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A literatura especializada é uníssona a respeito da existência de interação entre mecanismos de governança contratual e relacional nos relacionamentos interorganizacionais de desempenho estratégico superior, mas destoa quando a questão é explicar a natureza da interação entre esses mecanismos. Diferentes grupos de autores apresentam diferentes perspectivas, contraditórias entre si – enquanto alguns autores defendem que os mecanismos contratuais e relacionais são substitutos, no sentido de que o uso de um tipo diminui a necessidade ou benefícios de se usar o outro tipo (REVE, 1990; WILLIAMSON, 1985; LI et al., 2010b; WUYTS; GEYSKENS, 2005), outros afirmam que tais mecanismos são complementares, isto é, o uso positivo de um deles potencializa os benefícios que podem ser adquiridos com os demais (POPO; ZENGER, 2002; OLSEN et al., 2005; CANIËLS et al., 2012; NESS; HAUGLAND, 2005).

Sob o aspecto metodológico, verifica-se uma predominância de estudos que investigam a atuação dos mecanismos de governança contratual e relacional de maneira isolada e utilizam uma perspectiva estática e a-contextualizada para analisar a interação entre eles (HAWKINS et al., 2008; WATHNE; HEIDE, 2000; JAP; ANDERSON, 2003; POPPO; ZENGER, 2002), em parte devido à dificuldade de se conduzir estudos longitudinais. Tem-se, portanto, uma carência de estudos empíricos que investiguem a atuação simultânea desses mecanismos (OLSEN et al., 2005; CANIËLS et al., 2012; LIU et al., 2009), notadamente sob uma perspectiva dinâmica, o que faz com que o conhecimento sobre como as governanças contratual e relacional interagem continue limitado.

O artigo de Caniëls et al. (2012), “The interplay of governance mechanisms in

complex procurement projects”, é um raro exemplar de estudo que adota uma perspectiva

dinâmica para analisar as mudanças na interação entre diferentes mecanismos de governança ao longo do tempo. Entretanto, o estudo não leva em consideração que fatores contextuais importantes, como o ambiente institucional, o grau de influência do governo, implicações éticas e sociais, a estrutura industrial, os padrões de propriedade e a legislação de negócios local podem também contribuir para explicar as decisões estratégicas das empresas. Tais fatores contextuais são especialmente relevantes em economias emergentes, propícias a mudanças institucionais mais abrangentes e fundamentais (HOSKISSON et al., 2000; WRIGHT et al., 2005).

Este quadro de contrastes e inconsistências nos resultados empíricos, gerados a partir de teorias desenvolvidas principalmente nos EUA, e a negligência de dimensões contextuais pela literatura dominante têm se refletido em limitações, ainda mais relevantes, para a análise da interação entre governanças contratual e relacional no contexto de economias emergentes.

Cao e Lumineau (2015) realizaram uma extensa pesquisa de estudos empíricos sobre a interação entre governança contratual e relacional nos relacionamentos interorganizacionais, contemplando a análise qualitativa e meta-analítica de 139 artigos (incluindo 149 estudos) publicados nos principais periódicos6 de operations management, general management,

strategy, marketing e international business, no período de 2002 a 2012. Os autores

desenvolveram um protocolo para registrar as principais informações sobre o estudo (e.g., autor, data de publicação, questão de pesquisa e resumo), amostra (e.g., tamanho da amostra, país, indústria, unidade de análise e tempo de relacionamento), medição (itens de medição e confiabilidade) e efeito (correlações). A Tabela 2 apresenta as principais dimensões de alguns dos estudos representativos.

Segundo Cao e Lumineau (2015), os estudos que investigam a interação entre governança contratual e relacional podem ser categorizados em dois grupos principais. Um grupo foca no relacionamento mútuo entre governança contratual e relacional, enquanto o outro foca nos impactos conjuntos dos mecanismos contratual e relacional sobre o desempenho. Dentro de ambos os grupos existe o debate se as governanças contratual e relacional são complementares ou substitutas, com correntes de pesquisa que defendem argumentos opostos, baseados em estudos empíricos que apresentam achados inconsistentes. Basicamente, em relação a esse debate, o que distingue os dois grupos são as definições dos construtos (aspecto teórico) e as medições utilizadas para explicar a complementaridade entre as governanças (aspecto metodológico).

