A evolução dos aparatos tecnológicos suscitou diversos debates e pesquisas destinados a investigar o potencial das ferramentas e iniciativas que pudessem resolver o déficit de participação política da atual democracia representativa. Desde a década de 1970, a literatura acadêmica vem se dedicando a encontrar alternativas para melhorar o sistema de representação política. O próprio Habermas (1968), em seus escritos, já destacava a necessidade de ampliar a participação política dos cidadãos, a importância da comunicação e a intervenção da sociedade civil nos negócios públicos. A democracia é um sistema que cuida do que é coletivo e a participação e o engajamento dos cidadãos surgem como meios para garantir a autonomia do povo e para que eles possam se autogovernar.
No modelo moderno de democracia, tornou-se inviável pensar no modelo de democracia direta e, assim, a participação dos cidadãos nos assuntos que afetam a comunidade foi restringida. Fala-se que a democracia representativa foi convertida em democracia eleitoral, em que o poder de decisão dos cidadãos se resume apenas à escolha dos representantes políticos e às consultas populares. Nessa lógica, a democracia contemporânea esbarrou em uma série de problemas, como a apatia política dos cidadãos, uma elite focada nos seus interesses privados e uma ausência de
accountability (GOMES, 2011). A participação política tal como foi estilizada ficou
dependente da existência de estruturas políticas que fornecessem oportunidades e incentivos aos cidadãos. Em sistemas democráticos, as estruturas de participação política consideradas mais importantes estão relacionadas com o sufrágio universal (direito de voto) e os processos eleitorais competitivos em que forças políticas organizadas, partidos políticos, disputam cargos eletivos.
O conceito de participação política tem seu significado diretamente vinculado à conquista dos direitos de cidadania, em particular à extensão dos direitos políticos aos cidadãos adultos. Sob essa perspectiva, os estudos de Giacomo Sani (apud BOBBIO, 2007) definem três níveis básicos de participação política.
O primeiro nível de participação pode ser denominado de presença. Trata-se da forma menos intensa de participação, pois engloba comportamentos tipicamente passivos, como, por exemplo, a participação em reuniões, ou meramente receptivos, como a exposição a mensagens e propagandas políticas. O segundo nível de
participação pode ser designado de ativação. Está relacionado com atividades voluntárias que os indivíduos desenvolvem dentro ou fora de uma organização política, podendo abranger participação em campanhas eleitorais, propaganda e militância partidária, além de participação em manifestações públicas. O terceiro nível de participação política é representado pelo termo decisão. Trata-se da situação em que o indivíduo contribui direta ou indiretamente para uma decisão política, elegendo um representante político (delegação de poderes) ou se candidatando a um cargo governamental (legislativo ou executivo). Para que um sujeito possa de fato exercer sua cidadania, o ideal é que ele esteja inserido nos três níveis de participação. Contudo, é difícil encontrar cidadãos que estejam inseridos dentro desses três níveis de participação. A pesquisa realizada identificou somente dois níveis de participação entre os entrevistados.
A problemática que norteia essa análise recai sobre o emprego da comunicação mediada por computador para conseguir promover novas formas de participação política e estimular o engajamento cívico. É necessário lembrar que o déficit de participação política está atrelado à ausência de outros requisitos da vida democrática. Segundo Gomes (2011), algumas dessas faltas são relacionadas à cultura política, entendida como mentalidades, valores, convicções e representações compartilhadas. Faltaria à cultura política dos cidadãos nas democracias contemporâneas um elementar sentido de efetividade das práticas políticas civis.
