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Os conflitos políticos deflagrados nos primeiros anos da década de 1920, que envolveram o questionamento das fronteiras no sul e no norte do Estado de Minas, tiveram influência nos projetos policiais. Há indícios de que essa crise política esteja relacionada com o movimento de reorganização e reestruturação dos serviços policiais de Minas, em meados daquela década. Naquele momento, as autoridades do Partido Republicano Mineiro, empossadas no governo Antônio Carlos, implementaram uma ação política educativa, com promessas emancipadoras e propostas de comunhão dos valores liberais. Nas palavras do recém-empossado Secretário da Segurança José Francisco Bias Fortes,

a análise pormenorizada do programa político que se vai desenvolvendo em Minas, além de patentear que estão lançados os fundamentos de uma lata política educativa, demonstra a perfeita aplicabilidade, entre nós, das normas democráticas, moldadas neste elevado princípio liberal - “a democracia não visa conquista e a dominação do semelhante; antes, o que ela apregoa é igualdade perante a lei e não igualdade absoluta; o que ela quer é a emancipação do homem, politica, econômica, e socialmente”.

Nesses largos traços temos a situação fiel do que se opera no Estado: a democratização dos nossos costumes e as realizações já verificadas inculcam o mais auspicioso prognóstico.89

Estaria em jogo a lógica discursiva do pensamento liberal, que buscava a “reorganização social dentro da ordem”,90 promovendo a institucionalização de um controle social e tendo como um dos suportes a pedagogização das práticas sociais.91 A criação da Secretaria de Segurança e Assistência Pública, que buscava dar continuidade ao processo de valorização das organizações militares e investigativas da polícia, era uma tentativa de solucionar os problemas de ordem social e política no Estado, cujo objeto era “velar pela ordem, segurança, assistência e saúde pública”.92

Por indicação do presidente Antonio Carlos, o Congresso Mineiro aprovou leis que promoveram reformas na Secretaria de Segurança e no Gabinete de Investigações e Capturas,

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Relatório SSA, 1928, p. 6-7, grifos meus.

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MONARCHA, 1989, p. 54

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Ciro Mello (1996, p. 24) argumentou que a elite política mineira, favorável aos projetos republicanos, promoveu, no pós-1889, a construção de discursos políticos “objetivado[s] na educação não formal do povo e do cidadão”, promovendo a disseminação de uma educação política.

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que passou a ser denominado, em 1927, Serviço de Investigações e Capturas.93 Além disso, essa repartição passou a chefiar quatro delegacias especializadas, a partir de 1928: Delegacia de Segurança Pessoal e de Ordem Política e Social, Delegacia de Furtos, Roubos e Falsificações em Geral, Delegacia de Fiscalização de Costumes e Jogos e a Delegacia de Vigilância Geral e Capturas.94 Comentando a respeito desse serviço, o secretário afirmou que “dentre as novas funções atribuídas a esta seção, convém salientar os serviços de investigações e vigilância, proteção aos direitos individuais, manutenção da ordem, segurança e tranquilidade públicas, além da captura de criminosos”.95

É interessante notar que o Gabinete de Investigações já havia sido regulamentado no governo do presidente Fernando Mello Vianna, pelo Decreto n. 7.287, de 17 de julho de 1926. A principal diferença entre esses dois regulamentos encontra-se no grau de “modernização” que os governantes procuraram dar ao aparato policial, numa luta simbólica pelo poder. Ambos prescrevem a criação de novos cargos, bem como o incentivo ao uso de novos materiais técnicos e instrutivos. Mas o regulamento de 1927 abriu caminho tanto para a especialização do aparato policial, criando delegacias especializadas, quanto para a abertura de créditos destinados ao custeio da segurança.96

As transformações administrativas, políticas e operacionais pelas quais a polícia investigativa de Minas passou ao logo da década de 1920 caminharam passo a passo com as transformações do espaço urbano de Belo Horizonte, que esteve em constante reformulação. Como nos indica Anny Silveira, a vida cultural da cidade se diversificou ao longo daquela década, e alguns espaços urbanos, como os cafés, tornaram-se importante ponto de referência para a sociabilidade dos habitantes.

Toda essa atividade, o cruzar de opiniões que tinha lugar nessas casas, fazia do café um lugar onde se poderia encontrar conversação construtiva e inteligente. É segundo essa imagem que seus salões também serão vistos como espaço onde seria possível educar-se socialmente, aprendendo sobre as formas, os códigos e os significados dos atos e do comportamento em público.97

Esses espaços eram frequentados por uma diversidade social muito grande, que, muitas vezes, condizia com a localização dos cafés no mapa da cidade. Assim, diferentes aprendizados e formas de sociabilidade forjavam-se nesses locais, não se limitando às

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Relatório da SSA, 1928, p. 30-31.

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Regulamento do SIC, Decreto 8.068, de 12 de dezembro1927, arts. 54 a 58.

95

Relatório da SSA, 1928, p. 40, grifos meus.

