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Apresenta-se a seguir, os argumentos baseados na teoria econômica em relação a dois pontos chaves para o debate do acesso aos ativos produtivos para o desenvolvimento econômico e social. O primeiro pode ser traduzido na pergunta: porque, do ponto de vista da racionalidade econômica, a ação redistributiva seria necessária?

Até o final do século passado, muitos autores, baseados na curva de Kuznets4, sustentavam que a má distribuição de renda não se colocava como um obstáculo ao crescimento econômico. Embora dominante, esta posição não era absoluta, autores como Chenery (1974) e Fishlow (1995) sustentavam que a distribuição de renda afetava o crescimento econômico. Em 1998, Deininger e Squire (1998:4 e 13) concluíram, com base em dados de uma amostra de 108 países, que “uma distribuição de renda desigual não é um forte determinante do crescimento futuro. Ao contrário, distribuição desigual da propriedade de ativos, neste caso a distribuição da terra, tende a reduzir o crescimento de longo prazo”.

Considerando-se que a distribuição de ativos afeta o crescimento, a questão é saber se não existiriam mecanismos de mercado capazes de, progressivamente, incorporar ao processo de desenvolvimento regiões e pessoas com menos dotação. Trata-se de questão controversa, mas é difícil demonstrar que o mercado produziria uma alocação intertemporal de recursos que conduziria à redução das desigualdades e à erradicação da pobreza na presença de falhas de mercado e problemas de informação imperfeita. Ao contrário, o mecanismo de mercado tenderia a reproduzir pobreza e desigualdade até o ponto em que a própria acumulação poderia ser questionada pela sociedade.

O segundo ponto pode ser sintetizado na seguinte pergunta: por que a desigualdade na distribuição de riqueza e a pobreza afetam negativamente o desenvolvimento? Uma primeira resposta é que a desigualdade e pobreza geram, ou estão associadas a estruturas de governança ineficientes, que por sua vez afetam negativamente não apenas a eficiência dos agentes menos capitalizados, mas também a do conjunto da economia, reforçando o círculo vicioso da própria pobreza e desigualdade.

Bardhan et al. (1998) desenvolvem o tema com base na ideia de contratos incompletos. O ponto de partida é a existência de ativos cujas características não podem ser previstas em contrato, ou em que as prescrições explicitadas nos contratos não encontram caminho legal para serem atendidas. Por exemplo, seria impossível controlar, contratualmente, o esforço colocado por uma família em determinada área de terra para a

4 A curva de Kuznets mostrava uma correlação não linear entre distribuição de renda e crescimento econômico. Países com baixíssimo nível de desenvolvimento apresentavam perfil igualitário de distribuição de renda, a qual se mostrava mais concentrada à medida que melhorava o nível de desenvolvimento dos países. A partir de um certo nível de desenvolvimento a concentração de renda observada voltava a reduzir-se (KUZNETS, 1955).

produção agrícola ou a decisão de assumir ou não determinado risco. Em certos contextos, a presença de ativos com estas características pode introduzir um elevado nível de incerteza e certos contratos podem não remunerar adequadamente o que a literatura denomina como a reclamação sobre o fluxo de rendimentos correspondentes aos direitos individuais não previstos em contrato (HART, 1997).

O mecanismo baseado no conceito de contratos incompletos diz respeito ao papel da assimetria de informação na exclusão dos agentes menos capitalizados, do mercado de capital (HOFF, 1997). Quando emprestadores têm informação imperfeita sobre os tomadores de crédito, ou quando empregadores/donos de propriedades rurais têm informação imperfeita sobre os trabalhadores, indivíduos com baixo nível de dotação de riquezas tendem a ser excluídos do mercado de capital, dos contratos de trabalho e dos contratos de arrendamento que preveem condições mais favoráveis para os arrendatários que a dos contratos tradicionais de parceria/arrendamento (BANERJEE et al., 1998). O resultado é que os agentes que mais necessitariam do apoio do sistema de crédito ou de contratos de longo prazo para ter acesso à terra são justamente os que, por problemas de informação imperfeita, são marginalizados. Em resumo, a distribuição de riqueza é relevante, já que a riqueza daqueles que estão transacionando afeta tanto os contratos, como a habilidade dos contratantes de atuar após estabelecidas as garantias (HOFF, 1998). O desenho dos contratos afeta o desempenho do esforço alocado, ou seja a rentabilidade, e a capacidade de estimular os agentes em revelar certas informações privadas.

Além disso, uma situação de concentração elevada de riqueza tende a reduzir o salário competitivo, e com isto desestimular um maior esforço alocado pelo agente, seja em contratos de parceria seja em relações de assalariamento puro. Trata-se de um efeito indireto da concentração de riqueza sobre a eficiência da organização e do esforço produtivo.

Outro efeito da pobreza sobre a eficiência e motivação é seu efeito negativo sobre o nível de atividade econômica dada a elevada aversão ao risco destes agentes. A tentativa de estimular maior nível de atividade introduz uma discrepância entre um nível de risco mais elevado e a propensão à aceitação do risco por parte do agente. Nessas condições, a redistribuição de ativos aumenta a probabilidade de comportamentos oportunistas e reduz o nível de comprometimento de agentes que antes estavam mais próximos de uma situação de neutralidade ao risco (DE JANVRY; SADOULET, 1995). Este argumento chama a atenção

para as dificuldades de superar situações de pobreza extrema por meio da simples distribuição de ativos, sem a criação de estruturas de governança adequadas para o desenvolvimento social e econômico a partir da alocação do próprio ativo distribuído.

Outra vertente deste mesmo tema refere-se ao debate sobre a grande propriedade rural versus pequena propriedade ou produção familiar. Embora a produção em grande escala tenha vantagens na utilização de alguns equipamentos, na obtenção de crédito e no processo de comercialização, apresenta desvantagens na supervisão e custos adicionais para o gerenciamento da produção. A conclusão é que a concentração da terra produz uma estrutura produtiva baseada na produção em larga escala que não pode ser considerada eficiente em grande parte dos ramos da agropecuária (GUANZIROLI, 2000; IP; STAHL, 1978).

Benzer Belgeler