Ao aproximar essas questões com a realidade do Nordeste brasileiro, percebe-se que existe toda uma fragilidade associativa da sociedade civil. A população se conformou em ficar à margem das decisões que afetam diretamente a coletividade. De fato, hoje existem mais canais e oportunidades de dar voz às reivindicações da população, bem como há um enorme volume de informação circulando na rede diariamente. O excesso de informação acaba gerando uma dispersão dos leitores quanto aos temas e assuntos discutidos. Cada nova postagem da blogueira representa o início de novas discussões e, consequentemente, os embates que estavam sendo travados no
post anterior se encerram. São esses tipos de obstáculos que dificultam o processo
deliberativo entre os participantes na discussão. O comentarista Civirino defende:
Acho que ainda não chegamos ao ponto de usar o Blog como um espaço público que favoreça o debate. Geralmente o assunto é posto em discussão e uma vez emitidas as opiniões estas vão cessando à medida que outros post vão sendo lançados e tudo acaba esquecido. Durante todo esse tempo só presenciei um caso em que o debate se manteve por cerca de 6 dias quando
critiquei a atuação da CAERN e até um ex-diretor dessa estatal se meteu na discussão. Não apenas eu, mas a maioria dos participantes achou que o debate foi bastante produtivo, inclusive teve um que sugeriu colocar os comentários nos anais do Blog.
Durante os meses de observação nos dois blogs pesquisados, não foi identificada a existência de um espaço público plural, mas sim de um espaço que tende à homogeneização dos discursos. Os interesses privados e as motivações pessoais e econômicas prevalecem. Dessa maneira, a liberdade nos blogs é concedida apenas para quem os mantém e gerencia, que são os blogueiros. A participação está condicionada aos filtros impostos pelo autor do espaço. Os leitores são submetidos a várias seleções. Eles precisam ter competências discursivas, domínio sobre os protocolos técnicos, acesso à tecnologia, que seus textos se adéquem às normas exigidas e aos interesses do blogueiro.
Observa-se também a permanência de velhas formas de repressão e censura. Os políticos continuam empregando artifícios para cercear a liberdade de expressão dos cidadãos. A própria Laurita Arruda foi demitida de um grande veículo de comunicação por aceitar um comentário divergente da posição partidária da empresa. Alguns comentaristas do TL confirmam essa prática comum no Rio Grande do Norte:
1 Civirino 16/out/2009 às 11:10
Uma postura policialesca do deputado Henrique Eduardo, porém não surpreendente, uma vez que o mesmo desempenha o papel de fiel guardião dos interesses do grupo a que pertence, onde uma imprensa que por definição deveria ser livre, é usada como órgão a serviço do interesse político- paroquial. Atitudes como essa, lembram muito bem a censura dos anos de chumbo, revelando o caráter subserviente e tendencioso imposto ao periódico, portanto incompatível com a linha independente adotada pelo TL. Isto explica o rompimento!
2 Fera 17/out/2009 às 08:10
“Discutir relação? seria ele um especialista no assunto? Não acredito neste seu dom.”……..um comentário…que tinha se perdido no tempo e no espaço….quem danado iria se lembrar disso….mas agora……..o “Hemeterio Lins”……(ainda bem que não foi o Fera)…..vai ficar lembrado….como o homem…que descobriu que o Dep Henrique Alves……é um incompetente….como negociador……pois pelo desfecho……ficou provado que o Hemetério tem razão….o que não é nenhuma novidade…para quem conhece o Dep APRESSADO….que ultimamente…..vem se revelando como
um excelente……puxa saco……..é só acompanhar o noticiário e ver o que
ele se declara ao Lula…….agora……Dra. Laurita…..me lembrei do coronel Ludugero……acho que nesse caso o mesmo iria chamar Filomena e Otrope……e mandar cantar aquela famosa música……” xeleleu….oh…xeleleu…..o teu lugar tá garantido lá no céu”………….kkkkkkkkkkkkkkk…..no mais é dizer que não se… “avexe não”……….pois se o seu voo já estava lotado…..agora….nem o metrô de São Paulo…com todos os seus vagões….consiguirá levar seus leitores…….kkkkkkkkkkkkkkkkk…….
3 Henrique 17/out/2009 às 09:10
Laurita
Ficou muito feio para o Dep. Henrique essa atitude tacanha e arcáica. Mostrando o quanto é atrasada a mentalidade desse meu chará, pensei que hoje não existissem mais pessoas com esse tipo de comportamento, ainda mais quando foram vitimas no passado desse tipo de atitude e sempre abriam a boca para combate-la.
