• Sonuç bulunamadı

A cidadania, alçada, desde o inciso II do artigo 1º da “Constituição Cidadã”, como fundamento do Estado Democrático de Direito da República Federativa do Brasil, possui posição destacada no ordenamento pátrio. Com efeito, o artigo 205 da CF/88 também reforça que um dos fins a que se presta a educação é propiciar o desenvolvimento pleno do exercício da cidadania.

A cidadania, em linhas gerais, pode ser compreendida, segundo a lição de Marshall, enquanto “[…] um status concedido àqueles que são membros integrais de uma comunidade. Todos aqueles que possuem o status são iguais com respeito aos direitos e obrigações pertinentes ao status”.331

A ideia de compreender o cidadão como membro integral de uma comunidade, conforme apresentada por Marshall, parece servir bem à compreensão de sua pertinência dentro do ordenamento jurídico que está fundamentado na Constituição de 1988. Aprofundando-se sobre tal conceituação, o mesmo Marshall leciona que332

331 MARSHALL, Thomas H. Cidadania, classe social e status. Rio de Janeiro: Zahar, 1976, p. 76. 332 Ibid., p. 84.

A cidadania exige um elo de natureza diferente, um sentimento direto de participação numa comunidade, baseado numa lealdade de homens livres, imbuídos de direitos e protegidos por uma lei comum. Seu desenvolvimento é estimulado tanto pela luta para adquirir tais direitos quanto pelo gozo dos mesmos, uma vez adquiridos.

Refletindo sobre o alcance que o conceito de cidadania possui mais recentemente, aduz Belarmino, de forma pertinente, ao considerar que333

A cidadania tem surgido com muita evidência na atualidade, não somente como uma categoria de análise nos trabalhos acadêmicos e científicos, mas, também nos discursos religiosos, políticos e econômicos. Com ampla disseminação nos meios de comunicação de massa tem servido como estratégia mobilizadora das ações dos movimentos sociais organizados, nas suas lutas quotidianas. A cidadania, enquanto ideia, repousa no princípio da igualdade universal conferida a todos os indivíduos, independentemente de raça, credo religioso, condições sócio-econômicas, etc. Este princípio acha-se estabelecido na Organização das Nações Unidas (ONU) que sofre influência marcante das cartas de direitos dos Estados Unidos (1776) e da Revolução Francesa (1789). A cidadania envolve, pois, os direitos dos indivíduos e o seu usufruto inclui também, obrigações por parte dos cidadãos.

Urge mencionar que a cidadania, quando do estudo do seu desenvolvimento ao fim do século XIX, é apresentada por Marshall como sendo composta por três elementos básicos componentes dos direitos individuais, conforme Belarmino leciona: o elemento civil, o político e o social.334 Marshall, sobre estes, explica:335

O elemento civil é composto dos direitos necessários à liberdade individual – liberdade de ir e vir, liberdade de imprensa, pensamento e fé, o direito à propriedade e de concluir contratos válidos e o direito à justiça. Por elemento político se deve entender o direito de participar no exercício do poder político, como um membro de um organismo investido da autoridade política ou como um eleitor dos membros de tal organismo. As instituições correspondentes são o parlamento e conselhos do Governo local. O elemento social se refere a tudo o que vai desde o direito a um mínimo de bem-estar econômico e segurança ao direito de participar, por completo, na herança social e levar a vida de um ser civilizado, de acordo com os padrões que prevalecem na sociedade. As instituições mais intimamente ligadas com ele são o sistema educacional e os serviços sociais.

E, adiante, Belarmino, ainda tratando de Marshall, leciona que,336

Nas sociedades antigas, estes três elementos da cidadania achavam-se fundidos num só. Isso porque nessas sociedades, as instituições estavam como que amalgamadas. As origens da cidadania remontam, na civilização ocidental, ao surgimento das primeiras cidades gregas, quando instituem-se as esferas do particular e do público e onde impera a idéia do homem livre, com direitos e

333 BELARMINO, Joana. Associativismo e Política: a Luta dos Grupos Estigmatizados pela Cidadania Plena. 1997. Dissertação (Mestrado) – UFPB/CCHLA. João Pessoa: Idéia, 1997.

