Entre 1964 e 1989, o papel econômico do Estado buscou assegurar o desenvolvimento de “espaços vazios” e garantir a aplicação da ideologia de “segurança nacional”. Durante o governo militar, o Estado investiu na proteção do setor privado nacional, contrapondo-se a desnacionalização que fora estimulada no
governo Juscelino Kubitschek (1956–1961), que acarretou no deslocamento de parte dos interesses do setor privado nacional.
Na segunda metade dos anos 1970, surgiram críticas ao fortalecimento estatal. Ainda não havia manifestação direta de defesa da privatização e, sim, a associação crescente entre autoritarismo e a estatização econômica; contudo, a manifestação dos primeiros sinais de crise do padrão de intervenção Estatal abriu uma primeira lacuna para o engrandecimento dos princípios neoliberais (Pochmann 2001, p. 22).
Numa perspectiva de longo prazo, segundo Pochmann (1999, p. 70), caminhava-se para a consolidação dos empregos regulares com registro e para uma maior taxa de assalariamento, contudo permaneciam problemas tradicionais de uma economia subdesenvolvida como a informalidade, subemprego, baixos salários e desigualdade de rendimentos. Em geral, as melhores condições de trabalho e remuneração tendiam a se concentrar no assalariamento com registro.
Entre as décadas de 1940 e 1980, o mercado de trabalho no Brasil apresentou fortes sinais de estruturação em torno do emprego assalariado com registro formal, incorporando grande parcela da População Economicamente Ativa – PEA. Este momento caracterizou-se pelo movimento de estruturação do mercado de trabalho e ocorreu simultaneamente ao processo de industrialização e institucionalização das relações e condições de trabalho. Segundo Pochmann:
Para uma taxa média anual de expansão da População Economicamente Ativa de 2,6% entre 1940 e 1980, o emprego assalariado com registro aumentou 6,2%. No mesmo período, o emprego assalariado total cresceu a uma taxa de 0,6%, enquanto o desemprego variou 0,5%, o conta própria 1,8% e o sem remuneração 0,6% (POCHMANN, 1999, p. 68).
A comunicação e a informática tornaram-se o grande diferencial em diversas áreas da economia. Para Pochmann (2001, p. 59), o acesso ao computador, através do seu uso em rede (internet), possibilitou um novo salto nas comunicações em massa, devido à rapidez e ao baixo custo. Apesar disso, é
relativamente pequeno o segmento da população envolvida com a comunicação eletrônica. Segundo este autor:
A partir da interpretação corrente sobretudo nos meios financeiros, tem sido difundido o termo “economia digital ou nova economia”, como forma de enunciar a existência de um boom de expansão das atividades econômicas no último quartel do século XX. Nesse caso, tem referência principal a articulação entre a expansão da indústria de tecnologia de informação e de comunicação, especialmente através do uso da internet – com capacidade de realizar em crescente escala de conexões entre as diferentes cadeias produtivas – e a emergência do comércio eletrônico (POCHMANN, 2001, p. 61).
O colapso do padrão de financiamento da economia brasileira, no início dos anos 1980, ocasionado pela crise da dívida externa levou à adoção de programas de ajustes macroeconômicos que inviabilizaram a retomada do crescimento econômico sustentado. Para Pochmann “No cenário de estagnação, de fortes e rápidas oscilações econômicas e num contexto hiperinflacionário, o país terminou rompendo com a tendência de estruturação do mercado de trabalho inaugurada ainda nos anos 1930”. (POCHMANN, 1999, p. 71).
As transformações nas formas de ocupação da PEA, que demonstram uma desestruturação do mercado de trabalho, tiveram início nos anos 1980, a partir do abandono do projeto de industrialização nacional e da adoção de um conjunto de políticas macroeconômicas de reinserção internacional e enfraquecimento do estatuto do trabalho.
Nos anos 1990, os sinais dessa desestruturação se mostram mais evidentes. Observa-se um movimento de desassalariamento, causado pela eliminação dos empregos com registro e também pela subutilização da força de trabalho, causada principalmente pelo crescimento do desemprego. De acordo com Pochmann:
Os efeitos combinados, a partir de 1990, de políticas recessivas, de desregulação e redução do papel do Estado, de abertura comercial abrupta, de taxas de juros elevadas e de apreciação cambial seriam responsáveis pela montagem de um cenário
desfavorável ao comportamento geral do emprego nacional (POCHMANN, 1999, p. 85).
A partir de 1990, consolida-se uma tendência de desestruturação do mercado de trabalho. A quantidade e qualidade do emprego da força de trabalho no capitalismo contemporâneo são determinadas, conforme Pochmann (1999, p. 108/109), por cinco elementos chaves: o papel das políticas macroeconômicas; o paradigma técnico produtivo; as políticas de bem-estar social; o sistema de relações de trabalho e as políticas de emprego.
