• Sonuç bulunamadı

Segundo Triviños (1987), a entrevista semiestruturada parte de questionamentos básicos, fundamentados no problema, em pressupostos e hipóteses de pesquisa que, em seguida, se desdobram num conjunto de interrogativas e conteúdos fruto do próprio desenvolvimento da entrevista. De acordo com Triviños (1987), a entrevista semi- estruturada, também conhecida como entrevista em profundidade, permite aos pesquisadores uma compreensão holística do fenômeno estudado. Essa técnica envolve a utilização de questões abertas, como uma pergunta chave ao participante e a utilização de “probes” sempre que necessário aprofundar o entendimento do objeto estudado. De acordo com Berry (1999), os probes são pistas ou dicas utilizadas com os entrevistados para aprofundar e desenvolver o conteúdo de uma resposta. Podem ser utilizados probes como: O que você quis dizer com isso? Você poderia dizer algo mais sobre este assunto? Por favor, você poderia dar uma descrição detalhada sobre o que aconteceu? A esse respeito, Walsham (1995) destaca que, se o pesquisador intervém em demasia, acaba por impedir que os respondentes tenham a liberdade de expressar suas opiniões e interpretações sobre a realidade estudada. Entretanto, uma postura passiva, sem a utilização das potencialidades e dos benefícios de um modelo semiestruturado de perguntas, provoca o empobrecimento da entrevista. O próprio entrevistado pode considerar o entrevistador pouco interessado ou desconhecedor do assunto.

Além disso, contribuições e informações deixam de ser postas à disposição se há pouca interação entre o pesquisador e entrevistado.

Para Kvale (1996), a entrevista é um tipo particular de “conversa” por meio do qual é possível observar sentimentos, idéias e opiniões do entrevistado sobre o fenômeno estudado. No caso da técnica semiestruturada, não é um conversa totalmente aberta, na qual o entrevistado fala livremente, tampouco um questionário altamente estruturado. Apresenta-se um conjunto de temas para que o respondente reflita, analise e expresse seu ponto de vista (KVALE, 1996).

O roteiro foi baseado no esquema de análise da figura 13, página 144. Foram realizadas perguntas sobre cada elemento componente do desenho institucional das políticas de e-governo dos governos estaduais: (a) legislação de acesso à informação governamental; (b) planejamento, formulação e integração de políticas de e-gov; (c) estrutura e arranjos organizacionais de TIC; (d) gerenciamento de orçamento e priorização de TIC; (e) gestão de projetos de TIC; (f) identificação e priorização de aplicações; (g) gestão de infraestrutura de TIC; (h) arquitetura de tecnologia da informação; (i) mecanismos de enforcement; (j) oferta de serviços; (k) transparência; (l) participação; (m) efetividade na gestão das políticas públicas pelo uso de TIC.

Em cada pergunta, o pesquisador procurou abordar alguns pontos relevantes durante a resposta. Dessa forma, adotou-se uma postura investigativa ativa, como é defendido por Walsham (1995).

À guisa de exemplo, o quadro 14 apresenta uma pergunta com os itens a serem resgatados como “probes” durante a entrevista.

Questão PERGUNTA

2 Como o Senhor descreve os serviços oferecidos nos portais de governo atualmente? Como você descreve o nível de evolução dos serviços na internet?

Explorar:

Quais serviços são os mais oferecidos? Quem é responsável pelo conteúdo?

Em que nível o governo se encontra: informacional; interativo; transacional; Existência de serviços que transcendem uma única unidade de governo. Quadro 14: Exemplo de Questão da Entrevista com Probes

Como é possível observar, a pergunta foi direcionada aos serviços oferecidos eletronicamente pelo governo, e os itens explorados foram os serviços mais oferecidos, a responsabilidade pelo conteúdo dos serviços, o grau de maturidade dos serviços eletrônicos e a existência de serviços eletrônicos que transcendem uma única unidade de governo. É importante informar que novos itens foram explorados dependendo do desenvolvimento da entrevista junto ao respondente.

A seguir apresenta-se a estrutura das perguntas da entrevista com uma breve explicação das bases que fundamentaram a elaboração de cada uma.

Questão 1: como o (a) senhor (a) descreve a utilização da TIC no governo estadual ao longo dos últimos dez anos?

A questão 1 procurou atender a um conjunto de propósito. Primeiramente, observa-se que uma das vertentes teóricas do neoinstitucionalismo é a corrente histórica. De acordo com os teóricos dessa abordagem, o comportamento dos atores é influenciado e constrangido por escolhas passadas. Assim sendo, as mesmas forças ativas podem provocar resultados diferentes em contextos históricos distintos (Hall e Taylor, 2003).