334 Ibid., p. 76-77.

335 MARSHALL, Thomas H. op. cit., 1976, p. 63-64. 336 BELARMINO, Joana. op. cit., 1997, p. 77-78.

obrigações. No período feudal, caracterizado pelo status de nascimento como marca distintiva de classe e medida da desigualdade social, inexistia, segundo Marshall, um código uniforme de direitos e deveres “com os quais todos os

homens, nobres e plebeus, livres e servos, eram investidos em virtude de sua participação na sociedade (MARSHALL, 1967: 64).” Assim, se no período feudal

a cidadania assenta-se no status de nascimento, a história do seu desenvolvimento mostra como, pouco a pouco, esse princípio passa a vincular-se à idéia de propriedade. Os estudiosos dessa temática vinculam o desenvolvimento da cidadania ao próprio desenvolvimento do capitalismo. Marshall mostra, entretanto, que o desenvolvimento de uma cidadania nacional teve como um primeiro marco importante o estabelecimento da Justiça Real Inglesa para definir e defender os direitos civis do indivíduo com base no direito consuetudinário do país, fato este datado do século XII. Para residir também aí, a gênese do processo de separação dos elementos civis, políticos e sociais da cidadania, na medida em que os poderes do Parlamento passaram a estar concentrados no Governo Nacional descartando- se, pouco a pouco, as funções judiciais que, até então, pertenciam à Cúria Régia. Os direitos sociais que à época concentravam-se na participação da comunidade, dissolvidos pela mudança econômica até que nada restou, senão, a „Poor Law‟ (Lei dos Pobres) já à época da Revolução Industrial. A racionalização gradativa por parte do Estado, dos direitos de cidadania provocou de fato um divórcio tão nítido entre esses três elementos, ao ponto de Marshall atribuir o período de formação e vida de cada um deles a um século diferente, ou seja, os direitos civis como desenvolvendo-se no século XVIII, os direitos políticos no século XIX e os direitos sociais no século XX. (Grifo do autor).

Na visão de Marshall, pois, o direito à educação, incluso entre os direitos sociais, estaria entre um dos elementos da cidadania que teria se desenvolvido ao logo do século XX, na Inglaterra, com a história da educação, contudo, se desenvolvendo ao longo do século XIX a partir das fundações dos direitos sociais, com alguns de seus princípios enquanto parte integrante do “status” de cidadania sendo, neste momento, expressamente negado ou não admitido de forma definitiva. Adiante, fazendo referência ao sociólogo Alfred Marshall, mais especificamente quanto ao direito à educação de pessoas em desenvolvimento, como é o caso das crianças, apresenta que337

A educação, como [Alfred] Marshall reconheceu quando a apontou como um objeto apropriado de ação por parte do Estado, é um serviço de um tipo único. É fácil afirmar-se que o reconhecimento do direito das crianças à educação não afeta o status da cidadania mais do que o reconhecimento do direito das crianças à proteção contra o excesso de trabalho e maquinaria perigosa, simplesmente porque as crianças, por definição, não podem ser cidadãos. Mas tal afirmativa é enganosa. A educação das crianças está diretamente relacionada com a cidadania, e, quando o Estado garante que todas as crianças serão educadas, este tem em mente, sem sombra de dúvida, as exigências e a natureza da cidadania. Está tentando estimular o desenvolvimento de cidadãos em formação. O direito à educação é um direito social de cidadania genuíno porque o objetivo da educação durante a infância é moldar o adulto em perspectiva. Basicamente deveria ser considerado não como o direito do cidadão adulto ter sido educado. E, nesse ponto, não há nenhum conflito com os direitos civis do modo pelo qual são interpretados numa época de individualismos. Pois os direitos civis se destinam a ser utilizados por pessoas inteligentes e de bom senso que aprenderam a ler e escrever. A educação é um pré-requisito necessário da liberdade civil. […]

Depreende-se disto que o desenvolvimento da educação primária pública durante o século XIX constituiu o primeiro passo decisivo em prol do restabelecimento dos direitos sociais da cidadania no século XX. (Grifos nossos).

