Cabe ressaltar que foram consideradas relevantes as diferenças de intensidade acima de 1dB ou abaixo de -1dB (KENT & READ, 1992; RUSSO & BEHLAU, 1993). Na diferença positiva (>1dB), houve um aumento de intensidade na palavra focalizada quando comparada com a anterior, ao contrário da diferença negativa (<-1dB), em que houve uma diminuição da intensidade. Quando os valores se localizaram entre -1 e 1dB, considerou-se não haver diferença significativa de intensidade entre a palavra focalizada e a anterior. Abaixo, encontra-se a tabela que representa a porcentagem de ocorrência de cada caso.
DIFERENÇA DE INTENSIDADE ENTRE A PALAVRA FOCALIZADA E A PALAVRA ANTERIOR
Foco prosódico contrastivo (FPC)
Ocorrências Porcentagem Porcentagem válida Diferença positiva (>1dB) 472 52% 63% Diferença negativa (< -1dB) 104 11% 14% Sem diferença 173 19% 23% Não-válidos42 159 18% Total 909 100% 100%
TABELA 8: PORCENTAGEM DE OCORRÊNCIA DE DIFERENÇA DE INTENSIDADE SIGNIFICATIVA ENTRE A PALAVRA FOCALIZADA E A PALAVRA ANTERIOR – Ocorrências, porcentagem e porcentagem válida da diferença de intensidade significativa entre a
palavra focalizada e a anterior para Foco prosódico contrastivo (FPC).
A diferença positiva, ou seja, maior que 1dB, predominou nos dados (63%), como pode ser evidenciado na tabela. A diferença negativa, por sua vez, a qual indica diminuição de intensidade na palavra focalizada, foi minoritária, constituindo-se de apenas 14% dos dados. Pode-se considerar, portanto, que houve um aumento de intensidade na palavra focalizada (quando comparada com a anterior), para sinalizar o foco prosódico. Esse aumento foi de, em média, 2,5dB (desvio-padrão de 3,8).
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Consideram-se não válidos os casos em que o enunciado inicia-se com a palavra focalizada ou o grupo clítico que contém a palavra focalizada.
Apesar de diferir quanto aos procedimentos metodológicos dos outros estudos (GONÇALVES, 1997; BATISTA, 2007) realizados sobre o foco prosódico em Português Brasileiro, os resultados obtidos dialogam com os de Gonçalves (1997), que considera a intensidade um parâmetro relevante na maioria dos casos por ele pesquisados, e divergem de Batista (2007), que defende o contrário. Cabe ressaltar, porém, que o procedimento adotado nesta pesquisa permitiu verificar somente a elevação da intensidade quando comparada a palavra focalizada com a sua anterior. Não se pode defender firmemente, porém, que ela seja importante para a manifestação do foco, já que não foram obtidos valores absolutos, assim como não foi comparada a intensidade da palavra focalizada com o restante do enunciado. Devido a essas restrições metodológicas, resta concluir que há uma tendência da importância da intensidade na manifestação do foco prosódico contrastivo.
4.1.3. Frequência fundamental
Para a frequência fundamental, foram verificados os valores de: f0 máxima do enunciado; f0 mínima do enunciado; tessitura; f0 máxima da palavra focalizada; diferença entre f0 máxima do enunciado e f0 máxima da palavra focalizada; e f0 na tônica lexical da palavra focalizada e em até três pré-tônicas.
Com relação aos valores máximo e mínimo do enunciado e valor máximo de f0 da palavra focalizada, a tabela abaixo indica média e desvio padrão de cada parâmetro.
ESTATÍSTICA DESCRITIVA – FREQUÊNCIA FUNDAMENTAL Foco prosódico contrastivo (FPC)
Média (Hz) Desvio Padrão
F0 máxima do enunciado 221,9 56,8
F0 mínima do enunciado 97,6 17,2
Tessitura 124,2 57,3
F0 máxima da palavra focalizada 195,5 51,9
Diferença entre f0 máxima do enunciado e f0 máxima da palavra focalizada
28,1 42,4
TABELA 9: ESTATÍSTICA DESCRITIVA – FREQUÊNCIA FUNDAMENTAL – média e desvio padrão de f0 máxima e mínima do enunciado, tessitura, f0 máxima da palavra focalizada, diferença
entre f0 máxima do enunciado e da palavra focalizada. Amostra Foco prosódico contrastivo (FPC)
As médias da f0 máxima do enunciado e da f0 máxima da palavra focalizada são bastante próximas (221,9Hz e 195,5Hz, respectivamente), o que se reflete em uma diferença média pequena entre seus valores (28,1Hz). Isso comprova que a palavra focalizada apresenta valores altos de f0. Foi aplicado, então, o teste t, com intervalo de significância de 0,05, para verificar se as médias são estatisticamente diferentes. O teste indicou que, apesar de possuírem valores próximos, as médias são estatisticamente diferentes, conforme indica a tabela a seguir.
