AVÉ! MOSSORÓ! Maior grupo de cangaceiros do Nordeste, assalta nossa cidade, sendo destroçado após horas de renhida lucta! À manchete seguem-se os subtítulos: A bravura dos nossos civis! As trincheiras heróicas. Os bandidos são chefiados por LAMPEAO, SABINO, MASSILON e JARARACA. Como morreu o bandido COXÊTE e como foi ferido e aprisionado JARARACA, o maior sicário do nordeste – Notícias e notas diversas.
Após a manchete o jornal publicou em sua primeira página a seguinte notícia:
1 A nossa ordeira, pacata, laboriosa e nobre cidade foi atacada e assediada pelo maior
2 numero de bandidos do nordeste, sob a chefia de Lampeao, Sabino, Massilon 3 jararaca,chefes de cangaceiros que se colligaram a effeito a empreitada terrível e 4 sinistra de saquear Mossoró, a mais opulenta e rica cidade do Rio Grande do Norte.
5 A immensa fama e o seu amor ao trabalho, á paz e á ordem despertaram no espírito 6 de feras daquelles bandos, apetites vorazes de sangue e de sangue.
7 Os seus planos miseráveis, porém, foram frustrados. A população civil em cooperação 8 com a polícia mostrou e afirmou a pujança de um Mossoró também aguerrido e 9 marcializado, indômito e formidável de armas na mão, nas trincheiras e nas ruas.
10 Exceção das famílias que foram postas em lugares seguros, os homens de valor 11 tomaram posições de combate em todos os quatro ângulos da cidade. Era a defesa 12 não só da potência comercial e industrial, mas, sobretudo da honra, do sagrado nome 13 mossoroense.
14 Foram quatro horas de luta heróica onde se cimentou com galhardia maravilhosa o 15 tempo sacrossanto do novo poder que se levantou com um final de glórias e louros a 16 atestar, pelos tempos em fora, a pujança do povo de Mossoró. Triunfou o direito 17 sobre o crime, o dever sobre a violência, a ordem sobre a desordem e o heroísmo
18 sobre a covardia!
19 A honra da pacata e obreira colméia riograndense foi, salva pelo heroísmo sobre a 20 covardia! Ave! Mossoró! (Correio do Povo, 19 de junho de 1927, p.1).
O orador estrutura seu discurso no engrandecimento e louvor aos heróis da resistência e escárnio do grupo de cangaceiros. Nessa perspectiva, o discurso relacionado à defesa da cidade centra-se integralmente em focar os esforços das autoridades, em especial, do governo estadual, e destacar, principalmente, suas ações solidárias, mostrando, assim, um governo eminentemente preocupado com a defesa do território, sendo, portanto, merecedor de eternos agradecimentos.
Enveredando pelo caráter manipulatório da mídia, que faz uso do jogo de vozes, e desse modo, joga com estereótipos e apagamentos na construção de identidades, observamos que a questão da subjetividade perpassa todo o discurso da notícia, uma vez que o contexto linguístico, como já explicitamos, direciona-se para enfatizar o dizer do poder vigente. Nesse sentido, vemos assumido explicitamente pelo jornal, o discurso político- ideológico do governo local.
Nessa perspectiva, percebemos que o jornal, veículo da mídia impressa de caráter objetivo, torna-se predominantemente subjetivo, visto que o sujeito enunciador inclui-se no discurso como membro da comunidade mossoroense.
O título da manchete chama a atenção do auditório (leitor) para que se concentre no objeto do discurso: ele orienta o ‘caminho’ que o público irá percorrer no discurso. No título,
o orador apresenta seu alvo de críticas: os cangaceiros, e seu alvo de devoção, a cidade, por meio do vocativo religioso “Ave, Mossoró!”, e seu povo: “A bravura dos nossos civis!”. Nessa perspectiva, constatamos que o título apresenta palavras-chave do discurso, pois, a escolha das palavras que o compõem aponta para uma construção semântico-discursiva que irá defender um ponto de vista.
O procedimento e a criação do título têm caráter persuasivo, pois aponta e contextualiza o conteúdo discursivo. Guimarães (1990), afirma que o título constitui índice caracterizador ou modalizador do objeto do discurso, ou seja, ele é um resumo mais que condensado do teor discursivo. Assim, o leitor por meio dele, prevê o tom do discurso textual.
Além disso, devemos atentar para o fato de o discurso da resistência aparecer vinculado ao discurso religioso. Percebemos que a articulação desse discurso sugere como efeito de sentido a canonização da cidade, uma vez que “Ave! Mossoró!” nos remete à concepção doutrinária do catolicismo, por meio da alusão a oração da Virgem Maria, como argumento utilizado pelo orador no reforço da tese da qualificação positiva da cidade, materialmente visível no corpo do discurso.
Para iniciar seu processo discursivo, o orador constrói nas primeiras linhas do texto o ethos da cidade, ou seja, ele cria uma imagem positiva de Mossoró com o intuito de conseguir a adesão do auditório para a tese defendida.
Ainda no que se refere ao discurso religioso, podemos estabelecer uma relação dialógica entre esse e o modo como o discurso da resistência foi empreendido pelo jornal. Quando o orador traz à cena a cidade personificada e santificada por meio da exaltação e do patriotismo, percebemos sutilmente uma relação interdiscursiva entre ambos. Mossoró sobrepõe-se a imagem da Virgem cheia de graça. Da mesma forma que Maria, a cidade mossoroense também é detentora de graças através do seu progresso. Sendo bendita entre todas as cidades do Rio Grande do Norte, assim como a santa, também gerou frutos benditos [7 a 10].
Embora não tenhamos realizado um trabalho de recepção junto aos leitores afetados pelos discursos dos jornais impressos e dos cordéis de acontecido, afirmamos, conforme a memória coletiva do episódio, retratada nas análises, de que o discurso religioso, adaptado às intenções comunicativas do texto, deixa transparecer mais uma estratégia argumentativa que se fundamenta nos valores da liberdade e da honra previamente aceitos pelo auditório para reforçar a necessidade de defesa do território.
Nessa rede de diálogos que o texto oferece, verificamos outra técnica encontrada na notícia e que finaliza o texto de maneira enfática, é a técnica da repetição marcada
linguisticamente pelo vocativo de louvor na referência à cidade para tornar mais presente na memória dos interlocutores a ideia que se pretende a adesão. Nesse caso, “[...] A repetição constitui a técnica mais simples para criar tal presença (no leitor) do ponto de que se quer chamar a atenção” (PERELMAN E TYTECA, 1996, p. 164). A utilização dessa técnica torna claro, também, para o público, o posicionamento assumido pelo produtor da notícia.