Com efeito, adota-se ideia bem mais abrangente de cidadania, implicando, na lição de Manzini-Covre, que338

Só existe cidadania se houver prática de reivindicação, da apropriação de espaços, da pugna para fazer valer os direitos do cidadão. Nesse sentido, a prática da cidadania pode ser a estratégia por excelência para a construção de uma sociedade melhor. […] Desse modo, penso que a cidadania é o próprio direito à vida, no sentido pleno. Trata-se de um direito que precisa ser construído coletivamente, não só em termos do atendimento às necessidades básicas, mas de acesso a todos os níveis de existência, incluindo o mais abrangente, o papel dos homens no universo.

Também Marshall, ao tratar do direito à educação, o traz numa perspectiva mais abarcante,339 dando menor ênfase a elemento meramente quantitativo quanto à educação primária e enfatizando a insuficiência da legislação neste ínterim, ao considerar que

Um mínimo de direitos legalmente reconhecidos pode ser concedido, mas o que interessa ao cidadão é a superestrutura das expectativas legítimas. Pode ser razoavelmente fácil fazer com que toda criança, até certa idade, passe um certo número de horas na escola. E muito mais difícil satisfazer as expectativas de que a educação deveria estar a cargo de professores treinados e ser dada em classes de tamanho moderado. […] E, assim, verificamos que a legislação, ao invés de ser o fator decisivo que faça com que a política entre em efeito imediato, adquire, cada vez mais, o caráter de uma declaração de política que, segundo se espera, entrará em vigor algum dia.

Apresentando, outrossim, as diferenças entre as categorias de status e classe social, Marshall, ao tratar dos desafios pelos quais passava a cidadania diante da insuficiência legal e dos preconceitos de classe, em seu desenvolvimento na Inglaterra do século XVIII, aduz que340

Os preconceitos de classe […] não podem ser abolidos por leis, mas somente pela educação social e a edificação de uma tradição de imparcialidade. Este é um processo difícil e moroso que pressupõe uma mudança no modo de pensar nos escalões superiores da sociedade. […] O declínio do preconceito de classe como uma barreira ao gozo efetivo dos direitos é, portanto, devido menos à diluição do monopólio de classe na carreira jurídica do que à difusão, em todas as classes, de um sentido mais humano e realista de igualdade social.

O exercício do poder político seria o que, segundo Marshall, serviria como fator assegurador aos direitos sociais, que pressuporiam direito absoluto a padrão de civilização o qual “[…] depende apenas do cumprimento das obrigações gerais da cidadania. O conteúdo

338 MANZINI-COVRE, Maria de Lourdes. O que é cidadania. São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 10-11. 339 MARSHALL, Thomas H. op. cit., 1976, p. 96.

dos mesmos não depende do valor econômico da reivindicação individual”,341 seria objetivo

dos direitos sociais a redução das diferenças de classe, mas não apenas isso; teria adquirido sentido novo, assumindo aspecto ativo na busca pela modificação do padrão total da desigualdade social342.

Daí o fato de Demo compreender a cidadania enquantoprocesso histórico no qual a conquista popular daria tônica, processo este “[…] através do qual a sociedade adquire progressivamente condições de tornar-se sujeito histórico consciente e organizado, com capacidade de conceber e organizar projeto próprio”.343

E, adiante, leciona que a cidadania representaria344

[…] o processo pelo qual as pessoas descobrem e efetivam as condições básicas para um projeto próprio de desenvolvimento. Significa também o reconhecimento de que cidadania individual tem seu lugar, mas a competente é organizada coletivamente. No fundo, é impraticável a emancipação isolada, não só porque seria prepotência ou ingenuidade, mas sobretudo, porque faz parte da noção do social.

Voltando-se Marshall ao sistema educacional quanto ao seu papel na formação do cidadão, considera desafiador se desvencilhar a função que a educação desempenha do que a ocupação com qualificação exige345:

Se fosse possível para o sistema educacional tratar o estudante inteiramente como um fim em si mesmo e encarar a educação como um meio de lhe dar algo cujo valor poderia aproveitar ao máximo, qualquer que fosse sua posição na vida profissional, então talvez fosse possível moldar o plano educacional numa forma determinada pelas necessidades individuais, a despeito de quaisquer outras considerações.

