Por pós-colônias, compreendemos o conceito utilizado por Achile Mbembe que, em seu livro On the Postcolony (2001), descreve as políticas de domínio exercidas nos países africanos após as independências. Segundo Mbembe, os rastros do colonialismo continuam presentes nas nações independentes e ainda determinam o comportamento daqueles que estão no poder, mantendo as ex-colônias sob um regime dominador e exploratório. Essa sensação de continuidade da colonização é comentada por muitos intelectuais e artistas africanos. Soyinka, por exemplo, expressa muito bem essa ideia e a tristeza que a acompanha:
Uma das descobertas mais humilhantes que um africano pode fazer é exatamente o fato de que ele pode na verdade interpretar a ganância e o mal genérico do que se chama de mundo europeu nos rostos de seus companheiros mais próximos e íntimos (DUERDEN; PIETERSEN, 1972 apud REIS, 1999, p. 13).
No artigo “A crítica literária africana e a teoria pós-colonial: um modismo ou uma exigência?” (2007), Inocência Mata questiona o uso generalizado das teorias pós- coloniais para todos os países que sofreram colonização europeia. Seu ensaio ressalta a importância da literatura como elemento constitutivo de identidade coletiva, principalmente em países cuja libertação colonial aconteceu recentemente e onde a pós- colonialidade é assunto ambíguo e tenso (2007, p. 3). Para a autora, a aplicação de certas categorias aos estudos das literaturas africanas pode levar a um entendimento incompleto das especificidades daquelas sociedades:
Considerar a hibridez e o sincretismo como particularidades da intersecção cultural dos sujeitos do processo de colonização e, portanto, lugares quase cativos da condição pós-colonial e até dos “pós-coloniais”, é desconsiderar a dinâmica interna das sociedades africanas, acabando por ser, tal postura, uma espécie de ideologia pré-determinada para proclamar a abertura cultural como algo que só pertence a espaços do centro. (MATA, 2007, p. 8)
Para complementar sua argumentação, Inocência Mata cita o artigo de Ella Shohat, “Notes on the ‘Post-colonial” (1997), que critica o uso indiscriminado de categorias como hibridez e sincretismo, bem como pós-colonial, sem levar em consideração traços de neocolonialismo que caracterizam as realidades de países recém- descolonizados, reafirmando, então, a violência da colonização. Isso quer dizer que falar
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de hibridez, sem tratar da luta cultural que ela encerra e da cultura híbrida como forma de resistência do povo colonizado, é tratar os resultados da colonização como completamente benéficos para os povos que foram vítimas dela, ou seja, é limpar o produto híbrido de sua carga violenta e sofrida. Da mesma forma, falar de pós- colonialidade como um período pós-colonização, como se esta não mais existisse, é uma forma de mascarar o neocolonialismo e também as consequências perversas e permanentes do colonialismo propriamente dito.
O termo ‘pós-colonial’ carrega em si a implicação de que o colonialismo é agora um assunto do passado, enfraquecendo os traços econômicos, políticos e culturais do colonialismo, que ainda deformam o presente. (...) Como um significante de uma nova época histórica, o termo ‘pós-colonial’, quando comparado ao neo-colonialismo, vem equipado com pouca evocação das relações de poder contemporâneas: falta nele certo conteúdo político para dar conta do envolvimento militar dos E.U.A., característico dos anos 1980 e 1990, em Granada, Panamá e Kuwait-Iraque, e da ligação simbiótica entre os interesses políticos e econômicos dos E.U.A. e aqueles das elites locais. 85 (SHOHAT, 1997, p. 326)
O exemplo que Ellen Shohat dá neste trecho, a respeito do envolvimento dos Estados Unidos em diversas situações militares nas últimas décadas do século XX e também os demais exemplos que ela fornece, em seu texto, sobre as situações contemporâneas de conflitos internos dentro de países desenvolvidos e subdesenvolvidos, reforçam um dos pontos centrais desta pesquisa, que é a continuidade da realidade colonial após as independências.
