Seja utópico ou não, na sociedade ocidental, o tema felicidade é de uma importância ímpar. Entendamos que essa felicidade é pintada na pele com as mais diversas formas. Os sentidos estarão vinculados às suas conquistas; o que representa a felicidade em símbolo para um, pode ser que não represente para outrem, mas, comumente, as tatuagens, quando reproduzem sentidos genéricos, trazem algo de sentido coletivo. Passaremos, então, a apresentar alguns sujeitos tatuados e suas constituições de sentidos de experiências felizes.
Imagem 12 – Entrevistada 1
Fonte: Acervo do Autor
“Eu estou na vanguarda de mulher tatuada em Natal” (informação verbal)11. A
Hostess afirma, com muito orgulho, ter o corpo quase todo tatuado e também diz que não sabe
se tem mais sangue ou tinta em suas veias e artérias. Ser feliz para ela é construir seu corpo com tatuagens variadas, sem seguir padrões, normas, sejam elas sociais, religiosas, ou mesmo as regras dos próprios tatuados, que seguem uma linha de rabiscos únicos, não misturando gêneros de textos e imagens. Segunda ela, “sou um corpo diverso".
Nossa entrevistada 1 continua:
A felicidade pra mim é o que eu sou e o que eu consigo ser a cada dia, viver em paz comigo mesma e em harmonia com as pessoas. Isso pra mim é felicidade. É o símbolo do infinito que eu tenho tatuado no dedo e o nome da minha família, né. A superação é o que eu faço todos os dias ao acordar. Eu já acordo superando muitas etapas da minha vida. E você sabe que aqui no Nordeste, principalmente aqui em Natal, Rio Grande do Norte, você conviver com uma criatura com 58% do seu corpo tatuado, e ela conviver dentro de uma sociedade fechada, que é o que eu vivo, mais
ou menos daquilo, o meu lado, vamos dizer, “promíscuo”, o meu lado “fechação” de
ser é outro completamente diferente com você, com a Vanilla, com os meus amigos. Mas, o meu trabalho, os eventos que eu vou, isso tudo é muito fechado, então eu consigo quebrar essa barreira e conviver bem do gari à governadora, pra mim isso é uma superação muito grande (informação verbal).12
11 Infor ação cedida po Da ielly Tattoo Sa tos ao auto desta tese.
12I fo ação cedida po Da ielly Tattoo Sa tos e e t evista ue se e co t a t a sc ita a í teg a o
Nesta perspectiva, até que ponto os discursos produzidos e talhados em sua pele sem uma uniformidade imagética e que disputam agora os mínimos lugares que estão descoloridos são tão alheios ao outro, mesmo diante de tempo intitulados pós-modernos? Podemos trazer para o campo dos discursos interditados. Nossa entrevistada escreve na derme textos e imagens que adequam-se ao jogo discursivo do dizer. Foucault(2007) aponta para o discurso interditado, pois em nossa sociedade não temos o direito de tudo dizer, em qualquer circunstância e acerca de qualquer assunto. O que cremos é que mesmo fugindo das tatuagens que delatam estéticas específicas, em certos instantes encontra-se em um ou outro lócus discursivo.
Podemos também inferir que sua pele traz um mosaico institucional discursivo. O corpo traz consigo reflexões que reforçam os discursos da família, da religião cristã, erótica, entre outras formações discursivas que reforçam as Instituições que temos em nossa sociedade. Não estamos fazendo aqui juízo de valor para com suas marcas corporais, mas sim, partindo de sua fala que não segue parâmetros, nem regras. Foucault (2012, p. 39) nos diz em sua primeira hipótese para as formações discursivas: “os enunciados, diferentes em sua forma, dispersos no tempo, formam um conjunto quando se referem a um único e mesmo objeto”.
Abordaremos a transgressão para entender melhor nosso sujeito em questão. Para Foucault (2009, p. 32) “O limite e a transgressão devem um ao outro a densidade de seu ser.” Nossa entrevistada se diz um sujeito transgressor por ser mulher, por tratar seu corpo como uma tela em que se deixa, artista, produzir artes, que está sempre no limite, e que este jaz, cotidianamente, com novos riscos na pele. Segundo ela, cuida de sua pele, pois se sentia sem graça, era sem cor, uma pele igual à de todos. Adornar a pele com suas experiências lhe diferencia dos demais e faz com que o outro participe de sua vida.
