Concomitante a esse arranjo social estamental varguista, no interior da intelectualidade nacional, o debate sobre o ensino superior e a universidade seguia seus próprios rumos, com destaque a pelo menos dois movimentos principais:
(i) Em São Paulo, por iniciativa do jornal O Estado de S. Paulo, e de seu proprietário Júlio de Mesquita Filho, o liberal Fernando de Azevedo conduziria ainda
em 1926 um inquérito sobre a instrução pública com educadores e especialistas do estado paulista; por entre outros objetivos mais amplos acerca da educação como um todo, procurava identificar quais seriam os elementos desejáveis na eventual instauração de uma universidade (SOARES, 1978). Tal inquérito, mais as contingências políticas e econômicas que levaram a perda da hegemonia paulista no quadro nacional do Governo Provisório, levariam à formação da Universidade de São Paulo (USP) em 1934 (SCHWARTZMAN, 2006);
(ii) E no Rio de Janeiro – e de lá para o restante do país – a partir da criação da Associação Brasileira de Educação (ABE), em 1924, que também iria conduzir, em seus próprios termos, inquéritos sobre a instrução ainda em 1927 (PAIM, 1981). Tal qual fizeram os paulistas, a ABE especulou com professores e especialistas de várias regiões do Brasil sobre os problemas educacionais, obtendo resultados que podem ser resumidos em duas posições antagônicas: de um lado, partidários de um ensino técnico, com ênfase na instrução moral e católica, cujo projeto de nação deveria passar pela homogeneização da formação média e pela formação do magistério para o ensino secundário; de outro, partidários da construção de universidades autônomas voltadas aos estudos desinteressados de cultura geral e com ênfase em pesquisa, bem aos moldes da reforma alemã (CARVALHO, M.M.C., 1998). O primeiro grupo, do ensino médio e técnico, da construção moral e católica da nação, identificou-se amplamente com a reforma educacional getulista.
Em comum, no entanto, tanto os paulistas do "inquérito Azevedo" quanto os grupos em torno da ABE partilhavam da idéia da necessidade da formação de uma elite intelectual no país que, às expensas da radicalização nacionalista que viria com Vargas, também seria um elemento de integração nacional (PAIM, 1981; CARVALHO, M.M.C, 1998). Nos dissensos da ABE, entretanto, é possível observar a força reacionária ainda persistente e resistente, entre os educadores, da tradição educacional construída ao longo da Colônia, assentada na moral cristã e na formação média homogênea. Tal força começou a se materializar, a propósito, em pouco tempo de Governo Provisório: dias após a posse de Francisco Campos como
Ministro da Educação, Vargas assinaria decreto autorizando o ensino de religião nas escolas federais, estaduais e municipais12 (CUNHA, 1986).
Mas o Governo Provisório de Vargas, apesar de seu projeto político imposto de cima para baixo e de sua estreita relação com o alto clero, procurava manter uma retórica conciliadora com os grupos liberais que reivindicavam a universidade moderna e autônoma (PAIM, 1981; CUNHA, 1986; MENDONÇA, 2000). Logo que assume o poder, em abril de 1931, publica o Decreto nº 19.851, chamado de Estatuto da Universidade Brasileira, posteriormente conhecido como Reforma Campos, no qual resgata as responsabilidades federais relacionadas ao planejamento e ao controle da educação superior e, declara, finalmente, a universidade como seu arranjo institucional preferencial (BRASIL, 1931, p.5800):
O Decreto nº 19.851/1931 dispõe que o ensino superior no Brasil obedecerá, de preferencia, ao systema universitario, podendo ainda ser ministrado em institutos isolados, e que a organização technica e administrativa das universidades é instituida no presente Decreto, regendo-se os institutos isolados pelos respectivos regulamentos, observados os dispositivos do seguinte Estatuto das Universidades Brasileiras. (BRASIL, 1931, p.5800).
