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SONUÇ VE ÖNERİLER 139

conservador de relacionamento baseado na parceria entre Estado, sociedade civil e mercado para administrar a questão social e suas diversas expressões, incidindo diretamente no campo dos direitos sociais à medida que transfere ações estatais ao chamado “terceiro setor”, fenômeno ideológico protagonista deste processo contra-reformista. Portanto, registrar-se-á rapidamente o movimento da contra-reforma no intuito de compreender o porquê da presença do terceiro setor na política social infanto-juvenil, mais precisamente a inserção e a expansão de um segmento deste – as ONGs, para com esse percurso, perseguir o objeto de análise deste estudo: as ações das ONGs de atenção à criança e ao adolescente. Diante disso, buscar-se-á apreender alguns traços e determinações do passado e do presente que se colocam neste período de nova ofensiva burguesa, que novamente vai adaptar-se às atuais necessidades requisitadas pelo capitalismo mundial para recuperar a hegemonia abalada pelo período de redemocratização a qual passou o país (BEHRING, 2003).

3.1 REGISTROS NECESSÁRIOS QUE ANTECEDERAM A CONTRA-REFORMA DO ESTADO

No início dos anos de 1970, o modo de produção capitalista passa por uma profunda crise mundial de longo período recessivo, que ao abalar a lógica de acumulação, obriga a classe burguesa a revolucionar suas bases produtivas e formulações ideológicas no sentido de impulsionar novamente a acumulação que se encontrava em declínio para assim, manter a produção e reprodução do capital dando sustentação a hegemonia burguesa.

De acordo com Batista (1999) foi nas décadas de 70 e seguintes do século XX, que os burocratas técnicos e teóricos dos governos centrais vão determinar a necessidade de implementar o projeto neoliberal para superação dessa crise. Nesse contexto de crise da base material houve um impulso no avanço científico e tecnológico abrindo assim, condições significativas para a reestruturação produtiva, que ao inovar com novas implementações científicas e tecnológicas, com destaque para a microeletrônica, “criaram condições essenciais para que o processo de globalização, historicamente determinado, apresentasse novos desafios

para a classe que domina, aumentando, ao mesmo tempo, em grau qualitativo e quantitativo, a exclusão social” 58 (BATISTA, 1999, p. 64).

Mesmo a crise que se instalara sendo de ordem econômica mundial, pois as estatísticas apontavam que “o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), que mantinha uma média anual de 10% entre 1950 e 1970, na década de 70 reduziu-se em média para 5%, atingindo no final dos anos 90 percentuais negativos” (BATISTA, 1999, p. 64), a maioria dos governantes dos países centrais e seus teóricos conservadores vão inverter a centralidade da discussão acerca da crise, transferindo a responsabilidade desta crise para o âmbito do Estado. Diante disso, o projeto neoliberal ganhará terreno, e as reformas estatais serão o lema e o ideário dos países centrais que vão impor aos países periféricos a adoção de processos reformistas calcados nos ideais neoliberais como a única alternativa de superação da crise.

No Brasil os efeitos da política econômica mundial sempre foram percebidos historicamente, principalmente, por este sempre se encontrar em uma condição de economia dependente, mas esta crise a qual assolava o mundo no pós-1970, mesmo surtindo efeitos imediatos no país, não vingou aqui, pois a adoção de processos reformistas estatais, a princípio, não foi abraçada pela elite brasileira. Segundo Batista (1992, p. 65) por que:

[...] as resistências ao governo autocrático (1964-1984) e a constante luta para ampliar e usufruir dos direitos democráticos, resultados de conquistas políticas e sociais, impediram que o projeto neoliberal fosse implementado nas décadas de 70 e 80. Mas na passagem da década de 80 para a de 90, renderam-se aos mecanismos destruidores da possibilidade de uma construção social necessária. O projeto de dominação do capital, em específico, no Brasil, sob a direção, do Fundo Monetário Internacional – FMI – e do Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID –, instaurou- se com raízes profundas, impondo as regras do jogo, isto é, ‘a reforma do Estado tornou-se o lema dos anos 90, substituindo a divisa dos anos 80: o ajuste estrutural’. É uma construção técnica que propõe retomar as premissas centrais do Estado liberal clássico. A diferença na proposta é a particularidade histórica, temporal e especialmente determinada.

