• Sonuç bulunamadı

A idéia de pesquisar sobre o ativismo social anti-aids na atualidade é sempre desafiadora porque a dinâmica envolvida em torno da temática não diz respeito apenas às questões epidemiológicas da própria doença, mas às questões sociais e de interação entre portador do HIV e sociedade, que mudam rápida, veemente e incontestavelmente. Certamente tudo que aqui foi maquinado sobre esse ativismo estará superado já a partir da primeira leitura feita, por quem quer que seja, mediante essa dinâmica que envolve a luta contra a aids.

Nosso ponto de partida foi exatamente a convivência numa ONG/AIDS que vivenciou vários modelos de gestão anti-aids e, consequentemente, várias formas de ativismo. As questões estavam presentes em discussões internas oficiosas: atividade de rua ou execução de projetos? Evento em parceria com entidades da sociedade civil ou evento financiado pelo Programa Nacional de DST/AIDS? Enfim, várias questões que extrapolaram as paredes da ONG e alcançaram um nível de investigação mais acurado.

O caminho teórico seguido foi atual e estritamente correlato à temática da pesquisa. No aspecto metodológico, de modo rápido e sem muitos percalços, a pesquisa de campo foi realizada com as entrevistas dos técnicos e dos usuários, na própria sede do GAV, em momentos de atividades do grupo. A opção por uma escuta do campo de pesquisa foi um dos primeiros acertos do trabalho. Obviamente que o conhecimento anterior ao campo já se tinha, mas conseguimos distinguir e separar conhecimentos prévios dos conhecimentos adquiridos ao longo da pesquisa e isso era uma das maiores preocupações que se apresentavam. A investigação ainda abordou a inserção do usuário no GAV e a criação de estratégias de ativismo por parte da entidade, pergunta esta dirigida apenas aos técnicos os quais em sua maioria afirmaram que havia, sim, criação de estratégias de ativismo por parte do GAV.

Sobre os resultados, para os usuários, ativismo é adesão ao tratamento. É uma decisão/ação individual. Poucos falam em ações coletivas. A desmotivação, a opção pelo afastamento, move a desunião e a não participação nas atividades e, assim, a luta torna-se individual (privado) ao sair do coletivo (público).

Em relação aos técnicos, a análise aponta para o fato do terceiro setor em HIV/AIDS consolidar-se cada vez mais em uma perspectiva de mercado que não reconhece a singularidade e a heterogeneidade dos que compõem este terceiro setor, técnicos e usuários, fomentando a superficialidade das ações anti-aids. As ações dos técnicos estão voltadas para a institucionalização da aids e assumem o discurso do biopoder e da biopolítica.

O histórico de fundação de algumas ONGs é o norte para descobrirmos porque a parceria com o Estado tornou-se inevitável. Aliás, aqui podemos discernir que a parceria sempre existiu de duas maneiras: uma, através da ocupação do espaço oferecido pelas secretarias estaduais ou municipais de saúde para a discussão coletiva sobre ações de fundação de ONGs/AIDS e outra, pela opção por uma política de fomentação da parceria financeira com alguns organismos internacionais - Banco Mundial, UNESCO, UNAIDS –

que, percebendo a dimensão planetária da doença, decidiram repassar recursos para os países de todos os continentes mais atingidos pela epidemia.

Inevitavelmente, a luta institucional foi maquiada ao se roximar do Estado, através das parcerias para execução de projetos. As ONGs deixaram de desejar lutar para produzir resistência e essa produção é a resistência do capital dissimulado e maquiado que as colocou numa perspectiva de mercado. Portanto, paradoxalmente o momento atual da luta anti-aids se vê diante de uma pergunta: o desejo de luta contra aids produziu as ONGs ou as ONGs produziram o desejo de luta?? A resposta é a própria luta travada na contemporaneidade.

A constituição do ativismo institucional na contemporaneidade é atravessada pelo capital da execução dos projetos. O movimento anti-aids tem o ativismo ou a militância que o capital permite: diminuição de atividades de rua, priorização de execução de projetos e representação nas câmaras técnicas de discussão. Por isso, o dilema espinosano é adequado às ONGs e ao GAV: “Por que os homens lutam por sua opressão como se se tratasse de sua liberdade”? (Abbate & Paéz, 2001, p. 67).

Atuar contra a aids, institucionalmente, na sociedade civil, significava brigar por mais leitos em hospitais, por políticas públicas em HIV/AIDS e fazer visitas domiciliares e hospitalares às pessoas que vivem e convivem com a doença, mas esse cenário de luta mudou entre o final da década de 80 e inicio dos anos 90, com a consolidação das políticas públicas em HIV/AIDS e a descoberta da medicação especifica para os portadores do HIV, o chamado coquetel29. Desde então, ativismo contra a aids passou a significar execução de projetos de

intervenção comportamental, projetos de assessoria jurídica e de saúde mental, orientação e monitoramento do cumprimento das diretrizes de políticas públicas em HIV/AIDS, referentes à assistência e tratamento, e o fomento à participação nos Fóruns Estaduais e Nacionais de discussões sobre a temática.

29 Coquetel: Conjunto de medicamentos que interagem entre si e atuam impedindo multiplicação do vírus HIV.

Por último, mas não menos importante, questionamo-nos sobre qual o sentido da pesquisa. Ela não teve a presunção de dar respostas e nem a soberba de indicar caminhos. Ela não é a resposta e nem se arvora a dogmatizar os resultados encontrados. A pesquisa faz uma leitura da temática e é apenas uma provocação. Abre um leque de novas opções para tratar o assunto em tela e ao mesmo tempo engrandece os pesquisadores dando-lhes a oportunidade da reflexão.

Esse é o sentido de todo o trabalho. Se essa pesquisa não construísse e manifestasse em seus pesquisadores uma nova visão, dimensão e subjetividade acerca da temática tratada, sem sua dogmatização, não faria sentido algum alcançar resultados, apreciá-los, apresentá-los e discuti-los.

Benzer Belgeler