O tom conciliador continua – apesar de, no limite, revelar mais a habilidade política de Vargas do que uma agenda concreta –, como se observa logo no primeiro artigo do Estatuto, que faz breve menção aos elementos há muito reivindicados de ciência pura e de cultura desinteressada que compunham o ideário da universidade (TEIXEIRA, 1989; MENDONÇA, 2000; FÁVERO, 2006):
O ensino universitário tem como finalidade: elevar o nível da cultura geral, estimular a investigação scientífica em quaesquer domínios
12 Francisco Campos foi um dos líderes do movimento fascista mineiro Legião de Outubro. Em um desfile por ele liderado, contou-se com a presença de Vargas e do Arcebispo de Belo Horizonte. O decreto autorizando o ensino religioso foi assinado 9 (nove) dias depois desse encontro (CUNHA, 1986).
dos conhecimentos humanos; habilitar ao exercício de actividades que requerem preparo technico e scientífico superior; concorrer, emfim, pela educação do individuo e da collectividade, pela harmonia de objectivos entre professores e estudantes e pelo aproveitamento de todas as actividades universitárias, para a grandeza na Nação e para o aperfeiçoamento da Humanidade. (BRASIL, 1931, p.5800).
Ainda, o Estatuto abria a possibilidade para a construção da universidade ao redor da Faculdade de Educação, Ciências e Letras "[...] que, nas universidades alemãs, representavam o órgão universitário por excelência, integrador das demais atividades e fonte de pesquisas inovadoras [...]" (PAULA, 2009, p.74), ao invés das tradicionais escolas profissionalizantes (TEIXEIRA, 1989):
Art. 5º A constituição de uma universidade brasileira deverá attender ás seguintes exigencias:
I - congregar em unidade universitaria pelo menos três dos seguintes institutos do ensino superior: Faculdade de Direito, Faculdade de Medicina, Escola de Engenharia e Faculdade de Educação, Sciencias e Letras. (BRASIL, 1931, p.5800).
A tríade bacharelesca técnico-profissional, a essa altura já clássica na formação superior nacional, o Direito, a Medicina e a Engenharia, passaria então a compartilhar o espaço na universidade com o pensamento humanístico, científico e filosófico, destinados a "[...] elevar o nivel da cultura geral, estimular a investigação scientifica [...] (SIC)" e contribuir para o "[...] aperfeiçoamento da Humanidade" (BRASIL, 1931, p.5.800).
Entretanto, apesar do ânimo inicial causado pelos artigos gerais do Titulo I do novo estatuto (Fins do Ensino Universitário), o restante do conteúdo revelava o caráter por vezes autoritário da universidade getulista, como se pode observar no detalhamento de alguns dos artigos subseqüentes, aqui sumarizados e agrupados
em torno de temas comuns, com destaque em trechos que demonstram maior ingerência do Estado:
(i) Os estados e a iniciativa privada poderiam continuar criando, mantendo e expandindo universidades, mas sob o controle do Ministério da Educação e do Conselho Nacional de Educação, que gozariam de poder de veto e intervenção sobre seus estatutos. A prerrogativa do uso da denominação "universidade" só seria concedida para as universidades federais ou equiparadas;
(ii) Os diplomas e demais títulos emitidos pelas universidades federais teriam validade em todo o território nacional. As universidades estaduais e particulares, para obter o mesmo privilégio, deveriam ser equiparadas e, para isso, passarem pelo crivo do Ministério da Educação e posterior fiscalização regular;
(iii) Os reitores das universidades estaduais e federais passariam a ser escolhidos pelos seus respectivos governos, a partir de lista tríplice fechada. Os professores catedráticos deveriam compor os conselhos e apontar os nomes da lista. Já os reitores das universidades privadas equiparadas deveriam ter seus nomes aprovados pelo Ministério da Educação; o mesmo ocorreria com os diretores dos institutos integrantes da universidade, que passariam a ser escolhidos pelo Governo também em lista tríplice;
(iv) O corpo docente obedeceria a uma hierarquia tendo o professor catedrático, vitalício, no topo, como titular da disciplina e responsável pelo seu programa oficial, seguido de docentes livres e auxiliares de ensino, além de, eventualmente, professores contratados. Os professores catedráticos seriam os responsáveis pelas disciplinas que formariam os cursos e pela livre escolha de seus auxiliares de ensino e de docentes livres. Estes, responsáveis pela condução das disciplinas resultantes das divisões das cátedras;
(v) O ingresso no ensino superior voltaria a ser regido por exames vestibulares e os diplomas superiores confeririam habilitação para o exercício legal
das respectivas profissões13. (Fonte: BRASIL. Decreto nº 19.851, de 11 de Abril de 1931).