Apresentamos nas tecnologias do eu dizer foucaultiano a forma como essa primeira entrevistada usa as tatuagens para se diferenciar dos outros e alcançar felicidade, ora proteção, ora imortalidade, ora impressão de sentidos vividos, crenças e valores subjetivados em verdades que os sujeitos registram em suas dermes; sejam eles discursos da ordem da alegria ou da tristeza, todos fazem parte dessa linguagem. A linguagem escrita na pele como prática social e prática da liberdade, pois apresentam a escrita como cuidado consigo.
Nessa mesma premissa das subjetividades tatuadas constituindo felicidade, temos outra entrevistada que aderiu à técnica da escrita de si como prática de uma estética corporal que, além de satisfação, explora sentidos e prazeres.
Antes de abordar os sentidos universais das tatuagens que nossos sujeitos trazem na pele e saltam e chamam a atenção do nosso olhar, é mister discutir no âmbito da unidade
desse discurso. Foucault (2012) nos alerta que, sejam os discursos contemporâneos ou não, sempre são classificações, normatizações, institucionalizações, mas que precisam ser vistos em curso, ao lado de outras unidades discursivas e que não os tomemos como verdades universalizantes. Por tal motivo, essas classificações encontradas em livros, sites, blogs e afins não dão conta de explicar os sujeitos desta pesquisa e seus sentidos impressos na pele. Borboletas13 e a flor de lótus que vemos nos braços representam, por sua vez, desde a antiguidade grega, juventude, beleza e liberdade. Esses elementos são apresentados tanto na fala da entrevistada quanto na imagem que adorna sua pele. A flor representa desde a mitologia, vitória, nova vida e até mesmo, em algumas culturas, o chegar da primavera significa "Deus está feliz". Em relação à borboleta, há registros gregos que dizem que cada borboleta saindo do casulo é uma alma humana que nasce. Na China e no Japão, por séculos, o significado é de alegria e felicidade. A influência japonesa e chinesa de dragões, flores, fadas, estrelas e borboletas é uma constante. Vejamos abaixo um fragmento de sua entrevista, bem como a imagem da flor de lótus afirmada pela entrevistada 2. Ela fora questionada acerca da flor no braço.
Essa aqui é a lótus, né? Ela vive, ela nasce das águas, das águas sujas, poluídas, orientais. Então, é aquela demonstração de que, é, é, mesmo diante de situações adversas, de situações negativas, pode surgir uma situação positiva. É o contrário do que se diz que o fruto podre contamina o fruto bom! É o inverso. Certo? Ai eu tenho, essa aqui né? (informação verbal)14
13 Fonte: <http://www.mundodastatuagens.com.br/significados/borboleta/?ref=sidebar>. Acessado em: 19
jan. 2014
Imagem 13 – Entrevistada 2
Fonte: Acervo do Autor
Encontramos o cuidado consigo em aprender com os erros e melhorar-se. Muito próximo da tecnologia de purificação utilizada na Grécia arcaica, afirma Foucault (2010, p. 44) que “sem purificação não há relação com a verdade.” A entrevistada acima vê na purificação, no cuidado em melhorar-se, uma maneira de viver melhor. Estar bem consigo e alcançar o estado de alegria através da tecnologia tatuada na pele com o fito de alcançar o autoconhecimento. Afirmando-se sujeito enunciador de discursos que produzem sentidos de positividade, de fé, de felicidade, de leveza, de beleza, ornamento e sedução, mas ao mesmo tempo, está por se completar no olhar, na leitura do outro. Analisando essa tecnologia do tatuar-se, Foucault (2009, p. 134) à luz de Plutarco, afirma que opera com uma “ethopoiética: operador da transformação da verdade em ethos”.
Em outro momento de sua entrevista, a entrevistada diz ser adepta ao cover up (cobertura de uma tatuagem por outra) quando os sentidos tatuados não mais fazem parte de sua subjetividade. Afirma ainda que suas marcas corporais são legendas para que outrem a entenda melhor. “Permitir através da tatuagem que os outros visualizem você mais de perto, enxergar melhor, te decodificar, te ler [...]”15.
Nesta perspectiva, a tatuagem nos apresenta enquanto uma legenda capaz de desnudar o ser do sujeito sua subjetividade parada no tempo para que os outros te apreendam.