96

Ver Decreto n. 7.287, de 17 de julho de 1926, e Decreto 8.068, de 12 de dezembro de 1927.

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imagens de civilidade e preservação dos bons costumes que os cafés carregavam, afinal, “a cidade era o que os habitantes faziam dela”.98 Os espaços de diversão, pontos de encontro e lazer, como cinemas, restaurantes, bares, confeitarias, clubes e cabarés se diversificavam, num processo de intensificação da “vida urbana”.99 Mas nesse cenário de transformação dos espaços de sociabilidade e da ocupação do tempo livre, ocorriam problemas de habitação, transporte e abastecimento de água, em diversos bairros da cidade da área denominada “suburbana”.100 Havia, também, uma crescente preocupação com as chamadas “alterações” e “distúrbios” da ordem moral e pública. Sobre essa questão, Letícia Julião sustenta que “a capital parecia, assim, reservar aos setores populares apenas o sentido repressivo de sua modernidade”.101

Tendo a discordar dessa afirmativa, na medida em que entendo que a modernidade não seria um projeto pré-determinado e conduzido por um grupo específico, detentor dos destinos da sociedade. Concordar que os grupos sociais com menor poder aquisitivo só entravam em contato com a modernidade a partir do aparato repressivo do Estado é desconsiderar a própria atuação desses grupos nos movimentos que consagraram a modernidade na cidade, seja na participação massiva nas exibições cinematográficas, seja na participação e organização de greves e manifestações políticas no espaço público.102

Além disso, aquela perspectiva só é capaz de perceber o aparato policial sob a ótica da repressão, desconsiderando outras formas de atuação da polícia, como a assistência pública e a organização dos transportes urbanos, por exemplo.103 Ratificar a afirmação de Julião seria, enfim, desprezar o caráter relacional dos projetos políticos e a dinâmica do processo de consolidação do fenômeno da modernidade em Belo Horizonte. Além disso, não podemos pensar na legislação e nas prescrições de normas de conduta, desde Thompson, como uma simples arma “burguesa” de dominação e manipulação das “classes populares”. A respeito da “função ideológica da lei”, o historiador inglês afirmou que

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Anny Silveira (1996, p. 171) afirma que “para além da tarefa de civilizar os habitantes da nova cidade, estes estabelecimentos de café foram objeto de outras destinações, dadas por esses mesmos habitante. Espaço do ócio, do negócio, da contestação política, de bebedeiras e de conflito, do estabelecimento de uma sociabilidade e de solidariedades que não exatamente, às vezes mesmo contrárias, aquelas pensadas pelos projetistas”.

99

ANDRADE, 2004, p. 85-86.

100

Esses problemas são discutidos por GUIMARÃES, 1991.

101

JULIÃO, 1996, p. 84.

102

Sobre a participação popular em eventos cinematográficos, ver DIAS, 2011, p. 2-3. Sobre as práticas de operários na cidade, ver DUTRA, 1988.

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se a lei é manifestamente parcial e injusta, não vai mascarar nada, legitimar nada, contribuir em nada para a hegemonia de classe alguma. A condição prévia essencial para a eficácia da lei, em sua função ideológica, é a de que mostre uma independência frente a manipulações flagrantes e pareça ser justa. Não conseguirá parecê-lo sem preservar sua lógica e critérios próprios de igualdade; na verdade, às vezes sendo realmente justa.104

Apesar de os registros policiais e legais não nos oferecerem outra visão que não a institucional, é preciso pensá-los num eixo diferente das leituras que, ao explicarem uma parte da história de Belo Horizonte, acabam por simplificar um processo de luta por definições e usos dos espaços urbanos, modos de convivência e comportamentos nesses espaços. Nesse sentido, defendo que o processo de educação das sensibilidades e dos comportamentos dos habitantes da capital, em suas décadas iniciais, aconteceu em meio a uma forte tensão entre o desejo de formar as pessoas pelos pressupostos de uma dada modernidade e a necessidade encontrada pelas autoridades policiais e pela sociedade civil de vigiar, reprimir e prevenir determinados comportamentos emergentes pari passu aos diferentes processos de modernidade.105 Anny Silveira, argumenta que “apesar de tantos modelos que foram sonhados para a jovem capital, a sua vida em sociedade acabou se definindo muito mais em função daquilo que a cidade podia oferecer e pela forma como seus habitantes usufruíram desses espaços e atividades”.106

A autora admite, assim, a coexistência entre, no mínimo, dois tipos diferentes de projetos para a cidade, o dos “civilizados”, que procuravam legitimar e colocar em prática os projetos oficiais de modernização da cidade e o dos “rastaqueras”, composto pelo “movimento de incorporação, negação e reformulação dos elementos definidores desses mesmos projetos”.107 Apesar de não incorporar as categorias de “classes dominantes” e “resistência”, entendo, com a autora, que havia projetos de sociedade diferentes daqueles apresentados pela polícia e pelos representantes políticos da cidade. E a relação entre esses diferentes desejos é uma das composições possíveis da trama que os historiadores podem tecer sobre o processo de pedagogização da população da capital mineira.