Pouco depois do Estatuto Campos, em 1934 é fundada a Universidade de São Paulo (USP). Ressalta-se, porém, que a USP não foi um projeto federal, mas uma iniciativa do estado de São Paulo, numa tentativa combinada entre suas elites e seu governo para resgatar a hegemonia perdida com a Revolução de 1932, agora através da ciência moderna e de práticas gerenciais e de negócios (SCHWARTZMAN, 2006). Também em 1934, é fundada a Universidade de Porto Alegre, através de decreto estadual e com forte inspiração positivista, a partir da junção das escolas de Medicina, Direito, Engenharia e Belas Artes, além da previsão da criação da Faculdade de Educação, Ciências e Letras (UFRGS, n.d). Em 1935, é fundada a Universidade do Distrito Federal (UDF), no Rio de Janeiro, a partir da iniciativa do então secretário estadual de educação, Anísio Teixeira14 (MENDONÇA, 2000). Com a exceção da positivista Universidade de Porto Alegre, que constituiria os pilares da instituição a partir das unidades isoladas da Escola de Engenharia, da Faculdade de Medicina e da Faculdade de Direito (UFRGS, n.d), ambas as universidade de Rio e de São Paulo são nucleadas a partir da Faculdade de Educação, Ciências e Letras, como previa o estatuto de 1931:
A introdução da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras tinha em vista o estudo especializado, em nível superior, desses campos de cultura desinteressada e não propriamente profissional. Viria substituir o autodidatismo antes reinante nesses estudos. As primeiras escolas do tipo, no Rio (Universidade do Distrito Federal) e em São Paulo (Universidade de São Paulo, criada em 1934), trouxeram da Europa missões de professores estrangeiros para implantá-las15. Representavam real acréscimo ao ensino superior então existente no país e tinham (sobretudo em São Paulo) o
13 Apenas a título de curiosidade: era possível obter o grau de doutor mediante a defesa de uma tese logo após a conclusão de um curso normal, técnico ou científico (BRASIL, 1931).
14 Teixeira é, inclusive, largamente utilizado como fonte no presente trabalho.
15 As missões estrangeiras na USP contavam com professores franceses, alemães, americanos, portugueses e italianos, dentre outras nacionalidades (CUNHA, 1986). No meio deles, por exemplo, estava o antropólogo francês Lévi-Strauss, que durante sua passagem pela universidade realizou incursões etnográficas por entre os povos nativos do Brasil, num esforço de pesquisa que culminou com o livro Tristes Tropiques, publicado em 1955 (STRAUSS, 1996 [1955]).
propósito de se fazerem as escolas centrais da universidade, ministrando os cursos básicos propedêuticos aos cursos das escolas propriamente profissionais de medicina, direito e engenharia e, depois, à especialização literária, científica e filosófica. (TEIXEIRA, 1989, p.106).
Ao que tudo indicava, finalmente o modelo de universidade moderna, humboldtiana, baseada em pesquisa e em sua imbricada relação com o ensino, tinha desembarcado por aqui. Entretanto, de fato, não foi isso o que ocorreu. Por hora, é preciso reconhecer que os esforços para a criação da USP e da UDF eram diferentes, porém igualmente contingenciais: em relação à UDF, o curto período em que houve um "vácuo de poder" no projeto de centralização varguista, abriu-se a possibilidade a um liberal, Anísio Teixeira, de estar à frente das reformas educacionais no Rio de Janeiro, permanecendo como secretário da educação até 1935, ano em que promoveu a fundação da universidade (CUNHA, 1986); na USP, uma combinação entre a riqueza do estado de São Paulo e seu débâcle na tentativa de resgate da hegemonia política em 1932, catalisaram o ímpeto da criação da universidade (SCHWARTZMAN, 2006).
