história da

humanidade”; entretanto, deveria ser também um momento de renovação espiritual,

porquanto, segundo sua narrativa, havia muitos grupos no Brasil que desejavam um avivamento espiritual96. A partir das concepções de Appleby, um avivamento é “a

manifestação do poder e glória de Deus na vida dos salvos. É a água da vida jorrando e transbordando de corações remidos e mitigando a sede das multidões ao redor” 97.

Conforme Appleby, o método para atingir um avivamento espiritual era composto por alguns elementos, quais sejam: fé, oração, obediência a Deus e santificação de vida98. No entanto, para que esse método pudesse ser divulgado, Appleby concebe que

deveriam existir propagadores da renovação espiritual. Assim, ela ressalta a importância de lideranças associadas aos avivamentos ocorridos na história do cristianismo99.

Fazendo alusões ao desejado avivamento no Brasil, Appleby orou:

95 TOGNINI, Enéas e ALMEIDA, Silas Leite de. História dos Batistas Nacionais, p. 53 e 54. 96 APPLEBY, Rosalee Mills. Um avivamento no Brasil, p. 3.

97 APPLEBY, Rosalee Mills. Um avivamento no Brasil, p. 4. 98 APPLEBY, Rosalee Mills. Um avivamento no Brasil, p. 8 a 12. 99 APPLEBY, Rosalee Mills. Um avivamento no Brasil, p. 12.

“Concede-nos, Pai nosso, uma visão significativa de estarmos no Reino para tal tempo como este. Dá-nos fé tamanha, que confiadamente olhemos para ti nos transes mais aflitivos da vida. Vem a esta sociedade profana e ensina-a a repartir justiça entre os necessitados, educação a todos e eqüidade até para o mais humilde. Vem à nossa civilização, purificando-a de tal modo que seus princípios sejam baseados no amor e na pureza. Vivifica a nossa qualidade de Cristianismo que não tem conseguido combater os males do mundo. Dá-lhe vida e poder. Aviva-nos! “Aviva, ó Senhor, a tua obra no meio dos anos”. 100

Segundo Appleby, os cristãos dos tempos apostólicos, sem tanta intelectualidade e prestígio social, conseguiram propagar de forma adequada o evangelho.