• Sonuç bulunamadı

82 5.11 B Grubuna Ait Korelasyon Değerler

7. SONUÇ ve ÖNERİLER

Para refletirmos sobre o problema da habitação no Brasil, temos que considerar que expressiva parte da política habitacional, planejada pelo Estado, ocorrera no século XX. Apesar de algumas conquistas obtidas, tais como a ampliação de infraestrutura básica, avanços na esfera legal e a participação popular nas políticas públicas urbanas e habitacionais, muitas características que marcaram a história do país continuam vigentes:

(...) o universo urbano não superou algumas características dos períodos colonial e imperial, marcados pela concentração de terra, renda e poder, pelo exercício do coronelismo ou política do favor e pela aplicação arbitrária da lei. (MARICATO, 2003, p. 1).

Diante desse contexto, o aumento do número de favelas, a periferização das cidades, entre outras formas de precarização habitacional foram frutos de um processo marcado pelas desigualdades sociais, as quais se concretizam no espaço por meio da irregularidade urbanística e fundiária e pela segregação urbana e ambiental, que são características preponderantes na problemática habitacional. Conforme diversos autores apontam (KOWARICK, 1980; MARICATO, 1997; DENALDI, 2003), é necessário que se considere, no decorrer histórico brasileiro, que a origem das disparidades da produção social da cidade está centrada na relação desigual da apropriação da riqueza gerada pelo trabalho no capitalismo, entre aqueles que detêm o meio de produção e os proletários, conforme elucida Kowarick (1980):

A periferia como fórmula de reproduzir nas cidades a força de trabalho é conseqüência direta do tipo de desenvolvimento econômico que se processou na sociedade brasileira das últimas décadas. Possibilitou, de um lado, altas taxas de exploração de trabalho e, de outro, forjou formas espoliativas que se dão ao nível da própria condição urbana. (KOWARICK, 1980, p. 41).

49

A produção habitacional é fruto de um processo de produção e comercialização complexas. Engels (1984), ao escrever sobre a situação da habitação e com o intuito de refutar as idéias proudhonianas6, analisa a especulação que ordena o espaço urbano como produto da racionalidade capitalista, assegurando que tudo se torne mercadoria. A falta de habitação também segue a lógica de maximização de lucro, fazendo, cada vez mais, com que o exército de reserva se submeta a vender sua força de trabalho numa relação desigual e precária:

Mas de onde vem a falta de habitações? Como surgiu ela? Como bom burguês, o senhor Sax não pode saber que ela é um produto necessário da forma burguesa de sociedade; que não pode existir sem falta de habitação uma sociedade em que a grande massa trabalhadora depende exclusivamente de um salário, ou seja, da soma de meios de vida necessária à sua existência e reprodução (ENGELS, 1984, p. 24).

A moradia é uma mercadoria que envolve um período prévio de imobilização de capital e a análise da disponibilidade da terra, da presença de infraestrutura e serviços no local, itens que, muitas vezes, tornam o preço do imóvel mais vultoso. Dessa forma, sua produção exige financiamento, pois raras vezes o comprador possui o montante exigido para a aquisição à vista.

Os agentes que participam dessa produção não são únicos, cada produção envolve diferentes agentes que participam do processo de forma diferenciada. Nessa dissertação seguimos a divisão em três agentes, conforme propusera Bienenstein (2001): (1) os agentes privados, que incluem os proprietários fundiários e os promotores imobiliários; (2) o Estado e (3) a população. Segundo a autora, a cada um destes agentes corresponde uma forma de moradia popular, a saber: “produção empresarial sob o regime da incorporação imobiliária, a produção estatal, direta ou indireta, e a produção popular, baseada no loteamento periférico e na autoconstrução”. (BIENENSTEIN, 2001, p.13).

O primeiro destes agentes tem sua prioridade voltada para a rentabilidade que a produção de moradia pode lhe conceder. Sendo assim, produz para as camadas que possuem

6Para Proudhon, a solução da questão habitacional estava em cada inquilino tornar-se proprietário. Engels se

opõe à essa visão, conforme explicita “Toda a concepção de que o operário deve comprar a sua habitação assenta por sua vez na reaccionária visão fundamental de Proudhon já assinalada de que as situações criadas pela grande indústria moderna são excrescências doentias e que a sociedade tem de ser levada pela força — isto é, contra a corrente que segue há cem anos — a uma situação em que o antigo e estável trabalho manual do produtor individual seja a regra, e que não é, em geral, mais do que uma reprodução idealizada da pequena empresa, já arruinada e que continua a arruinar-se” (ENGELS, 1984, p. 14).

50

renda mais alta e que podem arcar com os dispêndios referentes à habitação. Mesmo quando produzem moradia popular não alteram sua lógica – a obtenção do lucro:

A iniciativa privada produz moradia popular quando esta é, de alguma forma, rentável, como no caso de soluções com alta densidade e/ou baixa qualidade construtiva e/ou ainda, quando o Estado disponibiliza linhas de crédito formadas por capital sub-remunerado que viabilize sua produção e comercialização e ainda, garanta o ressarcimento com o lucro do capital investido. (BIENENSTEIN, 2001. p.14).

