O jornalista Ernest Hemingway estava prestes a completar seu 45o aniversário quando
realizou o sonho de todo repórter: registrou o raro momento em que a História se congela num feito. Era 6 junho de 1944. Ele trabalhava como correspondente internacional da revista americana Collier’s Weekly e cobria a saga dos soldados aliados que partiram da Inglaterra para libertar a França da tirania alemã.
O vento soprava forte do Noroeste. Navegávamos em direção à terra na luz cinzenta precoce. Os barcos de aço em forma de caixão com 36 metros levavam sólidos lençóis verdes de água que caiam sobre as tropas, embaladas ombro a ombro pelo duro, embaraçoso e desconfortável sentimento de solidão do homem que parte para o combate (HEMINGWAY, 1969b, p.101)
A reportagem de Hemingway ocupou quatro páginas inteiras da edição de 22 de julho de 1944 da Collier’s, está guardada na biblioteca John F. Kennedy e é importante documento sobre o desembarque dos aliados na Normandia.
Há muito mais que eu não escrevi. Poderia escrever durante uma semana e não conseguiria dar o crédito a tudo que foi feito naquele front. Guerra de verdade nunca é como guerra de papel (...) Mas se você quer saber o que se passou, isso é o relato mais fiel que eu posso lhe dar (HEMINGWAY, 1969b, p.118).
O jovem repórter Gabriel García Márquez achava impossível relatar com fidelidade a pauta que o editor lhe encomendara. Fez muxoxo quando o chefe pediu que entrevistasse o marujo Luis Alejandro Velasco para descobrir algo inédito na história do naufrágio do
destroyer Caldas, em fevereiro de 1955, numa tormenta no Caribe. Velasco era o único
sobrevivente de oito tripulantes que caíram no mar. Sua história conquistou medalhas, publicidade e páginas na imprensa chapa branca que amparava a ditadura colombiana da época.
O caso já começava a perder espaço na mídia quando o marinheiro entrou na redação do El Espectador para tentar faturar mais um naco de sua glória. Alegou que ainda havia o que revelar. García Márquez não acreditou, mas seu editor achou que valia a pena apurar o caso - menos pelo que a fonte prometia vender e mais pela capacidade do repórter em recontar uma história mal contada. Dito e feito.
“Em 20 sessões de seis horas diárias, durante as quais eu anotava tudo e disparava perguntas traiçoeiras para detectar contradições, conseguimos reconstruir uma relato verídico dos seus dez dias no mar” (GARCÍA MÁRQUEZ, 1970, p.6). A apuração do jornalista enterrou a versão heróica do acidente. Na realidade, não havia ocorrido tormenta alguma. O
navio estava lotado de contrabando e, ao fazer uma manobra, a carga se soltou e os oitos homens despencaram no mar. A informação foi checada e rechecada pelo jornalista que conseguiu até fotografias dos eletrodomésticos importados ilegalmente.
O jornal publicou o furo num caderno especial denunciando os oficiais da Marinha por contrabando, transporte ilegal, sobrecarga de embarcação e responsabilidade pela morte de parte da tripulação. A história duplicou a circulação do jornal e irritou as autoridades nacionais. Ao fim de dois meses, o governo determinou o fechamento da redação, mas plantou no jovem Gabo uma certeza que ele carregou por toda a vida:
Sou um jornalista, fundamentalmente. Toda vida fui um jornalista. Meus livros são livros de jornalista ainda que veja-se pouco isso. Meu método de investigação e de manejo da informação e dos fatos são de jornalista (GARCÍA MÁRQUEZ, 2013, p.7).
O Dia D de Hemingway e os bastidores da matéria de García Márquez descerram o capítulo introdutório desta Tese porque exemplificam a força narrativa, investigativa e documental do mais fascinante dos gêneros jornalísticos, a reportagem, essência temática das próximas 400 páginas.
Mas, afinal, o que é reportagem?
Esta questão é a norteadora de nossa pesquisa. Em linhas gerais, esta Tese resgata a obra jornalística de Ernest Hemingway e García Márquez e analisa a pauta, o processo de apuração e o texto final de 40 matérias assinadas pelos dois autores em jornais e revistas estadunidenses, latino-americanos e canadenses. O objetivo da pesquisa é identificar características e semelhanças entre a produção noticiosa dos dois autores que contribuam para entender as peculiaridades da reportagem enquanto narrativa e forma de conhecimento. Espera-se, com isso, contribuir para o maior conhecimento da obra jornalística deste dois autores e construir, a partir de seus escritos, um modelo de caracterização e análise de reportagens.
O trabalho está alinhado à tradição dos estudos que entendem o jornalismo como narrativa (MOTTA, 2013) e como forma de conhecimento (MEDITSCH, 1997). Amparada por essas duas vertentes conceituais, a Tese sustenta que falta reflexão acadêmica sistemática sobre a reportagem e rejeita a visão reducionista que a considera apenas uma notícia grande, bem apurada e bem escrita por um repórter talentoso que teve mais tempo para apurá-la.
Ancorada na análise da produção jornalística de García Márquez e Ernest Hemingway, a premissa central do estudo é de que a reportagem é uma forma narrativa de conhecimento do real e que esse “conhecer” está alicerçado em peculiaridades significativas que começam
na temática da pauta, ganham densidade argumentativa no processo de apuração, se traduzem e se organizam por meio de estratégias textuais e se evidenciam na edição de cada matéria.
Para decifrarmos essa intrincada teia de sentidos que se esconde por trás de cada linha de jornal assinada por Hemingway e García Márquez cumprimos uma maratona analítica sobre o Corpus da Pesquisa. usamos 21 indicadores e quatro categorias sistematizados em Modelo de Caracterização e a Análise de Reportagens, ferramenta analítica desenvolvida nesta Tese e que nos permitiu realizar o estudo com critérios objetivos. Nossas hipóteses foram confirmadas ao longo do trabalho de campo. Os dados mostram que a reportagem tem uma identidade apurativa e narrativa que deriva do seu método particular de conhecer e narrar a realidade. O resultado é um enquadramento polifônico documental que se sobrepõe ao imediatismo do acontecimento e à secura da falsa objetividade jornalística.
ORGANIZAÇÃO DA TESE
A Tese está dividida em três partes, cada uma com capítulos e subcapítulos. Além delas, há uma apresentação pessoal da autora, a introdução geral da Tese e uma sessão de anexos, onde reproduzimos a integra da maioria dos textos analisados, uma vez que são de difícil acesso no Brasil. A primeira parte da Tese trata dos pressupostos teóricos que fundamentam o estudo. A segunda, se dedica à pesquisa, traça o perfil dos autores pesquisados, detalha os caminhos metodológicos, apresenta o Modelo de Caracterização e Análise de Reportagens, mostra o Corpus Analítico e analisa cada um das 40 matérias. A terceira lista as conclusões. Apresenta-se a seguir, um rápido resumo dos principais pontos de cada uma das partes.