Outra crítica pertinente às teorias pós-coloniais feita por Ella Shohat é que, em alguns usos, o termo coloca no mesmo grupo países que sofreram a colonização, mas que atualmente não vivem realidades semelhantes: “Usamos o termo ‘pós-colonial’, no entanto, para cobrir toda a cultura afetada pelo processo imperial, desde o momento da colonização até o presente”86 (ASHCROFT; GRIFFITHS; TIFFIN, 2007, p. 2). Esse tipo de agrupamento, segundo Ella Shohat, dificulta o trabalho de análise, já que não podemos
85 The term ‘post-colonial’ carries with it the implication that colonialism is now a matter of the past, undermining colonialism’s economic, political, and cultural deformative-traces in the present. (...) As a signifier of a new historical epoch, the term ‘post- colonial’, when compared with neo-colonialism, comes equipped with little evocation of contemporary power relations; it lacks a political content which can account for the eighties and nineties-style U.S. militaristic involvements in Granada, Panama, and Kuwait-Iraq, and for the symbiotic links between U.S. political and economic interests and those of local elites.
86 We use the term ‘post-colonial’, however, to cover all the culture affected by the imperial process from the moment of colonization to the present day.
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comparar, nem economica nem politicamente, as situações de países como Austrália e Nigéria, por exemplo, apesar de ambos terem sofrido a colonização pelas mãos da mesma potência europeia.
Se tomarmos Austrália e Nigéria como exemplos ilustrativos das diferenças coloniais, veremos que até mesmo a formação das elites desses países é diferente. A Autrália é uma settler colony, uma colônia de assentamento, cujo principal objetivo era o de ocupar a terra; portanto, famílias inteiras vinham ali se instalar, deslocando a população indígena, que não tomava parte daquela nova sociedade que se formava. Assim a população aborígene australiana foi significantemente reduzida e excluída, e a elite burguesa do país então é formada por pessoas de origem europeia, mesmo depois da independência. Por outro lado, a Nigéria, também colonizada pela Inglaterra, apresenta uma realidade diferente, com o colonialismo de exploração. Esse outro tipo de colonialismo, interessado em retirar recursos da terra e em explorar a mão de obra local, não envolvia tantos colonos quanto na colônia de assentamento. A população indígena, de uma forma obviamente precária, acabava por ter mais lugar dentro da sociedade colonial em sua modalidade de exploração do que na modalidade de assentamento. A consequência dessas diferenças para o período pós-independência é que as elites desses países serão bastante diferentes, bem como a realidade pós-colonial.
Portanto, o uso indiscriminado do termo “pós-colonial” não só falsamente nivela países diferentes, como também possibilita o entendimento enganoso de que as diferentes populações dentro de um mesmo país se relacionam com o centro hegemônico da mesma forma. Australianos brancos e australianos aborígenes seriam assim colocados na mesma posição com relação ao “centro” europeu. O termo então desconsideraria as diferenças internas e a opressão sofrida por certa parcela de uma determinada população. Da mesma forma, a população pobre da Nigéria ou de Angola não tem a mesma relação com os ex-colonizadores que as elites financeiras e intelectuais desses países.
A realidade pós-colonial não é vivida da mesma forma pelas diferentes camadas da população de um mesmo país. A desigualdade social e o atraso no desenvolvimento são consequências do colonialismo, por isso a realidade “pós-colonial” não é uniformizada dentro de um país, para todos as classes sociais – se para Caposso ela é vantajosa, para Nacib ela é mais difícil.
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A conivência das elites nigerianas e angolanas com as políticas neocoloniais é, dentro dos romances aqui tratados, apontada como uma das causas do atraso lá vivido. Nota-se que esses romances ao projetarem um quadro das relações entre as potências dominantes e as elites dos países recém-libertos aderem a esse tipo de perspectiva. Observamos tal característica mais claramente nos dois romances de Pepetela, nos quais encontramos personagens que trabalham como intermediadores de empresas internacionais, como Malongo em A geração da utopia, e Omar, em Predadores. Neste último, a família de Caposso mantém uma relação com a Europa, de viagens, férias, estudos, trabalho, que os personagens pobres, como Nacib, não compartilham.