Vale ressaltar um aspecto importante que antecedeu a contra-reforma do Estado: a redefinição política para a retomada do Estado democrático de direito. Segundo Behring (2003), esse processo foi realizado por um Congresso Constituinte e não por uma Assembléia Nacional livre e soberana a qual era reivindicada pelo movimento dos trabalhadores e movimentos sociais. No entanto, este processo constituinte, perpassado por uma “arena de disputas e de esperança de mudanças para os trabalhadores brasileiros, após a seqüência de

58 Chama atenção que todo esse movimento burguês foi tratado mais detalhadamente na seção anterior, no ponto 2.1.3.

frustrações –, o Colégio Eleitoral, morte de Tancredo Neves e a falência do Cruzado” (BEHRING, 2003, p. 142) ultrapassou o controle da elite brasileira, pois a presença e ação destes, interferindo na agenda política do país nesse momento de efervescência político- social, conseguiram pautar alguns eixos na Constituinte, como mostra Behring (2003, p. 142):

[...] reafirmação das liberdades democráticas; impugnação da desigualdade descomunal e afirmação dos direitos sociais; reafirmação de uma vontade nacional e da soberania, com rejeição das ingerências do FMI; direitos trabalhistas; reforma agrária.

Desse modo, a década de 80 do século XX, foi tencionada, tanto pelos movimentos sociais e pela classe dos trabalhadores, quanto pelas classes dominantes brasileiras e seus representantes, que se embrenharam no processo constituinte em busca de mudanças em direção à agenda do projeto neoliberal. Diante disso,

[...] o texto constitucional refletiu uma disputa de hegemonia, contemplando avanços em alguns aspectos, a exemplo dos direitos sociais, humanos e políticos, pelo que mereceu a caracterização de Constituição Cidadã, de Ulisses Guimarães. Mas manteve fortes traços conservadores, como a ausência de enfrentamento da militarização do poder no Brasil (as propostas de uma construção de um Ministério da Defesa e do fim do serviço militar obrigatório foram derrotadas, dentre outras), a manutenção de prerrogativas do Executivo, como as medidas provisórias, e na ordem econômica. Os que apostaram na Constituinte como espaço de busca de soluções para problemas essenciais do Brasil depararam-se com uma espécie de híbrido entre o velho e o novo (sempre reiterado em novas paragens...): uma Constituição programática e eclética, que em muitas ocasiões foi deixada ao sabor das legislações complementares (BEHRING, 2003, p. 143).

Com a eleição de Fernando Collor de Melo para presidente em 1989, tinha-se a expectativa de renovação da esperança, por parte da classe dominada, de que seus anseios fossem atendidos, diante das promessas de Fernando Collor de trabalhar em prol dos “descamisados” e da caça aos “marajás”. Fato este que em um primeiro momento deixou a elite brasileira desconfiada. No entanto, foi neste governo que se teve o solo fértil para o projeto neoliberal, abrindo as portas do país para a mundialização financeira e a reestruturação produtiva a partir dos anos de 1990, sob o pretexto de impulsionar a modernização e o conseqüente crescimento econômico brasileiro. Portanto, com a abertura econômica e um projeto claro de defesa de reformas a favor do mercado, fica evidente que tais medidas “implicariam um forte enxugamento do Estado, como a saída para a crise econômica e social brasileira” (BEHRING, 2003, p. 148).

Tratou-se, portanto, de um cenário permeado, no entender de Behring (2003), por uma nova ofensiva burguesa, que como no período pós-1964, se adequou as requisições do capitalismo mundial, mas diferentemente do momento ditatorial, adquiriu novas características que, para a autora, ultrapassa a idéia de modernização conservadora de Fernandes, assim como do conceito gramsciano de revolução passiva, necessitando de uma nova característica para se analisar a conjuntura brasileira a partir dos anos de 1990, apesar de traços característicos de fusão entre o velho e o novo, de construção conciliadora pelo alto, da prática do transformismo, dentre outros. Nesse sentido, para a autora:

Tudo indica que se esteve, ao longo dos anos de 1990, em meio a transformações que reeditam elementos do drama crônico de Fernandes ou do mito fundador de Chauí, ou seja, características recorrentes do nosso processo de modernização conservadora ou revolução passiva, sinalizadas por todos. Porém ao lado disso, busca-se qualificar o momento presente, criar novas categorias de sínteses, como a de ajustamento passivo, ou mesmo adjetivar a modernização conservadora. Como se houvesse uma dificuldade de apanhar os elementos de continuidade e ruptura do momento presente, na sua relação com o passado e construção do futuro (BEHRING, 2003, p. 122).

O importante aqui é entender que a partir do governo de Fernando Collor se inicia a refuncionalização do Estado brasileiro para uma adaptação as novas tendências requisitadas pelo capitalismo mundial, mas incorporando traços e determinações da formação social brasileira.

3.2. A CONTRA-REFORMA DO ESTADO BRASILEIRO E O “NOVO” MODELO DE

Benzer Belgeler