FREQUÊNCIA FUNDAMENTAL
Foco prosódico contrastivo (FPC) Média (Hz)
p-valor (f0 máxima do enunciado X f0 máxima da palavra focalizada) f0 máxima do enunciado 221,9
-24 1,65 x 10
f0 máxima da palavra
focalizada 195,5
Tabela 10: FREQUÊNCIA FUNDAMENTAL – Teste-t (média e p-valor) aplicado para se comparar f0 máxima do enunciado com f0 máxima da palavra focalizada. Amostra Foco prosódico
contrastivo (FPC).
Como as médias referentes à f0 máxima do enunciado e à f0 máxima da palavra focalizada mostraram-se estatisticamente diferentes, passou-se a verificar a porcentagem de casos em que a diferença entre os dois valores era igual a zero, ou seja, os casos em que a f0 máxima da palavra focalizada coincide com o f0 máxima da sentença. O gráfico abaixo indica essa distribuição.
Coincidência entre f0 máxima do enunciado e f0 máxima da palav ra focalizada
352 39% 557
61%
f0 máxima do enunciado incide na palava focalizada f0 máxima do enunciado não incide na palavra focalizada
GRÁFICO 3: COINCIDÊNCIA ENTRE F0 MÁXIMA DO ENUNCIADO E F0 MÁXIMA DA PALAVRA FOCALIZADA – Ocorrências43 e porcentagem de casos em que a f0 máxima do enunciado incide e não incide na palavra focalizada, para Foco prosódico contrastivo (FPC).
Pelo gráfico, pode-se visualizar que, na maioria dos casos (61%), a f0 máxima do enunciado não coincide com a palavra focalizada. Talvez pela extensão do domínio analisado, o pico de f0 da palavra focalizada na maioria dos casos não se constituiu do ponto mais alto de f0 do enunciado. Isso indica que o foco não ocasiona a diminuição dos valores de f0 de outros acentos presentes no enunciado, assim como proposto por Xu e Xu (2005), e que os resíduos pré e pós-focais não precisam necessariamente apresentar menores valores de f0 que o foco. A diferença entre a f0 máxima do enunciado e a f0 máxima da palavra focalizada indicou, porém, que, apesar de, na maioria das vezes, a palavra focalizada não se constituir do ponto mais alto de f0 do enunciado, ela apresenta valores elevados de f0, o que confirma que a freqüência fundamental é um parâmetro importante para a manifestação do fenômeno (XU & XU, 2005; FROTA, 1994; D’IMPERIO, 2003; GRICE & SAVINO, 2003; LADD & MORTON, 1997; GONÇALVES, 1997; BATISTA, 2007).
43
A diferença dos resultados obtidos neste trabalho quanto ao pico de f0, quando comparado a outros estudos do fenômeno, pode estar justamente no domínio analisado, que nem sempre é o enunciado (como é neste estudo), bem como ao fato de as análises se constituírem, em sua maioria, de dados coletados em contexto de fala não espontânea. Neste trabalho, porém, o enunciado foi o escopo a priori do foco prosódico44, o que justifica que a análise se baseie nele.
Ainda no que se refere à frequência fundamental, passou-se a investigar se, em relação à tônica lexical da palavra focalizada, o maior valor de f0 incidiu na tônica ou nas pré- tônicas. A tabela abaixo indica as médias obtidas para cada um dos parâmetros.
ESTATÍSTICA DESCRITIVA – FREQUÊNCIA FUNDAMENTAL Foco prosódico contrastivo (FPC)
Média (Hz) Desvio Padrão
F0 da terceira pré-tônica 143,5 35,9
F0 da segunda pré-tônica 147,5 59,3
F0 da primeira pré-tônica 147,4 41,3
F0 da tônica lexical da palavra focalizada 173,9 45
TABELA 11: ESTATÍSTICA DESCRITIVA – FREQUÊNCIA FUNDAMENTAL – Média e desvio padrão para f0 da tônica lexical da palavra focalizada e das três pré-tônicas para Foco prosódico
contrastivo (FPC)
Quando comparados os valores de f0 para a tônica lexical da palavra focalizada com os valores das três pré-tônicas, nota-se que, em média, as pré-tônicas tiveram média de f0 bem próxima (143,5, 147,5 e 147,4Hz), enquanto a tônica lexical apresentou uma média mais elevada de f0 (173,9). Isso pode ser comprovado pela porcentagem de ocorrência do valor maior de f0 na tônica lexical da palavra focalizada quando comparada com as pré-tônicas, conforme indicam o gráfico e a tabela a seguir.
