5.GEREÇ VE YÖNTEMLER
8. SONUÇ VE ÖNERİLER
Finalmente, chega-se ao exame do que seriam, para efeitos desta tese, as políticas econômicas constitucionais que devem ser levadas em consideração pelo Cade em seus julgamentos.
Segundo Giovani Clark,53 a política econômica, em termos gerais, pode ser
realizada tanto pelo Estado como pela iniciativa privada. Quando se tratar de política econômica estatal, estar-se-ia diante daquelas atuadas necessariamente pelo Estado, ainda que com a adesão ou o auxílio do setor privado. Para Clark, a política econômica estatal compreenderia um conjunto de ações coordenadas, contidas em normas jurídicas, por meio das quais o Estado exerceria influência sobre as relações econômicas e sociais, tendo por objetivo a efetivação dos ditames da Constituição Econômica.54 O núcleo operacional das políticas econômicas (estatais) consistiria, então, nas ações juridicamente institucionalizadas e realizadas pelo Estado (políticas de Estado), na busca da concretização da ordem econômica constitucional, que se identifica com o conceito mais amplo de Constituição Econômica.
Ao exemplificar as ações compreendidas nas políticas econômicas estatais, Clark cita aquelas relacionadas à compra e à venda de moeda estrangeira (política cambial); à elevação ou à redução dos tributos e à instituição de contribuições de intervenção no domínio econômico (política fiscal); ao controle do volume da moeda circulante no mercado (política monetária); à edição de normas legais de remessa de lucros ao exterior (um dos vieses da política de regulação do investimento estrangeiro e de proteção do mercado interno); à repressão ao poder econômico (política antitruste); à defesa do consumidor (política das relações de consumo); à concessão de créditos subsidiados a setores econômicos (política de incentivos setoriais); à cessão de terras públicas e a desapropriações (política fundiária e de reforma agrária); à realização de obras governamentais em prol do crescimento modernizante (política de infraestrutura); à estatização ou à nacionalização de atividades econômicas (política de controle de ativos estratégicos); à criação de
53 CLARK, Giovani. Política econômica e Estado. Revista da Faculdade de Direito da Universidade
Federal de Minas Gerais (Impresso). V. 53, 2008. p. 103-115.
54 CLARK, Giovani. Política econômica e Estado. Revista da Faculdade de Direito da Universidade
agências reguladoras produtoras de marcos legais para o mercado (política regulatória), dentre outras.
Como se vê, as ações mencionadas por Clark estão sempre compreendidas em um contexto específico, o das políticas setoriais ou de um contexto maior, o das políticas estruturais da economia nacional. Essas políticas, sejam elas desenvolvidas como implementação das metas estruturantes da ordem econômica, sejam elas aplicadas como mecanismos de concretização de um plano de Governo, estarão sempre subordinadas à linha mestra dos ditames da Constituição Econômica, visando à consecução das metas e dos objetivos delineados constitucionalmente.
As políticas econômicas constitucionais, independentemente de serem ou não políticas de Estado ou políticas de Governo, podem ser entendidas, em um primeiro momento, como todas as políticas econômicas que estejam em conformidade com a Constituição da República. Em sentido mais específico, porém, as políticas econômicas constitucionais devem ser entendidas como mecanismos de densificação dos princípios da ordem econômica constitucional, e com tais princípios não se confundem.
Os princípios da ordem econômica constitucional têm natureza de princípio; são normas jurídicas gerais e abstratas, que apontam para um norte, para um caminho a ser seguido. Constituem verdadeiros mandados de otimização, no dizer
de Alexy.55 As políticas econômicas constitucionais, muito embora possuam
profunda vinculação com os princípios da ordem econômica, não têm a natureza de princípio jurídico, mas sim de regra jurídica, uma vez que instrumentalizadas por meio de normas específicas e, no mais das vezes, de caráter relativamente concreto, destinadas a intervenções específicas, em contextos específicos. A política fiscal, a política cambial, a política industrial, a política do acesso ao consumo e das relações de consumo, a política ambiental, a política de ciência e tecnologia, a política antitruste, dentre outras, constituem-se de regras jurídicas específicas que densificam os princípios da ordem econômica constitucional.
55 ALEXY, Robert. Teoria dos direitos fundamentais. Tradução de Virgílio Afonso da Silva. São Paulo:
A densificação de tais princípios ocorre por meio da elaboração de regras constitucionais e, no mais das vezes, infraconstitucionais, da criação de instituições e do estabelecimento de planos gerais e setoriais e de programas específicos para a implementação, no plano concreto, dos valores e dos objetivos definidos na Constituição da República.
O termo ―densificação‖ é aqui tomado emprestado de Canotilho,56 para quem
a densificação de normas e de preceitos constitucionais significaria o adensamento institucional capaz de tornar operativa e concreta a vontade do povo positivada na norma constitucional. A atividade de densificação de princípios e normas
constitucionais seria desempenhada pelas normas infraconstitucionais,
especialmente por normas de caráter concreto, quando regulassem aspectos concretos da realidade, criassem instituições e operassem planos e programas (de Governo e de Estado) para operacionalizar a ordem constitucional, produzindo efeitos práticos na realidade jurídico-econômica.
Assim, as políticas econômicas constitucionais estão presentes tanto na Constituição da República (na Constituição Econômica formal) como também nas normas, regras e instituições, nos planos e programas que instrumentalizam a
ordem econômica, ou seja, na Constituição Econômica material.57
O trabalho de densificação das normas e preceitos constitucionais, em matéria econômica, deve ser realizado pelo Estado diretamente, ou indiretamente, na qualidade de agente normativo e regulador da atividade econômica, nos termos e limites dos arts. 173 e 174 da Constituição da República. Nessa qualidade de agente normativo e regulador, o Estado exercerá, na forma da lei, as funções de incentivo, fiscalização e planejamento, e as políticas econômicas assumirão, no desempenho dessas funções, papel de grande importância para nortear a atuação estatal e para troná-la eficaz.
56 Para Canotilho,
―Densificar uma norma significa preencher, complementar e precisar o espaço normativo de um preceito constitucional, especialmente carecido de concretização, a fim de tornar possível a solução, por esse preceito, dos problemas concretos. As tarefas de concretização e densificação de normas andam, pois, associadas: densifica-se um espaço normativo (= preenche-se uma norma) para tornar possível a sua concretização e a consequente aplicação a um caso concreto.‖. CANOTILHO, J. J. Gomes. Direito Constitucional e teoria da Constituição. 7. ed., 5a
reimpressão. Coimbra: Almedina, 2003. p. 1201.
57 MOREIRA, Vital. Economia e Constituição: para o conceito de Constituição Econômica. 2. ed.
O Direito da Concorrência está afeto à função de fiscalização, a ser exercida pelo Estado como agente indireto da atividade econômica. Por isso, ao se considerar o antitruste como um dos mecanismos de atuação indireta do Estado no domínio econômico, não há como se ignorar as políticas econômicas constitucionais (instrumentos de densificação da ordem econômica constitucional), dado que elas fazem parte essencial do exercício da atividade normativa e reguladora do Estado.