Em função do exposto, estabeleceu-se como referência o período de dez anos, e foi solicitado ao entrevistado que discorresse sobre a utilização de TIC no governo estadual nesse período. É importante afirmar que tal período funcionou apenas como referência, e que o entrevistador assegurava ao respondente liberdade para utilizar períodos históricos anteriores ou posteriores.

Ademais, a pergunta funcionou como um importante elemento de socialização entre entrevistado e entrevistador. Ao mencionar o histórico da aplicação das TIC, foi possível fazer com que os entrevistados mergulhassem no assunto de forma mais espontânea e se sentissem à vontade para o resto da pesquisa.

Questão 2: como o senhor descreve os serviços oferecidos nos portais de governo atualmente? Como descreve o nível de evolução dos serviços na internet?

Questão 3: como o senhor descreve o relacionamento do cidadão com o Estado por meio do e-gov? Como descreve as ações para transparência e participação digital?

Questão 4: quais os resultados das políticas de transparência e participação pelas páginas de governo? Como são medidos esses resultados?

As questões 2, 3 e 4 foram diretamente associadas ao item ações de governo eletrônico expostos no esquema de análise. É importante observar que, como estratégia metodológica, se optou pela inversão da ordem das perguntas em relação à apresentação do esquema de análise no item 6.3.2. Pelo modelo, dever-se-ia primeiro questionar sobre o desenho institucional e , depois, explorar os resultados das políticas de e-governo. Entretanto, o pesquisador julgou mais apropriado realizar a inversão pelos seguintes motivos:

os respondentes já haviam começado a mencionar os marcos de TIC na primeira pergunta, fato que remete à prestação de serviços eletrônicos, utilização de TIC para efetividade das políticas públicas e uso da internet para publicidade dos atos de governo. Dessa forma, pareceu apropriado o aprofundamento por meio das questões 2, 3 e 4;

o pesquisador julgou mais simples se os entrevistados pudessem falar diretamente do resultado de diversas políticas públicas de e-governo em execução em seus estados. A estratégia se mostrou oportuna para gerar empatia entre entrevistador e entrevistado no andamento da pesquisa.

Cada um dos resultados esperados das políticas de e-governo foi desdobrado em uma pergunta. Procurou-se levantar o grau de maturidade dos serviços prestados eletronicamente pelos diversos estados, a existência de iniciativas de transparência utilizando- se dos meios digitais e a possibilidade de os cidadãos utilizarem os recursos de tecnologia da informação e comunicação para participarem da proposição, elaboração e avaliação das políticas de TIC.

Questão 5: como acontece o processo de planejamento estratégico do Estado? Questão 6: como você descreve o processo de planejamento e implementação das ações de e-gov pelo governo estadual, considerando os diversos órgãos públicos envolvidos?

As questões 5 e 6 procuraram saber sobre a percepção de cada entrevistado sobre o processo de planejamento governamental e o planejamento das ações de governo eletrônico. A partir das duas questões mencionadas, foi possível buscar a compreensão de como o desenho institucional afeta o processo de planejamento, a formulação e integração das políticas públicas e, em especial, da política de e-governo.

Dito de outra forma, com as perguntas 5 e 6 foram exploradas a estrutura do planejamento estratégico de cada estado e do planejamento de tecnologia da informação e comunicação. Além disso, buscou-se compreender tanto a integração vertical entre o planejamento estratégico de governo e as ações de cada órgão como a integração horizontal entre os diversos órgãos de governo na consecução e no desenvolvimento das políticas de e- gov.

Apresentadas na fundamentação teórica da tese, as instituições são sistemas simbólicos compostos por elementos regulatórios e normativos que produzem significados em dado contexto social. (SCOTT, 2001). Por sua vez Jepperson (1991) afirma que um grau avançado de institucionalização significa a existência de instituições que dificilmente não serão obedecidas. As questões 5 e 6 foram importantes para avaliar o grau em que o planejamento de TIC encontra-se institucionalizado no contexto do planejamento estratégico de cada governo estadual.

Questão 7: como o senhor descreve a legislação de e-governo e o acesso à informação governamental?

