• Sonuç bulunamadı

É difícil datar o momento preciso em que as lutas pela democracia se ini- ciam: o relato histórico raramente con- solida as lutas dos subalternos, e tende a registrá-los apenas quando a subver- são da ordem é dramática ou quando conquistam alguma vitória importan- te, ainda que débil e frágil. A datação clássica relaciona o nascimento da de- mocracia à Atenas do século V a.C., onde se forjou o próprio termo. Essa é uma referência fundamental, pois ali se instaurou um regime social com teor radicalmente distinto dos até então conhecidos, com intensa participação popular e iniciativas igualitárias. Tal ênfase na experiência grega é todavia parcial, pois esquece as lutas anteriores de muitos outros povos – mesmo se os termos empregados fossem outros – e que, mesmo derrotadas, deixaram marcas nos seus sucessores; esquece as influências recíprocas entre os povos; e, finalmente, é uma atitude que pode confortar eurocentrismos, como se as lutas por democracia começassem na Europa, e isso garantisse uma espécie de qualidade superior e única à expe- riência europeia (Dussel, 2005). Mui- tos autores sublinham a existência de diversas influências anteriores à expe- riência ateniense – influências negras, oriundas do Egito; influências fenícias (Hornblower, 1995) –, demonstrando que o processo histórico não é linear, mas complexo e contraditório.

Assim, se as lutas sociais não se iniciam com Atenas, ou, melhor dizen- do, com a Ática – o território da ci- dade-Estado no qual se situava Atenas,

local da atual capital grega –, foi ali que a democracia encontrou não apenas a sua primeira realização mais duradoura, mas também suscitou intensa literatura. O termo democracia, em grego, embo- ra signifique governo do povo, repre- sentou bem mais do que isso, envol- vendo modificações expressivas na vida social. A construção da experiência democrática grega é muito contraditó- ria, porém riquíssima do ponto de vista da consolidação prática de uma expe- riência original e das tensões que ex- plicitou precocemente sobre a relação entre forma de governo e vida social (Mazzeo, 2009).

A cidade-Estado (pólis) de Atenas era predominantemente agrária, porém o crescimento das desigualdades e a constituição de grandes famílias levara a processos de escravização por dívi- das, opondo grandes e pequenos pro- dutores agrários. A origem ateniense da democracia remete, portanto, à luta entre pequenos camponeses e grandes proprietários de terras. A escravidão era disseminada no mundo antigo sob múltiplos formatos. Para Ellen Wood “os gregos não inventaram a escravi- dão, mas, em certo sentido, inventaram o trabalho livre” (2003, p. 157), pois a luta camponesa contra a sua escravi- zação tornaria evidente a conexão da liberdade com a igualdade. Wood en- fatiza a importância desse caráter cam- ponês da democracia ateniense: “Não seria exagero afirmar, por exemplo, que a verdadeira característica da pólis como forma de organização de Estado é exatamente essa, a união de trabalho e cidadania específica da cidadania campo-

nesa” (ibid., p. 162).

A importância dessa luta pela liber- tação camponesa não pode ser diminuí- da, mesmo se resultou numa formidá-

vel contradição: ao resistirem contra a sua própria escravidão, esses campone- ses admitiram o crescente ingresso de escravos de outras regiões, que, dora- vante, realizariam as tarefas que ante- riormente lhes incumbiam nas terras dos grandes proprietários, no traba- lho das minas e nos serviços domés- ticos. Democracia e escravidão em Atenas estiveram unidas de maneira inseparável (Wood, 2003, p. 161).

Esses embates não se limitaram, porém, à libertação dos camponeses atenienses, e desembocaram numa cres- cente participação dos homens adultos atenienses – mulheres e estrangeiros li- vres estavam excluídos – nos processos de decisão coletiva e na garantia de uma crescente igualdade entre eles. Por essa razão, é difícil afirmar – como o fazem muitos – que a experiência democrática grega se limitou ao terreno da política, embora seja considerada o momento da “invenção da política” (Finley, 1985). Vejamos algumas das inovações da de- mocracia ateniense. Lembremos que Atenas, durante o auge da experiência democrática, contava com uma popu- lação de algo mais de 200 mil pessoas, dentre as quais um máximo de 40 mil homens adultos (livres e cidadãos), e seu contingente de escravos situava-se em torno de 80 mil pessoas.

Atenas, no período democrático mais significativo, era dirigida por um conselho com quinhentos integrantes, provenientes de todas as circunscri- ções, urbanas ou rurais (os demoi), que somente poderiam ser indicados duas vezes em toda a sua vida, o que garan- tia uma participação rotativa e ampliada nas decisões da vida social. Seus inte- grantes tinham direito a uma remune- ração pública, assim como os jurados, permitindo a participação plena dos

D

camponeses pobres. Tratava-se de uma democracia direta, e não representati- va: todos os cidadãos podiam assistir à assembleia: inexistiam funcionários e burocracia. O governo era exercido de fato pelos homens atenienses adultos, que conquistaram pleno direito à fala. A assembleia decidia sobre todos os assuntos, realizando pelo menos qua- renta reuniões por ano e era composta por milhares de cidadãos de mais de 20 anos. As decisões eram tomadas por maioria simples. Grande parte dos car- gos era ocupada por sorteio. Isso favo- recia a disseminação do conhecimento prático das questões sociopolíticas e impedia a formação de um corpo de profissionais da política.

As guerras e a expansão imperial ateniense trariam ainda mais complexi- dade a esse quadro. As difíceis vitórias de Atenas contra as tentativas de in- vasão persa (as guerras médicas, entre 490 e 479 a.C.) resultaram na expansão imperial da cidade-Estado, mediante o seu predomínio na Confederação de Delos. A riqueza assegurada pelo Impé- rio permitiria a redução das tensões e lutas internas, levando um grande espe- cialista a asseverar: “de fato, o que eu sustento é que o sistema plenamente democrático da segunda metade do sé- culo V a.C. não teria sido introduzido se não houvesse o Império ateniense”1

(Finley, 1976, p. 105; nossa tradução). As profundas contradições que marca- ram a democracia ateniense seriam rea- tualizadas em muitos outros períodos históricos, razão pela qual devem evitar- se julgamentos apressados dessas ex- periências históricas, quer tornando-as “modelares”, quer desqualificando-as.

Também em Roma ocorreram formidáveis lutas, com algumas sig- nificativas conquistas, embora jamais

tenham atingido o patamar ateniense. Mencionando o período final da Re- pública Romana, Finley diz que “os oradores e os escritores desse perío- do mostram uma consciência de clas- se tão explícita que apenas um histo- riador moderno muito limitado pode silenciar sobre as divisões de classe”2

(Finley, 1985, p. 24; nossa tradução). Apesar de importantes conquistas ple- beias – como o direito aos casamentos mistos, o fim da escravidão por dívi- das, a criação de tribunos da plebe (e de suas votações, os plebiscitos) –, elas permaneceram subordinadas às câmaras integradas pelos patrícios e, em muitos casos, foram posteriormente eliminadas pela aristocracia patrícia.

Benzer Belgeler