O debate sobre a relação entre a espiritualidade do terapeuta e a do cliente foi o que proporcionou o maior grupo de considerações. Sobre as perspectivas religiosas de ambos, Júlia disse: “até hoje não consegui fechar uma ideia, até que ponto é bom ou ruim. O fato é que o bom profissional, cristão ou não, vai exercer o trabalho dele bem”. Enquanto a maioria se posicionou de forma neutra com relação a isso, Talita disse explicitamente que acredita ser positivo que compartilhem dos mesmos valores religiosos:
Fiz terapia até o semestre passado, e meu terapeuta é da mesma religião que eu; eu não sabia a princípio, mas depois de umas sessões eu percebi (...) e vou ser sincera: me senti bem melhor,
sabendo que ele era da mesma religião (...). Eu fiquei mais confortável. (Talita).
As reações a essa questão mostram que ela ainda traz polêmica. Uma das participantes disse que seria importante o terapeuta conhecer bem a religião do paciente para entendê-lo, mas a maioria do grupo considerou que o trabalho terapêutico deve ser independente. Essa afirmação mostra que para elas a espiritualidade está separada da psicoterapia no que diz respeito ao atendimento clínico. Entre os posicionamentos que o psicoterapeuta pode apresentar frente à espiritualidade, Pargament (2007) aponta o viés espiritual e a miopia espiritual. O primeiro tende a manter visões estereotipadas sobre religião e espiritualidade, e o segundo enxerga os problemas espirituais, sua dimensão e suas possíveis soluções com dificuldade. Ambos, para o autor, podem dificultar o trabalho em relação à espiritualidade do paciente.
Outro questionamento foi sobre a autorrevelação, em função da qual o terapeuta explicita ou não sua religiosidade no atendimento: “Eu acho que eu tenho muito certo pra mim o que é meu, as minhas crenças, o que eu quero pra mim, a minha visão de mundo hoje, mas eu consigo muito respeitar com muito mais clareza e muito mais o espaço do outro (...)” (Luiza). “Acho que você, como terapeuta, não vai colocar as suas questões de religiosidade ao paciente, o que faz sentido pra você não faz sentido pra ele (...)”. (Luiza) “Pra mim, a minha religião é pessoal, não importa a religião do terapeuta (...)” (Júlia). Sobre este assunto Pargament defende que o terapeuta deve, sim, deixar claras as suas convicções espirituais ao cliente, e que isto colabora ao bom andamento da psicoterapia (PARGAMENT, 2007). A experiência de Júlia ilustra a situação, pois ela notou que isso influenciou o discurso do paciente nas sessões seguintes e, em consequência, no atendimento:
Ele tinha conflitos conjugais, era muito agressivo nas discussões (...); ele dizia que a religião ditava que o desejo dele não era a atitude correta, ele desejava o divórcio (...). Num momento da terapia começamos a conversar sobre a possibilidade dele realmente buscar o divórcio (...). Então perguntou (...) você é adventista? Eu disse: sou, e não dei muita atenção a isso. A partir daí percebi que a fala dele mudou (...); não falava mais dele, mas trazia as questões doutrinárias e da religião (...). Parecia que ele ficava com mais medo, pensando, qual seria a minha postura frente a tudo o que ele estava trazendo: será que eu iria julgá-lo, levando em consideração as minhas crenças religiosas que ele conhecia? (Júlia).
Apesar desse possível “risco”, Pargament (2007) defende que o terapeuta precisa abrir suas vivências, mas sempre atento ao fato de que sua vida não é o foco da terapia: ele deve ter clareza sobre como e quando pode se revelar, e sempre a serviço do cliente. Este tem o direito de saber a religião do terapeuta e até de escolhê-lo com base neste ou em outro dado, como sexo, filiação teórica, idade etc. É nesse contexto que um assunto volta com força: a
dificuldade de compreender a espiritualidade amplamente e,
consequentemente, a de falar sobre ela na clínica:
Eu estava pensando, como é tão conflituoso esse assunto da religião (...) e porque é tão aconselhável ao psicólogo fazer terapia. Nós achamos normal pensar e refletir sobre tantas dificuldades, mas quando parte para o aspecto espiritual ficamos numa angústia muito grande porque é algo que não conseguimos entender amplamente (...). (Júlia).
É complicado porque nós temos medo de que nossas próprias crenças estejam influenciando o que formos tocar, por mais que aqui se esteja trazendo a forma como vamos lidar com isso dá um certo medo. Por vezes eu penso, será que eu estou sendo tendenciosa, então algo que realmente a gente acaba fazendo é fugir para o teoricamente essencial (...). (Ana).
As declarações reforçam o risco de proceder com miopia espiritual, deixando de ver aspectos da vida do paciente que podem ser importantes. Sobre a postura terapêutica delas em situações diversas, notei um conflito entre o que devem fazer como psicólogas e o que devem fazer com seus valores pessoais. Mônica pergunta: “E se vem um paciente e diz que quer assumir e desenvolver uma escolha que é contrária a meus valores, o que faço? Ele é o paciente, isso é importante para ele, mas eu estaria indo contra meus princípios?!” Natália responde dizendo: “Não cabe ao psicólogo induzir, e sim, talvez, compreender melhor as razões do paciente para depois acompanhá-lo nesta escolha (...)”; utiliza inclusive uma referência religiosa para basear seu posicionamento:
Eu entendo que não estaria indo contra os meus princípios se o acompanho em sua decisão. Se eu estou caminhando junto com ele em uma decisão não estou decidindo por ele. E na minha concepção, Deus deu o livre arbítrio para cada ser humano decidir da maneira livre o que ele quiser. Então, para fazer como Deus, eu também não posso deixar de acompanhar o paciente nessa escolha. (Natália).
Percebi certa angústia no grupo pelas formas distintas de pensar de Mônica e de Natália; enquanto uma busca coerência profissional baseada em valores religiosos, a outra encontra uma justificativa “espiritual” para adotar
uma postura neutra, dissociada de seus valores pessoais. Para Pargament há três possíveis respostas por parte do terapeuta: 1) no caso mais simples, ele não tem problemas quanto ao tema e pode ajudar seu cliente com tranquilidade; 2) ele tem uma posição mais forte com relação ao tema, mas ainda assim pensa que pode ajudar seu cliente a achar a sua própria; e 3) pode não se sentir apto a atender determinadas demandas por causa de seus valores mais profundos. (PARGAMENT, 2007, p. 210). Natália, Júlia e Ana se posicionam próximas à segunda postura, enquanto as demais ainda demonstram não se sentirem aptas para atender demandas que estejam muito distantes de seus valores pessoais, estando mais propensas a encaminhar tais casos à outro profissional.
As participantes discutiram a inviabilidade do atendimento pela “incompatibilidade” de valores e o encaminhamento de atendimentos: “Se for interferir no tratamento sem dúvidas o melhor é encaminhar. Mas a pergunta que eu ainda tenho é essa: Até que ponto é uma questão profissional e até que ponto é uma questão extremamente pessoal?” (Natália).
5.3.2. Dificuldades em conversar sobre espiritualidade no