Uma vez que o governo eletrônico é uma política pública capaz de permitir acesso às informações e aos serviços governamentais, e que a abordagem neoinstitucional, em sua vertente histórica, da escolha racional ou sociológica, atribui alto grau de importância ao processo de regulação, estabelecimento de regras, monitoração e sanção, uma vez que tudo isso se dá, enfim, julgou-se importante a elaboração de um pergunta referente à existência e abrangência da legislação de e-gov como elemento de garantia do acesso às informações de governo.

Ademais, a fundamentação teórica expôs que o governo eletrônico deve ser compreendido como um subdomínio das políticas de informação governamentais. Por sua vez, as políticas de informação podem ser entendidas como uma série de leis, direções e decisões judiciais que estabelecem os padrões para o gerenciamento do ciclo de vida da informação: planejamento, criação, produção, coleção, distribuição, disseminação e recuperação da informação. (HARNON, 1991; apud AUN, 2001). Assim, foi fundamental uma pergunta no contexto institucional que procurasse compreender a existência e abrangência das leis de acesso à informação governamental postas à disposição pelos estados.

Questão 8: como são as estruturas de governo eletrônico (estrutura organizacional, comitês etc.)?

De acordo com Jepperson (1991), Scott e Meyer (1991) e Scott (2001), a institucionalização é um processo pelo qual um arranjo ou uma ordem social são aceitos e legitimados. Assim sendo, foi fundamental compreender as estruturas e os arranjos organizacionais de governo eletrônico nos estados participantes da pesquisa. Em que grau esses desenhos organizacionais são efetivos e suas normatizações são verdadeiramente executadas? As estruturas de governo eletrônico representam um elemento importante para o constrangimento e direcionamento do comportamento dos atores? A questão 8 foi importante para responder estas e outras indagações e auxiliar o pesquisador a compreender o contexto das políticas de e-gov dos estados pesquisados.

Questão 9: quais mecanismos de enforcement contribuem para que os órgãos cumpram as políticas de e-governo?

A partir da fundamentação teórica, foi possível observar que as instituições limitam o conjunto de opções possíveis a um decisor em dado contexto social (NORTH, 1990). Entretanto, o mesmo autor observa que a inércia é um fator importante em dado ambiente e, dessa forma, algumas regras e normas nunca chegam a se tornar instituições. Isso acontece, pois os atores observam que os ganhos de permanecer em dado estado podem ser maiores que os custos envolvidos na mudança de padrão (DiMaggio e Powell, 1991).

Dessa forma, North (1990) afirma ser necessário haver mecanismos de enforcement capazes de estimular e legitimar a existência de uma instituição.

Com a questão, buscou-se entender sobre os mecanismos utilizados para promover o enforcement das políticas de governo eletrônico.

Questão 10: como você descreve o processo de priorização do orçamento de TIC do estado?

Questão 11: como é a realizada a administração de dados no estado?

Questão 12: como você descreve o processo de escolha das aplicações de TI desenvolvidas?

Questão 13: como é realizada a escolha e a gestão da infraestrutura de TIC no governo estadual?

O esquema analítico no Item 6.3.2 mostra que o desenho institucional é fruto da conjugação entre o contexto institucional e o técnico de e-governo. Essa realidade já foi tratada na fundamentação teórica da tese. O ambiente técnico corresponde ao tipo de

racionalidade que incorpora um conjunto de procedimentos capazes de vincular meios e fins para tornar previsível a efetividade dos resultados. Na discussão teórica sobre governança, observou-se serem necessários procedimentos, normas e rotinas para permitir a efetividade da gestão dos recursos de tecnologia da informação. Assim sendo, as questões 10 a 13 procuraram observar a existência e abrangência dos mecanismos de gestão de TIC para as áreas de orçamento, administração de dados, aplicações e infraestrutura, todas expostas na literatura sobre gestão de TIC.

Entretanto, as perguntas não se restringem à compreensão de questões técnicas. O ambiente institucional é composto pelo conjunto de regras, normas e valores capazes de legitimar a “maneira” como as coisas acontecem no contexto da organização. Dessa maneira, foi possível observar como o contexto institucional influencia a gestão de cada item exposto nas perguntas 10 a 13.

Questão 14: que mudanças são necessárias do ponto de vista cultural e dos arranjos organizacionais para que a institucionalização das políticas de e-gov sejam mais profundas?

A pergunta 14 fechou a entrevista. Ao perguntar sobre os desafios para a institucionalização do e-governo, foi possível observar os fatores regulatórios, normativos e culturais que carecem de desenvolvimento nas políticas de tecnologia da informação e comunicação dos governos estaduais.

Benzer Belgeler