O Pronatec constitui-se, segundo o documento de referência (BRASIL, 2011) em um programa alternativo criado pelo governo federal para enfrentar a crise do emprego no Brasil. Porém, o que não está dito é que a crise representa uma fatia bem maior do que a ocupação de postos formais de trabalho. Efetivamente o mundo todo passa por um processo crítico estrutural configurado por anos de choque de poder e disputa do mercado global.
O estado do Pará recebeu R$ 317 milhões em investimentos do governo federal em ações do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), entre 2011 e 2013, participaram em Belém da formatura de 1.400 estudantes do programa…
Foram feitas no Pará mais de 136 mil matrículas, das quais 61 mil do bolsa-formação, durante esse período. No primeiro semestre de 2014, foram mais de 24 mil matrículas […] (BRASIL, 2015).
Diferentemente do que é anunciado quando se fala em globalização ela representa concretamente o nivelamento de estratégias dos países centrais e
emergentes na busca de um equilíbrio político e econômico. Contudo, geralmente se diz que é uma forma de fortalecimento do livre comércio, oficialmente esse é o pacto, porém na prática isso é resultado da dinâmica de reestruturação global do capital que escamoteia a real situação dos problemas político-econômicos mundiais (Cf. MÉNZÀROS, 2008).
[…] Na realidade a globalização econômica não funciona nem pode funcionar. Pois não consegue superar as contradições irreconciliáveis e os antagonismos que se manifestam na crise estrutural global do sistema. A própria globalização capitalista é uma manifestação contraditória dessa crise […] (MÉNZÀROS, 2008, p. 76).
A reflexão do autor mostra que a crise é bem maior e portanto não apenas do emprego, mas na estrutura sistêmica que já atingiu sua exaustão, por isso vive constantes movimentos de recriação e de choques que contraditoriamente provocam o capital a se reinventar.
Há porém um discurso ideológico que aponta a crise como consequência da desqualificação profissional, das altas e diversas taxas de impostos, às inúmeras formas de garantia de direitos aos trabalhadores. Naturalmente são artifícios apontados como motivo para flexibilização do processo produtivo e subsunção do trabalhador aos desmandos do capital. Tais elementos servem as justificativas formais que associadas às mazelas sociais e históricas assolam nossa sociedade e acabam por subsidiar gastos, investimentos, parcerias, em fim a criação de políticas públicas pouco consistentes e aprofundadas.
A exemplo de outras políticas de formação profissional como as já discutidas (PLANFOR e PNQ), o Pronatec tem revelando-se mais uma iniciativa de enfrentamento à crise por meio da educação, inclusive pelo atendimento às diretrizes da política internacional determinada pelos países centrais através de seus órgãos interventores, tal como debatido nos capítulos anteriores com Bruno (2007; 2015) e Oliveira (2015).
Há de se refletir porém que políticas como o Pronatec não se traduzem concretamente a um enfrentamento com características revolucionárias e de posicionamento de classe, muito menos dos trabalhadores, logo se o governo utilizou como justificativa pragmática o trabalho e a educação traduzidos na profissionalização sintética, certamente não seria a melhor alternativa aos
trabalhadores e sim à classe que orienta as políticas, no sentido de manter o poder e as forças hegemônicas, a final...
[…] Limitar uma mudança educacional radical às margens corretivas interesseiras do capital significa abandonar de uma só vez, conscientemente ou não, o objetivo de uma transformação social qualitativa […] é necessário romper com a lógica do capital se quisermos contemplar a criação de uma alternativa educacional significativamente diferente. (MÉNZÀROS, 2008, p. 27)
A perspectiva apresentada por Ménzàros indica a necessidade latente do capital de subsumir a transformação social. Nesta direção, não há qualquer desejo concreto de mudança do capital e sim de manutenção da ordem vigente. Contudo, o autor alerta a necessidade de ruptura na construção de uma alternativa, o que para ele pode ocorrer na medida em que temos uma educação para além do capital, a qual visa uma ordem diferente. Sendo assim, Ménzàros (2008), aponta a
automediação (autocontrole e auto-realização) como medida à construção da
liberdade, forma alternativa à emancipação humana para vencer os fetiches do capital.
As inúmeras crises ajudaram a fundir novas formas do capital em sua face mais agressiva, tal como apresenta-se hoje, o que permitiu sua metabolização, criando novas medidas para sua dominação, que diante de contradições mantém uma aparência que efetivamente seduz e aliena a sociedade (o trabalhador, a classe operária) na perspectiva de aquecer os valores da produtividade do mercado e da manutenção do sócio-metabolismo do capital, mas que em sua essência continua a manter a exploração do trabalho humano, levando o capital a resistir as novas e contínuas crises sociais que hoje apresentam-se camaleonicamente como desejo, como produto da qualidade, embora na contra- mão continue a produzir diferenças sociais, elemento negado no discurso oficial.
O contexto nos revela a profunda necessidade de mudanças, mas o que temos são medidas graduais de mudanças aparentes, um estado reformista que não dá conta de produzir o novo de verdade, por isso apenas adapta pequenas e específicas formas de mediação que escamoteiam a real necessidade de mudanças profundas e estruturais (MÉNZÀROS, 2008).
Diferente do que se difunde ideologicamente na sociedade do capital a crise é uma manifestação particular “[…] que agora fulmina o coração do sistema
mundial produtor de mercadoria [A …] crise global do capital, que se iniciou pelo Terceiro Mundo, atingiu de maneira arrasadora o Leste europeu e agora penetra no
centro do modo de produção […]” (CUNHA, 2007, p. 107).