6 Os periódicos pesquisados foram: the Academy of Management Journal, Journal of International Business

Studies, Journal of Management, Journal of Management Studies, Journal of Marketing, Journal of Marketing Research, Journal of Operations Management, Organization Science, and Strategic Management Journal.

Tabela 2 – Principais dimensões de estudos-chave sobre a interação ente governança contratual e relacional

Fonte: Cao e Lumineau (2015)

Utilizando métodos estatísticos de análise por subgrupos e meta-regressão, Cao e Lumineau (2015) examinaram a interação entre governança contratual e relacional e seus impactos sobre a performance, considerando os efeitos de quatro fatores moderados: ambiente institucional, tipo de relacionamento, tempo de relacionamento e medições do construto. Os resultados obtidos demonstram que as interações entre governança contratual e relacional são positivamente relacionadas e corroboram o argumento de que seus impactos conjuntos são complementares na diminuição do oportunismo e na melhoria da satisfação e da performance dos relacionamentos interorganizacionais. Entretanto, os autores ressaltam uma nuance deste

estudo em relação à literatura existente. A maioria dos estudos empíricos implicitamente assume que, quando as governanças contratual e relacional reforçam ou compensam uma à outra, seus efeitos conjuntos aumentam ou diminuem a performance automaticamente. Ao contrário, os achados deste estudo revelam que, embora a confiança e as normas relacionais melhorem o desempenho dos contratos, os contratos podem não complementá-las na supressão do oportunismo, uma vez que os contratos não são significativamente relacionados ao oportunismo. Este achado sugere que a lógica pela qual as governanças contratual e relacional são complementares nem sempre está em linha com a lógica pela qual elas interagem para criar salvaguardas contra o oportunismo.

A respeito dos fatores moderadores, os autores concluíram que a relação entre contrato e confiança é provavelmente moderada pelos quatro fatores analisados. Especificamente sobre o ambiente institucional, Cao e Lumineau (2015) demonstram que a relação entre contrato e confiança é negativamente moderada pelo sistema legal e pela distância de poder e positivamente moderada pelo coletivismo. Quando o sistema legal é eficaz, ele provê maior proteção aos acordos estabelecidos contratualmente, de modo que as partes terão menor propensão de quebrar esses acordos. Neste caso, os contratos podem ser substitutos para a função de controle da governança relacional (ZHOU; POPPO, 2010).

Sobre o segundo fator, os autores pontuam que em ambientes institucionais com alta distância de poder, existe menor propensão dos parceiros serem tratados como iguais e os contratos tendem a ser interpretados como instrumentos de controle (WUYTS; GEYSKENS, 2005). Neste caso, os contratos podem destruir as fundações da confiança (GHOSHAL; MORAN, 1996). Por último, em culturas coletivistas, dá-se mais ênfase a fatores sociais do que a contratos detalhados. Em tais ambientes, os contratos devem ter função complementar à confiança.

Em resumo, os achados de Cao e Lumineau (2015) demonstram que tanto instituições formais quanto informais moderam a relação entre contrato e confiança. Tais achados também sugerem que os contratos podem ter função de controle ou coordenação conforme o ambiente institucional, ampliando o entendimento da literatura prévia de que os contratos são essencialmente instrumentos de controle que dependem da eficácia do ambiente institucional formal (WILLIAMSON, 1985). Neste sentido, o estudo fornece insights frutíferos para entender, por exemplo, como contratos e confiança interagem em economias emergentes, nas quais o sistema legal é tipicamente e relativamente eficaz.

A Tabela 3 apresenta a agenda de pesquisa proposta por Cao e Lumineau (2015) para guiar pesquisas futuras sobre a interação entre governança contratual e relacional.

Tabela 3 – Agenda de Pesquisa sobre a interação entre governança contratual e relacional (Formato 5Ws e 1H)

Benzer Belgeler