O Estado atua na estruturação do mercado imobiliário privado. Age na esfera de produção da habitação popular de forma direta, concebendo a produção imobiliária, ou de forma indireta, concedendo financiamento aos promotores imobiliários privados. Atua, também, na implantação de infraestrutura e serviços, promovendo a valorização de determinados espaços, fazendo com que o investimento privado tenha novos loci para auferição de lucro; realiza políticas de planejamento urbano, podendo caracterizá-las como políticas que garantem acesso à cidade para toda a população ou alijando parte da população pobre de tal inserção. Quando a política se conforma seguindo este último viés, à medida que as cidades brasileiras se expandem, paulatinamente formas precárias de habitação surgem, como o meio encontrado pela população de baixa renda excluída do mercado imobiliário formal.

Os problemas vivenciados no ambiente urbano, especificamente, o déficit e a precariedade habitacional existentes estão presentes desde a colonização, a qual permitiu uma grande concentração de terra, renda e poder nas mãos de poucos proprietários, conforme salienta Maricato:

A abundância de terras desocupadas no Brasil, contudo, dispensou o rigor das regras que regulavam as concessões. O latifúndio resultante da concessão de sesmarias foi fundamental para a economia portuguesa e depois para o Império brasileiro (...) (MARICATO, 1997, p.22).

No final do século XIX, com a libertação dos escravos, o início da industrialização integrada à cultura cafeeira e a construção de infra-estrutura nos grandes cidades conduziu ao crescimento dos centros urbanos, que se tornaram pólos de comércio e serviços. O processo de urbanização brasileiro ocorreu de forma acelerada e desordenada, alterando as antigas cidades, que não comportavam as novas exigências impostas por esse novo cenário.

51

De acordo com Denaldi (2003), a “urbanização com baixos salários” aliada as características excludentes do mercado imobiliário obrigaram a população mais pobre a buscar formas de produção habitacional doméstica e a ocupação de terras. Com um salário que não possibilita prover as necessidades básicas, incluindo os gastos decorrentes da compra ou o aluguel de uma moradia, sem possuir meios para incluir-se no mercado formal de habitação e sem contar com políticas públicas adequadas aos seus casos, esta parcela da população passa a encontrar meios informais de moradia.

Maricato (1997) afirma que a Lei de Terras (lei nº 621 de 18 de setembro de 1850) diferenciou o solo público e privado, distinção esta ainda não realizada por quaisquer outras leis. Como elemento amplificador das desigualdades existentes, a referida lei em seu primeiro artigo define que “ficam prohibidas as acquisições de terras devolutas por outro titulo que não seja o de compra” (BRASIL, 1850, p.01). A terra passa a ser, então, uma “mercadoria”, já que a lei estabelecera que estava proibido ter posse da terra através de ocupações ou concessões públicas.

Para Maricato (1996), não foi por coincidência que tanto a Lei Eusébio de Queirós7 quanto a Lei de Terras foram sancionadas em curto espaço de tempo entre elas. A Lei de Terras determinava que as terras devolutas só poderiam ser adquiridas através da compra e venda, excluindo aqueles que não possuíam recursos de tornarem-se proprietários. Aos trabalhadores livres coube, então, ocupar os postos de trabalho, outrora pertencentes aos escravos, não raro, em condições de trabalho semelhantes.

Para Villaça (1986), o assalariamento do trabalhador, o contexto em que se inseria a mercantilização das terras configurava-se como um dos elementos marcantes do capitalismo, aquele que separa o meio de produção do trabalhador. Os meios de produção passam a ter “donos” e o único meio de sobrevivência para diversos indivíduos tornou-se vender sua força de trabalho. Com a emergência do trabalho livre, o patrão, que outrora se “preocupava” com a moradia de seu escravo, desobrigou-se de tal incumbência.

Conforme Maricato (1995) esclarece o processo excludente de urbanização somado aos baixos salários ofertados pelas indústrias não possibilitaram que o gasto com a moradia do trabalhador fosse incorporado aos salários pagos e nem tampouco a quaisquer iniciativas estatais que assumissem esse passivo.

52

Nesse processo complexo que alia a restrição da ocupação das terras, a abolição da escravatura sem assegurar condições aos alforriados, a crise da cultura cafeeira e o surgimento da industrialização (o qual, muitas vezes, pagava aos seus funcionários salários que mal supriam sua subsistência) observou-se a expansão irregular do solo urbano e o crescimento do número de cortiços, favelas e das áreas periféricas. A informalidade transformou-se em regra. No decorrer histórico, o que antes era concebido como exceção tornou-se corrente, diversos territórios são caracterizados pela exclusão social e ambiental, que se expressam nas condições habitacionais de muitos brasileiros, que não possuem condições financeiras de inserirem-se no mercado formal imobiliário. A partir deste quadro, muitas ocupações de áreas públicas e privadas ocorreram/ocorrem, produzindo processos informais de desenvolvimento urbano.

