A universidade sempre foi impulsionada pela necessidade de cultivo e transmissão do saber humano, atribuição que ela vem perseverando em cumprir desde tempos remotos. A instituição universitária busca adaptar-se a diversas realidades. Paulatinamente, as novas exigências impactaram a universidade chegando-se à constatação de que a ampliação dos conhecimentos e a produção de novos saberes tornaram-se vitais para o novo contexto social,
tendo como fins “[...] a liberdade do saber, o alargamento dos horizontes da igualdade de oportunidades, e o aperfeiçoamento da formação humana” (TEIXEIRA, 1969a, p. 236).
Considerando-se finalidade como o fim a que se destina a universidade, entende-se que seu principal objetivo é a indissociabilidade da tríade: ensino, pesquisa e extensão. Para Souza (1997), a universidade visa a criação de novos conhecimentos por meio da pesquisa, do ensino e da disseminação da cultura, partilhando os saberes com a comunidade externa, por intervenção da prática do extensionismo. Conforme Wanderley (2003, p. 38) “[...] das necessidades de cultivo e difusão enfatizou-se o ensino como meta fundamental; das necessidades de ampliação e descoberta enfatizou-se a pesquisa” e como meio de aplicação das descobertas, a extensão, concretizando a relação entre ensino, pesquisa e extensão.
A Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988, Art. 207 dispõe que “as universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial e obedecerão ao princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão” (BRASIL, 1988, p.34). Sobre a integração do ensino, pesquisa e extensão, para bem formar os profissionais, Silva (1997, p. 149), observa:
Por meio da pesquisa aprimora os conhecimentos existentes e produz novos conhecimentos. Pelo ensino, conduz esses aprimoramentos e os novos conhecimentos aos educandos. Por meio da extensão, pode proceder a difusão, socialização e democratização do conhecimento existente, bem como das novas descobertas à comunidade.
As universidades foram buscando articular ensino, pesquisa e extensão, o que proporcionou o crescimento da aprendizagem e o avanço da ciência; esses resultados deixaram clara a importância de se unificar essas três dimensões. A integração dessas atividades tornou-se essencial para a ação acadêmica da universidade, proporcionando a criação de novos saberes e a sua aplicação para a comunidade na qual está inserida.
Com relação ao conteúdo do ensino, Wanderley (2003) afirma que durante muito tempo a universidade foi concebida como lugar de procura desinteressada do saber e que atualmente o ensino deve balancear as exigências profissionais com as exigências humanísticas, alicerçadas em valores éticos. O Decreto Nº. 19.851, de 11 de abril de 1931, Art. 2º determina que o ensino universitário tem como finalidade:
Elevar o nível da cultura geral, estimular a investigação científica em quais quer domínios dos conhecimentos humanos; habilitar ao exercício de atividades que requerem preparo técnico e científico superior; concorrer, enfim, pela educação do indivíduo e da coletividade, pela harmonia de objetivos entre professores e estudantes e pelo aproveitamento de todas as atividades universitárias, para a grandeza da Nação e para o aperfeiçoamento da humanidade (BRASIL, 1931a, p.1).
Sobre as relações do ensino superior com a pesquisa pondera-se que há uma questão recorrente que desencadeia discussões sobre o que seria preferível, realizar pesquisa pura ou aplicada, como afirma Souza (1997, p. 185):
Equivocadamente, há quem ache que a melhor opção seja feita em favor da pesquisa aplicada, eis que a pura exigiria equipamentos e laboratórios sofisticadíssimos, além de grande tradição institucional nessa atividade. Ledo engano, eis que muitas das maiores descobertas da ciência moderna nasceram de acasos ocorridos fora da parafernália dos laboratórios de alta definição.
No que se refere ao tipo de pesquisa ideal, Cruz (2006) ensina que a universidade aprendeu, ao longo da história, que é bom manter muita atividade de pesquisa básica, um pouco menos de pesquisa aplicada e bem menos de pesquisa tecnológica. Diante do exposto, pode-se abstrair que o fator essencial para a realização de descobertas é o desempenho humano. É preciso alimentar na comunidade acadêmica o desejo, a competência e, sobretudo, a dedicação à pesquisa. Somente assim, será possível uma verdadeira integração entre ensino e pesquisa. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, Art. 43, inciso III determina como uma das finalidades da educação superior o incentivo ao “[...] trabalho de pesquisa e investigação científica, visando o desenvolvimento da ciência e da tecnologia e da criação e difusão da cultura, e, desse modo, desenvolver o entendimento do homem e do meio em que vive [...]” (BRASIL, 1996b, p. 7).
