O resultado das entrevistas nos permitiu constatar, que o bom momento da indústria do transporte marítimo brasileiro, tem sido um fator importante de influência, na decisão do Oficial da Marinha Mercante, em mudar de emprego, ou, até mesmo, deixar a carreira embarcada, uma vez que há inúmeras oportunidades profissionais para alguém com as suas qualificações, como visto anteriormente na seção 2.1.1. Neste sentido, apoiando-nos em
Griffeth e Maertz (2004), vemos que o grau de confiança dos trabalhadores, em suas próprias habilidades, para poder conseguir uma alternativa à sua atual posição e o natural sentimento nutrido pelos indivíduos de evitar incertezas, trazidas pelo desemprego, faz com que eles avaliem o mercado, seja com informações imprecisas ou com alguma opção de oferta de emprego específica. Nos relatos a seguir fica evidenciado que o fenômeno da evasão é cíclico, isto é, varia em intensidade de acordo com a situação do mercado, e, atualmente, a grande quantidade de alternativas tem facilitado a decisão dos OMM:
[...] isso ocorria porque, naquela época, a indústria no Brasil estava em uma expansão razoavelmente grande e a falta de formação/experiência de técnicos em mecânica, refrigeração, eletricidade, etc, gerava uma imensa janela de oportunidades para o oficiais de máquina em hotéis, fábricas de cerveja, usinas (termoelétricas, hidroelétricas, nucelares, etc) estaleiros, oficinas de reparos, etc [...] (E01)
A Marinha Mercante brasileira, ao longo da sua história, passou sempre por momentos de altos e baixos, sendo os últimos acentuados nas décadas de 1980 e 1990. Nesse período, como nos mostra os relatos a seguir, a frota brasileira praticamente desapareceu e, com isso, o mercado de trabalho dos OMM tornou-se extremamente difícil.
[...] Já nos anos 80, com a destruição da nossa indústria naval, tanto na construção como na parte de navegação comercial, houve um desinteresse muito grande pela carreira e houve uma queda acentuada no número de oficiais formados anualmente [...] (E01)
[...] Obviamente no Brasil a indústria marítima ficou, não é [...] uma indústria tradicional, durante um tempo ela ficou quase decadente a frota marítima brasileira foi quase inexistente, na década de 90, início de 2000, o CIAGA e CIABA formava, tinha as vezes menos de 30 Oficiais, nos três cursos, ou perto disso[...] (E03)
[...] Eu fui um caso a parte a minha turma de 1988 de Belém existiam 80 alunos, 40 brasileiros e 40 estrangeiros, e mesmo assim naquela época quando eu me formei eu passei 6 meses na pedra...não tinha vaga....não tinha vaga....fui embarcar...eu estagiei e pratiquei na Docenave [...] (E08)
A partir da década iniciada em 2000, com a adoção de políticas de incentivo e imposição de contratação de mão de obra local, colocada em efeito com a edição da Resolução Normativa n° 72/2006, do Conselho Nacional de Imigração, a descoberta de novas
reservas de petróleo e a expansão da frota de bandeira brasileira, a demanda por OMM deu um vigoroso salto, superando até mesmo a disponibilidade existente no mercado.
[...] O que eu tenho percebido nesse tempo são diversos fatores que estão levando as pessoas é .... esse boom do offshore que ocorreu alguns anos atrás despertou muito o interesse para a profissão[...] (E07)
[...] esse comentário faço pelo fato que, nos dias hoje, um oficial brasileiro que sai de uma empresa hoje, independentemente da razão, exceto justa causa, muito provavelmente estará empregado em outra empresa no próximo dia [...] (E01)
Chama atenção o fato de que a evasão dos OMM tem sido provocada, também, pelas próprias oportunidades criadas pelas empresas, que buscam profissionais com uma formação técnica para os seus quadros, baseados em terra, capazes de gerenciar operações em portos, terminais ou de embarcações. Os relatos a seguir demonstram alguns tipos de carreiras disponíveis no mercado:
[...]Também eles trabalham muito nos terminais da Petrobras, como inspetores técnicos nos terminais e também nos estaleiros, é nessas atividades eles desempenham nos escritórios eles desempenham tarefas no RH, na comercial, muitas vezes e na técnica sempre. (E02)
[...] E o próprio mercado demanda esse tipo de profissional. Que é um profissional qualificado, que fala inglês, entende da área, principalmente esse mercado offshore, para trabalhar em escritório, então muitas empresas que têm embarcações operando, elas também necessitam do conhecimento do Oficial em terra e acaba quase que equiparando o salário. (E04)
[...] Então a conta que o Oficial faz é: poxa eu trabalhando 30 dias a bordo e ficando 30 dias em casa eu consigo ganhar quase a mesma coisa trabalhando em terra [...] (E04)
Os fatores motivadores agem de modo subjetivo e pessoal em cada indivíduo, inclinando o sujeito a aspirações de sucesso, de realização e de poder com intensidades distintas e únicas. De acordo com Gellerman (1976), os agentes motivadores dizem respeito ao desejo de conquista do meio e não diminuem a sua intensidade, porque o campo ambicionado é incrivelmente extenso para poder ser dominado. É esta a razão pela qual, para cada sucesso alcançado, surge em seguida um novo desafio, atraindo o indivíduo na esperança
de conquistar novas vitórias. Os relatos a abaixo evidenciam a ação dos agentes motivadores direcionando e impulsionando os OMM rumo a novas conquistas:
[...] Outra situação que a gente tem, eu diria que é a parte do salário. Os salários elevados que existem hoje para Oficial. Isso possibilita que os Oficiais consigam em um curto espaço de tempo juntar uma poupança, ter um conforto, um colchão que dê um certo conforto financeiramente, e com isso eles possam passar a buscar condições melhores para um trabalho em terra. (E04)
[...] por exemplo, hoje em dia a ...o cidadão trabalha numa empresa, a empresa concorrente paga um pouco a mais ele acaba migrando para outra empresa ai ele fica um tempo nessa empresa e uma empresa assedia e paga mais ainda dá oportunidade de repente dele embarcar num cargo, ou função acima, ele com certeza vai preferir ir para outra empresa....então tem um comprometimento menor...com relação ao pessoal do passado. (E10)
Diante de tais revelações podemos verificar que a decisão dos Oficiais da Marinha Mercante de deixar a carreira embarcada é influenciada pelo mercado, ou seja, o ambiente externo, e suas alternativas. Pelos relatos acima expostos fica patente que o fenômeno da evasão ganha contornos mais aparentes quando os OMM se vêm diante de inúmeras possibilidades e alternativas para melhorar a qualidade de vida, progredir e ampliar o seu espaço já conquistado.