[...] basta ter claro que a globalização não é um processo completamente apolítico, envolvendo desde os anos 80 pressões crescentes de governos e organismos multilaterais sobre a condução doméstica das economias periféricas. Por isto, os ajustes nacionais tampouco são puramente econômicos. Os Estados nacionais têm que optar e decidir como se conectam à nova redefinição das coalizões interna e externa de poder. No nosso caso, o velho tripé econômico e sua aliança com as elites políticas regionais entrou em crise e precisa ser refeito. Dos antigos aliados, a velha elite política está esfacelada regionalmente; o sócio internacional "financeirizou-se"; o empresariado local, que já se "ajustou" a nível microeconômico, mantém sua velha opção ainda quando tenha encontrado seu exato lugar enquanto "sócio menor associado", e por isto já se alinhou plenamente com o livre-cambismo anti-estatista do "Washington Consensus"; e, por fim, o Estado, falido financeiramente, já foi além disto destruído de forma absolutamente irracional e ideológica pelo governo Collor (FIORI, 1994, p. 4).
O desmonte do Estado transcorreu ao longo dos anos 1990, fortalecido pela idéia de transferência de ativos públicos para o setor privado. Coube ao Estado um espaço regulador, encarregado de estimular a competição e a eficiência dos mercados.
Dessa forma o Brasil possui, desde 1990, um modelo econômico diferente do verificado entre as décadas de 1930 a 1970, que, em detrimento da defesa da produção e do emprego nacional, privilegia a promoção da integração do sistema
produtivo nacional à economia mundial. A reforma do Estado foi provocada pelo avanço hegemônico da ideologia neoliberal, a partir da difusão da concepção de que o aparato estatal traz obstáculos às inovações tecnológicas. Segundo Pochmann: “O padrão de intervenção estatal perdeu grande parte de sua funcionalidade. Em nome da competitividade, segmentos do setor público desapareceram, outros foram privatizados, concedidos, terceirizados e reformulados” (POCHMANN, 2001, p. 23).
No governo de Fernando Collor de Melo (1990–1992), é criado o programa nacional de desestatização, a desmobilização do setor público assume então papel central na agenda governamental. O Estado deixou de ser responsável direto pelo desenvolvimento sócio-econômico, afastando-se da produção de bens e serviços e o setor privado passou a ser o centro promotor da dinâmica econômica nacional.
A implementação de um novo modelo econômico, baseado no enxugamento do papel do Estado e na transferência de atividades produtivas estatais para o setor privado implicou também no significativo ajuste do nível de emprego. Segundo Pochmann (2001, p. 29), houve diminuição de 546 mil postos diretos de trabalho no setor público estatal. Além das demissões neste setor, destacou-se a adoção de medidas orientadas para a maior intensificação do trabalho, através da implementação de programas de gestão de mão-de-obra. A terceirização, a subcontratação e a rotatividade também foram adotadas como mecanismos para a redução salarial e a subordinação dos(as) empregados(as) que restaram, com o objetivo de gerar lucro para o setor estatal.
Pochmann (1999, p. 133) aponta políticas ativas e compensatórias a serem implementadas como alternativas de geração de emprego e renda. A primeira é a construção de um projeto nacional capaz de definir linhas gerais do crescimento econômico com justiça social, que tenha o emprego como questão central; a segunda é a reforma agrária; a terceira é a desconcentração de renda; a quarta é a retomada dos investimentos em infra-estrutura material (escolas, hospitais, habitação popular, estradas, saneamento básico, creches, portos, viadutos, entre outros itens); a quinta é o investimento em serviços sociais com universalização
das atividades e serviços de boa qualidade para todos (saúde, educação, assistência social, etc). Pochmann afirma que:
Pode-se considerar que o Brasil reúne condições técnicas apropriadas para melhor enfrentar a situação de ampliação das inseguranças do trabalho. O entrave, no entanto, parece residir nas condições políticas necessárias e suficientes para a superação dos limites e dos desafios das políticas de emprego (POCHMANN, 1999, p. 134).
Após mais de quinze anos de aplicação de políticas neoliberais no Brasil, o mito de que o esvaziamento do papel do Estado levaria tanto ao crescimento econômico sustentado quanto à expansão do nível de emprego não se comprovou. O que se pode perceber é que ocorreu basicamente o contrário, a adoção desse modelo econômico teve resultado pouco positivo para a economia e para o trabalho.