A paulatina valorização dos terrenos residenciais8 e industriais e a acumulação de mais-valia produzida pelo capitalismo, transferindo ao trabalhador, que recebe um salário baixo, o custo com habitação, transporte e quaisquer outros serviços, ditam o local de moradia daqueles que não conseguem arcar com tais despesas (KOWARICK, 1980).

Kowarick (1980) apresenta dois processos conjuntos que conformam o problema habitacional. O primeiro está na exploração da força de trabalho, onde impera baixos salários, horas estendidas de jornada de trabalho, ou seja, a precarização do trabalho9 em seus mais diversos âmbitos em virtude da busca de acumulação de capital, fazendo com que a pauperização de parte expressiva dos trabalhadores seja o resultado. O outro processo correlacionado ao primeiro é denominado por espoliação urbana – integração das condições de exploração de trabalho à precariedade/ausência de serviços públicos básicos necessários à reprodução da força de trabalho, corroborando na deterioração das condições de vida dos trabalhadores.

O autor salienta que o papel do Estado na estruturação dos processos acima é fundamental, por estabelecer as estruturas necessárias para que as empresas continuem se expandindo através de financiamentos e por “manter a ‘ordem social’ necessária à realização de um ‘modelo’ de acumulação” (KOWARICK, 1980, p. 59).

8 Conforme explica Villaça o setor imobiliário expandira suas aquisições de espaço, guardando áreas mais

próximas aos núcleos centrais á espera de valorização, e as áreas mais distantes foram destinadas aos mais pobres

9 Para maiores esclarecimentos acerca da precarização do trabalho, ler ANTUNES, Ricardo. Trabalho e

precarização numa ordem neoliberal. In: GENTILI, P.; FRIGOTTO, G. (Orgs). A cidadania negada: Políticas de exclusão na educação e no trabalho. São Paulo: Cortez, 2001, p. 35-48.

53

É dessa forma que, paulatinamente, vai surgindo a dicotomização entre a cidade formal e a informal. Os trabalhadores alijados do mercado habitacional vão encontrando soluções para o problema da moradia, a técnica da autoconstrução é uma dessas formas. Trabalhando aos finais de semana com ajuda de parentes, amigos ou, apenas, contando consigo mesmo, uma parte expressiva das residências das classes trabalhadoras foi construída. A autoconstrução é também uma forma de sobretrabalho, uma vez que o salário não é regulado pelo preço da moradia (MARICATO, 1982). Conforme Kowarick (1980) analisa, a autoconstrução é uma técnica que se alia ao processo de acumulação capitalista:

(...) o seu resultado – a casa – reflete-se numa baixa aparente do custo de reprodução da força de trabalho – de que os gastos com habitação são um componente importante – e para deprimir os salários reais pagos pelas empresas. Assim, uma operação que é, na aparência, uma sobrevivência de práticas de ‘economia natural’ dentro das cidades, casa-se admiravelmente bem com um processo de expansão capitalista, que tem uma de suas bases e seu dinamismo na intensa exploração da força de trabalho. (KOWARICK, 1980, p. 61).

As formas de apropriação do espaço e a sua utilização sejam elas proibidas ou permitidas são marcadas profundamente pela desigualdade de renda, conforme analisa Rolnik (1997) a legislação urbana sobre o uso e ocupação do solo foi realizada, em geral, para atender aos interesses do mercado imobiliário, que “acaba por definir territórios dentro e fora da lei, ou seja, configura regiões de plena cidadania e regiões de cidadania limitada” (ROLNIK, 1997, p. 13).

Para compreendermos como se construíram as políticas voltadas às favelas e aos loteamentos clandestinos, tipos de assentamentos precários, faremos uma análise histórica da política habitacional e urbana. Com isto, buscamos apreender quais os sentidos dados às favelas/periferias e como foi realizada a participação da população. Utilizamos a tipologia realizada por Bueno (2000) para o município de São Paulo e encontramos similaridades na trajetória das políticas urbanas propostas pelo governo federal. A autora indica que houve, predominantemente, três tipos de intervenções estatais, a saber: o desfavelamento, que consiste na remoção ou erradicação das favelas; a reurbanização, caracterizada pela aceitação da favela, sua existência enquanto um produto urbano é assentida, porém seu padrão construtivo, não; e a urbanização, onde mantém-se as características dos lotes e das moradias e dota-se a área de infraestrutura.

54

Essa periodização não é estanque, muitas vezes estão presentes simultaneamente no mesmo período. Um exemplo notório são as remoções forçadas, ação prioritária das políticas executadas no início do século XX, e agora retomada devido às obras para a Copa do Mundo e Olimpíadas (ROLNIK, 2012).

Benzer Belgeler