Belo Horizonte, assim como outras cidades brasileiras,108 passou por um processo de interação e disputa entre o desejo de transformações culturais e inserção numa lógica de

104 THOMPSON, 1987, p. 354. 105 JULIÃO, 1996, e SILVEIRA, 1996. 106 SILVEIRA, 1996, p. 198. 107 SILVEIRA, 1996, p. 172. 108

Algumas cidades, na virada do século XIX para o XX, no Brasil, vivenciaram diferentes projetos de modernidade e modernização que entraram em conflito com outras moralidades e tendências sociais,

desenvolvimento e o desejo de preservação dos costumes, da moralidade e da honra das famílias.Mais do que contradição, essa ambivalência é parte de um processo de constituição da própria cidade, compondo importante eixo interpretativo de uma memória coletiva e da historiografia sobre a cidade.109 Uma expressão dessa ambivalência encontra-se nessa defesa pela constituição de uma “vida noturna” na capital, sem as limitações decorrentes de preceitos morais mais conservadores.

Belo Horizonte progride?

(...) Eu quero acreditar que Belo Horizonte progrida... E gostaria que a cidade evoluísse sem limitações ridículas, sempre intoleráveis.

Ouço referências a cabarés onde se fala um esparregado de linguagem, uma mistura de idiomas, que deve formar o “esperanto” da libertinagem elegante e onde se “maxixa” o tango argentino e se faz a apologia frenética do Jazz band. Naturalmente nesses ambientes “simiescos” devem imperar a Isidora Duncan e a [Parlowa] da tribo dos Guaicurus.110

De acordo com as posições apresentadas até agora, Belo Horizonte produziu e conviveu com diferentes projetos de modernidade que privilegiavam, de uma parte, o desenvolvimento de uma moralidade mais “conservadora” e, de outra, a composição e expansão de um cenário público “emancipador”. Ciro Mello, diferentemente da maioria dos historiadores de Belo Horizonte, argumenta que a construção da capital não significou “uma ruptura do tipo novo/velho, moderno/antigo, mas uma recomposição do tempo histórico dentro de uma legitimação da justaposição tradição/futuro.”111 Sua proposta, pertinente ainda hoje, nos ajuda a corroborar o argumento de que o “novo” e o “antigo” conviveram de forma conflituosa nos projetos de modernidade para a capital.112

A interação entre uma série de comportamentos sociais mais “tradicionais” e outra composta por movimentos de expansão de uma forma de vida da “modernidade” constitui-se como importante linha explicativa na historiografia de Belo Horizonte. Essa perspectiva permite perceber que os habitantes da cidade, que crescia vertiginosamente, procuraram manter, entre suas formas de sociabilidade, as relações pautadas no face-a-face e em valores de honra e moral, ao mesmo tempo em que procuravam diversificar as possibilidades de relações interpessoais, como o distanciamento dos laços afetivos nas atividades cotidianas.

principalmente no seio “popular”. Sobre a cidade do Rio de Janeiro, ver CAULFIELD, 2000; sobre Porto Alegre, ver PESAVENTO, 2001; e a respeito de Santos, ver MATOS, 2002.

109

Sobre o uso da noção de “ambivalência”, ver ANDRADE, 2004.

110

Diário de Minas, 28/12/1922, p. 1, grifos meus. O autor da crônica assina como “Fly”.

111

MELLO, 1996, p. 13.

112

“Assim, o que mais se evidencia são as tensões e ambivalências próprias da passagem de um meio menos urbanizado e moderno para um mais heterogêneo e moderno”. ANDRADE, 2004, p. 175.

Para Luciana Andrade, podemos observar as tensões existentes nesse processo a partir da dualidade entre “provincianismo” e “cosmopolitismo”. Segundo a autora, “o anonimato e o cosmopolitismo só podem ser experimentados como liberdade positiva [...] quando os valores tradicionais e familiares deixam de predominar na definição da identidade do indivíduo”; por outro lado, se esses valores ainda são importantes, mas tornam-se impotentes diante da hierarquização, social e econômica, das sociabilidades urbanas, “o anonimato só pode ser percebido e experimentado como liberdade negativa e exclusão”.113

Observando os movimentos de luta pela modernidade em Belo Horizonte a partir dessa perspectiva de análise, pode-se compreendê-los como parte de um processo formador de sensibilidades e subjetividades dos habitantes da cidade, ou, em outras palavras, do processo de pedagogização da população.114 No que diz respeito à polícia, a delimitação de espaços, a definição de modos de conduta e a elaboração de normas para a prática do meretrício podem ser compreendidas “como uma dimensão pedagógica do poder”,115 na medida em que concentram e expressam conhecimentos morais e o poder discricionário da polícia. Nas ruas da cidade, gesta-se “uma pedagogia para o flâneur, para a prostituta, para o passante, e mesmo para o homem na multidão,” num movimento em que “os sentidos do corpo são educados, treinados” a partir de experiências cotidianas em que a vivência do choque é privilegiada.116

Benzer Belgeler