Em ambas, entretanto, a força da tradição de um tipo de ensino superior utilitarista gestado pelo Império há pouco mais de um século acabaria por se impor. Até mesmo a redentora Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras transmutou-se de núcleo da integração e da articulação de saberes para mais uma, dentre outras, emissora de diplomas do conglomerado de faculdades isoladas que formavam as universidades:
Não logrou a nova universidade cumprir a sua ambiciosa missão. A tradição – a rigor antiuniversitária, se concebermos a universidade como estudos integrados dados em cooperação por várias escolas, entre as quais a de filosofia seria a central (modelo germânico) – opôs-se à posição pretendida pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Esta tradição era a da escola superior isolada e independente, de tipo profissional, que nos vinha do Império, com a fundação das escolas de medicina e de direito, as quais, com a Central de Engenharia Politécnica, criada depois, constituíam o grupo tradicional e prestigioso do ensino superior brasileiro. Em seu
desenvolvimento posterior, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, sofrendo os efeitos dessa tradição, fez-se dominantemente uma nova escola profissional de preparo para o magistério secundário, com existência isolada e independente, como as demais escolas profissionais. Deste modo, mesmo depois da criação da Faculdade de Filosofia, à Ciências e Letras e da reformulação da universidade em 1930, persistiu a tradição da escola superior independente e auto-suficiente e da universidade do tipo confederação de escolas profissionais. (TEIXEIRA, 1989, p.106-107).
No Rio, os eventos políticos da turbulenta década de 1930 tornaram a experiência da UDF ainda menos favorável ao projeto idealizado por Anísio Teixeira: com a intentona comunista de 1935 – o fracassado golpe que não havia passado de "uma quartelada de tenentes" (TRAGTENBERG, 2009, p.226) – Vargas passa a ter a prerrogativa legal de decretar estado de sítio e ganha o álibi necessário para o aumento da repressão contra seus principais rivais ideológicos: os comunistas e os liberais. Logo mais a frente, ainda capitalizando politicamente a malfadada tentativa, arquiteta o seu próprio golpe e instaura uma ditadura, em 1937, dando início a um período da política nacional que viria a ser conhecido como Estado Novo (CUNHA, 1937)16. Com o uso político e a amplificação do episódio para além de suas bases reais, e com a conseqüente instauração de um clima de terror e de caça às bruxas contra a "ameaça comunista", Vargas endurece a repressão e a perseguição contra qualquer alvo que lhe parecesse minimamente inimigo.
Em meio a esse clima, o liberal Anísio Teixeira se vê obrigado a deixar a secretaria da educação do estado; tendo sido acusado de comunista, teve ainda sua prisão ventilada pelos fascistas mais radicais (CUNHA, 1986). Como conseqüência de sua saída, não tardou para o desmanche da universidade ocorrer, tendo seu fim oficialmente decretado em 1939, e seu "espólio" incorporado à recém-criada Universidade do Brasil (UB), no mesmo ano de 1939, também no Rio de Janeiro (CUNHA, 1986).
16 Em relação à capitalização política em cima da "ameaça vermelha", pode-se consultar ampla bibliografia sobre a farsa do Plano Cohen, um suposto plano comunista para a tomada de poder no Brasil, oportunamente denunciado por Getúlio às vésperas das eleições programadas para 1938. Como o herói do "Fico", em uma república acostumada a escrever sua história pela via oficalesca, Getúlio "salva a pátria".
A UB havia sido prevista ainda em 1937, pouco antes do golpe de Vargas, através da Lei n° 452 de 5 de julho, já com o fascista Gustavo Capanema Filho a frente do Ministério da Educação (FÁVERO, 2006). Sua proposta era a de servir como um modelo institucional para as demais universidades do país, ainda regidas pelo Estatuto de 1931. Ao longo dos seus artigos, revelava importantes indícios do estado autoritário e ditatorial que se instalaria com o Estado Novo: a escolha do Reitor e dos respectivos diretores e de suas diversas escolas e faculdades seria prerrogativa exclusiva do Presidente da República (BRASIL, 1937). Além disso, os artigos 29 e 30 proibiam, expressamente, quaisquer manifestações político- partidárias entre seus alunos e professores:
Art. 29. Os professores e os alunos da Universidade do Brasil não poderão tomar oficialmente, nem coletivamente, dentro da Universidade, qualquer atitude de caráter político-partidário.
Art. 30. Os professores e os alunos da Universidade do Brasil não poderão comparecer aos trabalhos escolares ou a quaisquer solenidades universitárias, com uniforme ou emblema de partidos políticos. (BRASIL, 1937, p.14830).