44
Maior valor de f0 em relação à tônica e pré-tônicas 522 62% 106 13% 107 13% 96 12% tônica primeira pré-tônica segunda pré-tônica terceira pré-tônica
POSIÇÃO DO MAIOR VALOR DE F0 EM REALAÇÃO À TÔNICA DA PALAVRA FOCALIZADA E ÀS PRÉ-TÔNICAS
Foco prosódico contrastivo (FPC)
Ocorrências Porcentagem Porcentagem válida
tônica 522 57,4% 62,8% primeira pré-tônica 106 11,7% 12,8% segunda pré-tônica 107 11,8% 12,9% terceira pré-tônica 96 10,6% 11,6% Não válidos45 78 8,6% Total 909 100,0% 100%
TABELA 12: POSIÇÃO DO MAIOR VALOR DE F0 EM RELAÇÃO À TÔNICA DA PALAVRA FOCALIZADA E PRÉ-TÔNICAS – Ocorrências, porcentagem e porcentagem válida do maior valor de f0 em relação à tônica lexical da palavra focalizada e às pré-tônicas, para Foco prosódico
contrastivo (FPC).
GRÁFICO 4: MAIOR VALOR DE F0 EM RELAÇÃO À TÔNICA E PRÉ-TÔNICAS – Ocorrências e porcentagem válida do maior valor de f0 em relação à tônica e às pré-tônicas da
palavra focalizada, para Foco prosódico contrastivo (FPC).
Este trabalho, portanto, divergiu dos achados de Makino e Medeiros (2001) e Gonçalves (1997), para os quais há uma tendência de aumento de f0 nas pré-tônicas devido ao foco prosódico. Isso porque, em 62% dos casos válidos, o maior valor de f0 recaiu na tônica, e não nas pré-tônicas. Makino e Medeiros (2001) utilizaram dados de fala controlada, o que pode ter ocasionado a divergência quanto aos resultados. Além disso, os autores destacam que o número de sílabas da palavra focalizada influencia nessa tendência, o
que não foi investigado neste trabalho. Gonçalves (1998), por sua vez, utilizou dados de fala semi-espontânea e espontânea, e, dessa forma, não há uma explicação quanto a isso para as divergências nos resultados obtidos. O autor, porém, analisa os dados subdividindo-os. Assim, apesar de a maioria das subdivisões indicar uma tendência de a f0 maior se posicionar em pré-tônicas, não se sabe se o maior número de dados dessa forma se mostrou.
Além disso, neste trabalho, quando o valor maior de f0 recaiu em pré-tônicas, em apenas 36,7% dos casos a pré-tônica fazia parte da palavra focalizada, conforme indica a tabela abaixo46.
VALOR MAIOR DE F0 INCIDINDO EM PRÉ-TÔNICA DA PALAVRA FOCALIZADA OU NA PALAVRA ANTERIOR
Foco prosódico contrastivo (FPC)
Ocorrências Porcentagem Porcentagem válida
palavra focalizada 113 12,4% 36,7%
palavra anterior 195 21,5% 63,3%
Não válidos 601 66,1%
Total 909 100,0% 100%
TABELA 13: VALOR MAIOR DE F0 INCIDINDO EM PRÉ-TÔNICA DA PALAVRA FOCALIZADA OU NA PALAVRA ANTERIOR – Ocorrências, porcentagem e porcentagem
válida do maior dos casos em que o maior valor de f0 encontra-se em pré-tônicas da palavra focalizada ou na palavra anterior, para Foco prosódico contrastivo (FPC).
Quanto ao parâmetro frequência fundamental, podemos, pois, concluir que a palavra focalizada apresenta valores elevados de f0, mas não necessariamente contém nela o pico de f0 do enunciado, o que diverge da maioria dos estudos sobre o fenômeno, mas dialoga com Xu e Xu (2005). A tônica da palavra focalizada apresenta, na maioria dos dados (62% dos casos válidos), valores maiores de f0 que as pré-tônicas, o que diverge dos achados de Makino e Medeiros (2001) e Gonçalves (1997).
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Não são válidos os casos em que o maior valor de f0 incide na tônica lexical da palavra focalizada ou aqueles em que o enunciado inicia-se pela tônica lexical.