A afirmativa de Cunha nos leva a perceber que a crise é global, logo não se dá de forma isolada em um ou outro país, mas nas múltiplas relações de produção de mercadoria geradora de processos econômicos estabelecidos na manutenção da ordem vigente.
Compreender o funcionamento das relações sócio-políticas que regulam o mercado e o poder das nações no controle deste constitui-se em fator determinante na leitura de realidade que acerca a crise no mundo. Logo enfrentar a crise de verdade não se traduziria em medidas paliativas e superficiais, quer dizer, não se faz com programas sintéticos e pontuais como os já apresentados neste capítulo (PLANFOR, PNQ ou Pronatec), salvo se o compromisso governamental estivesse cunhado na lógica neoliberal, daí cada um desses programas traduzirem-se em propostas adaptativas e aparentemente pertinentes ao enfrentamento da crise.
No caso específico do Pronatec, mesmo agregando vários programas e/ou ações do governo (Bolsa Formação Estudante, E-TEC Brasil, Acordo de Gratuidade Sistema S, a Rede Federal de EPCT e Brasil Profissionalizado) não foi possível dar à política de educação profissional a essência de integração anteriormente anunciada pelo governo Lula, muito pelo contrário representou uma cisão com as prerrogativas do decreto 5154/2004 e significou uma reaproximação, ou mesmo uma retrocesso ao projeto neoliberal já anunciado e vivido com o PLANFOR.
[…] É imprescindível articular estas ações mais imediatas com um projeto global e alternativo de organização societária, fundamentado numa lógica onde a produção de valores de troca não encontre nenhuma possibilidade de se constituir no elemento estruturante (CUNHA, 2007, p. 89 – grifo do autor).
Cunha chama a atenção para que as medidas de enfrentamento à crise não se restrinjam à ações pontuais nem das lutas dos trabalhadores e/ou tampouco do Estado, ou mesmo do Mercado. Neste sentido, as ações necessária a uma alternativa social concreta.
Significa dizer então que o Pronatec poderia, mas que não tem sido pela forma e conteúdo a alternativa adequada ao enfrentamento sobretudo da crise do
emprego e das contradições entre trabalho e educação alocadas nessa política de estado, haja vista que embora as metas expressem em números resultados significativos, mas em sua profundidade não converge na qualificação e/ou na integração de uma política cuja matriz produza mudanças profundas.
A título de exemplo o MEC, por meio da SETEC, ao apresentar o Pronatec tinha uma meta de 8 milhões de matrículas para qualificação profissional em quatro anos, para tanto o programa reuniria o conjunto de ações e/ou programas citados anteriormente (ver Quadros 7 e 8) para atingir tal proposição.
Quadro 7: Distribuição de Matrículas do Pronatec em Cursos Técnicos
CURSOS TÉCNICOS 2011 2012 2013 2014 Total 2011-2014
Bolsa Formação Estudante 9.415 99.149 151.313 151.313 411.190 Brasil Profissionalizado 33.295 90.563 172.321 233.781 529.960 E-TEC Brasil 74.000 150.000 200.000 250.000 674.000 Acordo de Gratuidade Sistema S 56.416 76.119 110.545 161.389 404.469 Rede Federal de EPCT 72.000 79.560 90.360 101.160 343.080
Total 245.126 495.391 724.539 897.643 2.362.699
Fonte: Pronatec – SETEC/MEC, 2013.
No quadro 7 é visível que a meta de matrícula para os cursos técnicos fica a quem da proposta efetiva do programa, uma vez que corresponde a aproximadamente 30% das metas estabelecidas. Concretamente se o governo estivesse comprometido com a integralidade na educação profissional os cursos técnicos seriam a maioria, algo que não ocorre. É só visualizar o quadro 8 e perceber que as mais de 5,5 mil matrículas nos cursos de “qualificação” representam cerca de 70%. Portanto, revela que a matriz prioritária do programa são os FIC’s.
No Pará, o SENAC deixou de ofertar, em 2012, 107 (cento e sete) vagas pactuadas para o ensino técnico, sob juistificativa do descompasso político- pedagógico, no que tange ao nivelamento curricular do SENAC/PA e a SEDUC/PA, tal como apresentado no relatório anual.
O DR-PA registrou o total de 4.280 Atendimentos pelo Pronatec, apontando um índice de aderência de 89,52%. Ressalte-se que a oferta restringiu-se a cursos de formação inicial e continuada em decorrência do regional decidir por retirar a oferta de
cursos técnicos de nível médio comprometida inicialmente em 107 vagas. A decisão em não ofertar os cursos técnicos anteriormente pactuados com o governo federal, deu-se em função de não terem sido definidas as regras que devem reger a articulação curricular em regime de concomitância entre o ensino médio e o ensino técnico pela Secretaria de Estado de Educação do Pará (SENAC/PA, 2012, p. 27 – Grifo nosso).
A opção pelas capacitações mostra o descomprometimento do governo com a qualidade da educação, em especial com a formação técnica, embora ela seja justificativa ideológica à realização do Pronatec de forma acelerada, o que nos faz perceber que há uma contradição com a concepção de educação apresentada no decreto 5154/2004, inaugurando, ou melhor retomando os rumos da sinteticidade histórica já apresentadas em programas de educação profissional.
Quadro 8: Distribuição de Matrículas do Pronatec em Cursos de Formação Inicial e Continuada 2011-2014