O Dep. se mostrou partidário do “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”.
Tenha certeza que esse ato foi altamente positivo para o TL e para sua trajetória como Jornalista, pois confere credibilidade a suas palavras. Quanto ao jornal do Dep. esse perde muito em credibilidade pois estes atos surgerem que quem está lá é porque aceita este tipo de censura e subserviência.
PARABÉNS AO TL E A VC LAURITA PELA SUA ATITUDE !!!!!
4 William Robson 17/out/2009 às 09:10
As empresas jornalisticas ainda acham que são as donas da informação e q por isso, podem impor algo a seus empregados e jornalistas sob a ameaça do desemprego. Ledo engano. Com o Território Livre no território livre da internet, vc Laurita, não teve qualquer prejuízo. Seus leitores continuarão fiéis e suas opiniões bem mais protegidas, pq ninguém, nem um veículo poderá impor de maneira diferente. A informação não é mais uma propriedade privada e as empresas ainda não estão cientes disso. Criticam blogs, menosprezam webjornalistas, como forma de delimitar um território que agora é livre e de todos.
A sociedade civil passou a representar aquele público fraco, subalterno, defendido por Fraser (2001), cujas ações acabam não interferindo nas decisões de poder. Como sugerem Maia, Gomes e Marques (2011), parece que não há uma conexão de causa e efeito entre a ação do cidadão e o modo como se decidem as coisas referentes ao Estado. Criou-se uma marginalização do papel dos cidadãos. Ao analisar as recorrências dos comentários dos leitores nos blogs, constatou-se que existe uma total desconexão entre a esfera onde se toma a decisão política e onde se controla o Estado, de um lado, e a esfera da cidadania, do outro. A progressiva onda de profissionalização da função política, com formação da classe dos representantes e tomadores de decisão, dos agentes envolvidos nas funções de pressão externa à sociedade política (lobistas, jornalistas e consultores), e ainda da própria sociedade civil, por meio das Organizações Não Governamentais, contribuiu para aumentar a sensação de ineficácia da ação política do cidadão comum, afetando, com isso, negativamente as condições da participação cívica.
Com a internet e os mecanismos interativos dos blogs, houve uma expansão dos fóruns de discussão. Porém, essa expansão não pressupõe que essa esfera pública interconectada esteja mais democratizante e livre das forças coercitivas e manipuladoras do aparelho do Estado e da voracidade do mercado. Deve-se lembrar que a internet e os
blogs não podem ser descritos como uma força antimercado e anti-hierarquia. A internet
contém, em si, o mercado e as hierarquias, como também as possibilidades de ação autônoma dos cidadãos (BUCCI, 2009). Todas essas implicações ao processo
deliberativo pressupõem que não é suficiente apenas a utilização de uma nova tecnologia, pois os recursos e os instrumentos interacionais, sozinhos, não serão capazes de mudar as relações e as práticas políticas dos cidadãos. As mudanças e as evoluções na participação política do cidadão dependem de mais investimentos no sistema educacional brasileiro. As práticas deliberativas somente ocorrerão efetivamente se os sujeitos tiverem oportunidades reais e habilidades cognitivas para exercer sua cidadania.
6 A PRÁTICA DISCURSIVA
A internet expandiu os espaços de conversação e das trocas subjetivas e, com ela, novas práticas de discurso e de leitura foram empregadas. Tornou-se comum a leitura diária de blogs para a obtenção de informação, a produção de notícias e opiniões, além de entretenimento ou interação imediata entre blogueiros e leitores. Todo esse processo de produção e circulação de discursos ainda é relativamente novo. Formam-se novas relações históricas poder, novos modos de ver e compreender o que nos rodeia e novos protocolos de interação. Essas mudanças e reacomodações das práticas discursivas merecem ser compreendidas no contexto das relações do cotidiano. Portanto, o quinto capítulo propõe uma investigação acerca de dois aspectos, a saber: as relações de poder que se constituem no espaço virtual e as práticas discursivas entre os leitores dos blogs políticos.