Os contornos da formação da UB também revelam a influência persistente da Igreja Católica na formação da educação superior no país: o "comunismo" de Anísio Teixeira teria sido evidenciado com a recusa deste, enquanto secretário da educação, em permitir o ensino religioso nas escolas do estado ainda no início do Governo Vargas (CUNHA, 1999); além disso, o liberalismo da UDF, manifesto na defesa do ensino leigo e gratuito, ia frontalmente contra os interesses dos católicos, interessados em institucionalizar no país um tipo de ensino superior privado e com forte conotação moral e cívica (SALEM, 1982; CAMACHO, 2002; OLIVEN, 2002)17. Aspectos estes, aliás, bastante desejados pelo getulismo, numa
17 "A criação da Universidade do Distrito Federal, em 1934, promovida por Anísio Teixeira, foi muito mal recebida pela intelectualidade católica. Acusando seu idealizador ora de americanizar a educação brasileira, ora de comunizá-la, os católicos apontam a nova instituição como sendo não só puramente laica mas, de fato, anticatólica. Para conter o avanço da secularização da cultura superior brasileira e a infiltração da pedagogia comunista nas políticas educacionais oficiais, o
convergência curiosa: ao passo que Vargas imprimia seu projeto de industrialização que previa o distanciamento do país em relação ao seu passado parafeudal, se reaproximava dos ideais educacionais dos católicos do período colonial.
A influência católica no getulismo se fez sentir, também, no golpe final dado à breve vida da UDF: Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Athayde, um dos críticos mais radicais de Anísio Teixeira, foi nomeado reitor da universidade por Capanema, tendo a missão de conduzir seu fim e sua transição para a UB (CAMACHO, 2002).
Alceu Lima ainda foi o articulador da criação do Instituto Católico de Estudos Superiores, ainda em 1932, que viria a ser o embrião da futura Universidade Católica do Rio de Janeiro, hoje Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUCRIO); em 1940, a direção pedagógica e administrativa da futura universidade é confiada à Companhia de Jesus (SALEM, 1982), fato que viria a se concretizar em 1946, com o Decreto-Lei n° 8.681 de 15 de janeiro, instituindo a Universidade Católica do Rio de Janeiro (BRASIL, 1946), já após a Era Vargas, portanto. No ano seguinte à sua criação, em 1947, a Santa Sé concedia à instituição o título de "pontifícia" (SALEM, 1982).
Em relação à USP, o projeto de nucleação da universidade em torno da Faculdade de Filosofia não saiu do papel. O caráter elitista das antigas escolas profissionalizantes de medicina, engenharia, e direito, logo passou a se manifestar contra a idéia de uma subordinação conceitual e prática à Faculdade de Filosofia. Dentre as tentativas de nucleação, estava prevista a incorporação de um amplo leque de disciplinas básicas e propedêuticas desses cursos tradicionais ao departamento de Filosofia, tais como matemática, química e biologia, o que gerou profunda resistência e atos de sabotagem contra o projeto: a Faculdade de Medicina, por exemplo, impediu a ampliação de seu prédio para abrigar algumas seções correspondentes da Faculdade de Filosofia; e a Faculdade de Direito se posicionou contra qualquer tentativa de transferência para um campus unificado que pudesse vir a ser construído; "assim, a idéia de departamentos e institutos unificados
grupo volta a insistir na importância da criação de um centro livre de estudos superiores católicos." (SALEM, 1982, p.112).
foi posta de lado, tendo sido mantida em recesso durante várias décadas" (SCHWARTZMAN, 2001, p.27).
Quer seja pelo constrangimento das forças político-institucionais, quer seja pelo movimento de resistência dos velhos elitismos acadêmicos, construídos na tradição secular dos cursos técnico-profissionalizantes de formação de elites, o projeto de universidade moderna, com pesquisa e cultivo de saberes humanos diversos, encontrava resistência duradoura no país. E em meio a essa resistência, a reflexão, a filosofia, o pensamento crítico, desde sempre perdiam espaço para o pensamento pragmático utilitarista: na hierarquia dos conhecimentos, médicos, advogados e engenheiros viam antes, enquanto as disciplinas reflexivas destinavam-se ao papel secundário da formação para o magistério.