O desemprego assumiu volume sem paralelo na história nacional, o rendimento do trabalho alcançou uma das mais baixas participações na renda nacional, e este modelo econômico não recolocou a economia nacional no curso do desenvolvimento sustentado, levando o país a registrar a década de 1990 como a pior década quanto à variação do Produto Interno Bruto – PIB, de todo o século XX. Pode-se constatar que, até o momento, o setor privado, diante da retirado do Estado do setor produtivo, não foi capaz de promover o desenvolvimento sócio- econômico necessário e urgente. Segundo Biondi:
A venda das estatais, segundo o governo, serviria para atrair dólares, reduzindo a dívida do Brasil com o resto do mundo – e “salvando” o real. E o dinheiro arrecadado com a venda serviria ainda, segundo o governo, para reduzir também a dívida interna, isto é, aqui dentro do país, do governo federal e dos estados. Aconteceu o contrário: as vendas foram um “negócio da china” e o governo “engoliu” dívidas de todos os tipos das estatais vendidas; isto é, a privatização acabou por aumentar a dívida interna. Ao mesmo tempo, as empresas multinacionais ou brasileiras que “compraram” as estatais não usaram capital próprio, dinheiro delas mesmas, mas, em vez disso, tomaram empréstimos lá fora para
fechar os negócios. Assim, aumentara a dívida externa do Brasil (BIONDI, 1999, p. 6).
Em 1989, 100% dos serviços públicos estavam concentrados no Estado; dez anos depois, esse número foi reduzido para 32,8% (Pochmann, 2001, p. 34). A participação do setor privado aumentou significativamente, sendo que as empresas privadas estrangeiras receberam especial atenção, comprando 42% dos serviços públicos. Dessa forma o governo entrega para o setor privado fatias do patrimônio público privilegiando o capital internacional.
No Brasil, a ausência de crescimento econômico ao longo das últimas décadas, aliada à adoção da receita neoliberal nas políticas públicas, conduziu a uma grave crise do emprego. O desemprego em massa é uma realidade incontestável dos anos 1990. Outra novidade para a classe trabalhadora brasileira é o desassalariamento influenciado pela redução dos empregos assalariados com registro.
O que se percebe são ocupações precárias; os empregos assalariados que têm aumentado são os sem registro. A maioria das vagas abertas no mercado de trabalho são de ocupações sem remuneração, por conta própria, autônomos, cooperativas, entre outras. Ou seja, a maioria das ocupações da classe trabalhadora são precárias, o que demonstra as novas configurações do mundo do trabalho. Segundo Pochmann:
Além do expressivo montante de pessoas desempregadas, cabe ressaltar a drástica alteração na composição do desemprego. Em outras palavras, o desemprego mudou de perfil, deixando de ser um fenômeno que atingia, no passado recente, segmentos específicos do mercado de trabalho, como jovens, mulheres, negros e pessoas sem qualificação profissional, analfabetos e trabalhadores com pequena experiência profissional. Em síntese, o desemprego era um fenômeno relativamente homogêneo (POCHMANN, 2006, p. 62).
Na atualidade, o desemprego transformou-se num fenômeno complexo e heterogêneo, atingindo de forma generalizada praticamente todos os segmentos
sociais, inclusive camadas de maior escolaridade, profissionais com experiência que ocupavam cargos em alto escalão e com alta remuneração. Portanto, não há mais extratos sociais imunes ao desemprego no Brasil.
O mais brutal resultado das transformações ditadas pelo neoliberalismo é a transformação e a expansão, sem precedentes, do desemprego estrutural. De um lado, reduz-se o operariado industrial e fabril e, de outro, aumenta o subproletariado, o trabalho precário e assalariamento no setor de serviços, o que demonstra um processo de maior heterogeneização, fragmentação e complexificação da classe trabalhadora.
Os capitais transnacionais exigem dos governos nacionais a flexibilização da legislação do trabalho, eufemismo para designar a desconstrução dos direitos sociais. Com o Brasil não é diferente. O quadro brasileiro atual é definido por Antunes da seguinte forma:
Se o governo Lula ceder a exigência do capital – e tudo indica que o fará, flexibilizando e precarizando ainda mais a nossa tímida legislação social e trabalhista, isso terá um claro significado: Collor iniciou o desmonte do setor produtivo estatal criado por Vargas, e coube a FHC ampliar esse processo, privatizando as melhores empresas estatais existentes no país, além de continuar a desconstrução da legislação trabalhista. Se ele não pôde desvertebrar a CLT num só golpe, foi desestruturando-a pela margem, passo a passo, deixando para seu sucessor o golpe final. Era difícil para um príncipe sem plebe, destruí-la. Será curioso ver um metalúrgico do palácio fazer o serviço que falta, implodir aquilo que ainda se mantém da herança vargista. Aquilo que de algum modo as forças sociais do trabalho conseguiram conquistar e preservar (ANTUNES, 2006, p. 499).
3.3 O SETOR DE SERVIÇOS: SEU CRESCIMENTO E IMPLICAÇÕES PARA A