A consciência progressiva por parte da comunidade acadêmica e da sociedade de que o conhecimento desenvolvido na universidade deve ser estendido à comunidade, por meio de serviços, concebeu o processo de extensão universitária. Formou-se, então, a trilogia ensino, pesquisa e extensão, como finalidades acadêmicas de uma universidade. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, em seu Art. 43, inciso VII, estabelece, ainda, a promoção da “[...] extensão, aberta à participação da população, visando à difusão das conquistas e benefícios resultantes da criação cultural e da pesquisa científica e tecnológica geradas na instituição” (BRASIL, 1996b, p. 7).
O Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Universidades Públicas Brasileiras apresentou o Plano Nacional de Extensão Universitária – 2000/2001, que define extensão universitária como “o processo educativo, cultural e científico que articula o Ensino e a Pesquisa de forma indissociável e viabiliza a relação transformadora entre Universidade e Sociedade” (FÓRUM DE PRÓ-REITORES DE EXTENSÃO DAS UNIVERSIDADES
PÚBLICAS BRASILEIRAS, 1998, p. 5). Para Holanda (2007a, p. 147-148) trata-se “[...] de levar à população o benefício concreto para seu dia-a-dia no mundo do trabalho, da produção e da consciência sobre sua realidade, do saber produzido na universidade”. Fórum de Pró- Reitores de Extensão das Universidades Públicas Brasileiras (1998, p. 5) ressalta:
A Extensão é uma via de mão-dupla, com trânsito assegurado à comunidade acadêmica, que encontrará, na sociedade, a oportunidade de elaboração da práxis de um conhecimento acadêmico. No retorno à Universidade, docentes e discentes trarão um aprendizado que, submetido à reflexão teórica, será acrescido àquele conhecimento.
Tal conceito centraliza a extensão como o caminho para a responsabilidade social da universidade, destacando-a como uma instituição transformadora da sociedade por meio de uma troca dinâmica entre a universidade e a sociedade. A partir dessas definições, considera- se o extensionismo uma questão de fundamental importância para o tema proposto neste trabalho, visto que a RSU envolve o atendimento à invocação por parte da sociedade por meio da sua participação nos diversos problemas da comunidade, e isso ocorre, na maioria das vezes, através dos projetos de extensão.
Silva (1997) afirma que o ensino necessita da pesquisa para aprimorá-lo e inová-lo e da extensão para transferir os seus conhecimentos à sociedade e complementá-los com aplicações práticas. A extensão necessita dos conteúdos, educandos e professores, do ensino, para ser efetivada e da pesquisa para diagnosticar e oferecer soluções para problemas e para que esteja em constante processo de atualização. A pesquisa requer os conhecimentos promovidos pelo ensino, como ponto inicial para novas descobertas e da extensão para difundir e aplicar sua produção. Ensino, pesquisa e extensão são atividades interdependentes e complementares, constituindo-se como funções básicas que devem ter valores equivalentes no sistema universitário. Como atividades que se complementam, devem inserir a RSU, construindo pontes entre a universidade e a sociedade por meio dos conhecimentos gerados nas três dimensões. Tradicionalmente, a concepção dessas pontes, “[...] a concretização do compromisso social da universidade e a reflexão ética sobre a dimensão social do ensino e da pesquisa têm sido uma atribuição da chamada extensão universitária” (CALDERÓN, 2006, p. 14).
A ligação entre a universidade e a população deverá ser efetuada, conforme Buarque (2003, p. 62), por meio de uma reforma que,
[...] permita levar em conta os problemas da sociedade em geral e participar de sua transformação, por meio de: um firme compromisso para com a qualidade, em todas
as áreas. Se o país mantém uma universidade, deve poder orgulhar-se dela e da qualidade de seu produto, representado pelos profissionais e o seu trabalho.
Para tanto, é preciso que haja um comprometimento com a qualidade do ensino e a formação integral do aluno, fundamentando-se no respeito cultural e na realidade social e contribuindo para que os estudantes desenvolvam competências de atuação ética e responsável.