Em sua linha de raciocínio, Marshall, inclusive, compreenderia que a educação, enquanto instrumento neste processo e nas suas relações com a estrutura ocupacional, poderia contribuir para a estratificação social.346

Esse problema, inclusive ao contexto educacional brasileiro de forma geral, serve a uma análise crítica da educação havida. Não são simplesmente melhorias estruturais, portanto, como a construção e como a reestruturação de espaços educacionais em centros socioeducativos, no caso da presente investigação, que possibilitarão o alcance de uma educação para fortalecimento da cidadania e para o questionamento à estratificação social e

341 Ibid., p. 86. 342 Ibid., p. 88.

343 DEMO, Pedro. Cidadania menor. São Paulo: Vozes, 1992, p. 17. 344 Ibid., p. 73.

345 MARSHALL, Thomas H. op. cit., 1976, p. 100. 346 Ibid., p. 102.

à ordem posta. Reformas educacionais quanto ao conteúdo do que é ensinado no Brasil são também bastante necessárias.

Ainda no tocante à ideia de cidadania, o conceito de “cidadania inclusiva” trazido por Robert Dahl, merece destaque.347 Por ele, compreende que a cidadania deve incluir os sujeitos de forma que os grupamentos sociais e indivíduos não acabem se equivocando em seu próprio favor e gerando exclusões de direitos e o faz considerando que “o corpo de cidadãos num estado democraticamente governado deve incluir todas as pessoas sujeitas às leis desse estado, com exceção das que estão de passagem e das incapazes e cuidar de si mesmas.”.348

Como o entendimento atual, expresso no artigo 3º no inciso I do artigo 4º da Lei Federal nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002, que instituiu o Código Civil de 2002,349 é apenas na perspectiva de que os adolescentes menores de dezesseis anos são absolutamente incapazes e que os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos são relativamente incapazes,350 o que Dahl considerou poderá incluir a faixa etária dos relativamente incapazes a certos atos ou à maneira de os exercer que inclui os adolescentes os jovens em conflito com a lei entre dezesseis e dezoito anos de idade.

No Brasil, após a vivência de mais de duas décadas de Regime Militar (1964- 1985), tornar-se-ia premente a necessidade de uma nova Constituição. As contradições do regime ditatorial não mais se compraziam com a realidade e as pressões populares se intensificaram para uma nova redemocratização.

Os anseios populares contaram com considerável convergência durante as “Diretas-Já”. Contudo, a Assembleia Constituinte, nos moldes desejados pelo povo, não foi possível. Na verdade, o que ocorreria, a partir de 1987, seria formalmente uma Assembleia Nacional Constituinte, mas, materialmente, um Congresso Constituinte, no interior do qual se negociou uma transição lenta e gradual da Ditadura para a Democracia, buscando conciliar interesses de forças progressistas e conservadoras.

O alvorecer do que seria a “Constituição Cidadã” de 1988 foi marcado, portanto, por um dialogismo desafiador, na qual diferentes setores e ideologias tiveram sua oitiva para

347 DAHL, Robert A. Sobre a Democracia. Tradução de Beatriz Sidou. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001. 230 p.

348 DAHL, Robert A., op. cit., p. 92.

349 BRASIL. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002: Institui o Código Civil. Brasília, DF, 2002. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/CCivil_03/leis/2002/L10406.htm>. Acesso em: 03 fev. 2018.

350 Art. 3o São absolutamente incapazes de exercer pessoalmente os atos da vida civil os menores de 16

(dezesseis) anos.

Art. 4o São incapazes, relativamente a certos atos ou à maneira de os exercer: I - os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos;

propiciar a conformação final no novel texto constitucional pátrio. A morte de Tancredo Neves fora sentida e lamentada, consubstanciando mais um duro golpe sobre as esperanças populares de que transformações sociais mais efetivas fossem propiciadas.

Ainda assim, são consideráveis as vozes na doutrina que exaltam o texto da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 no seu aspecto de fortalecimento da cidadania. Entre essas vozes, a do professor Paulo Bonavides, quando considera que351

A Constituição de 1988, ao revés do que dizem os seus inimigos, foi a melhor das Constituições brasileiras de todas as nossas épocas constitucionais. Fez, por exemplo, do Supremo Tribunal Federal taxativamente um tribunal de guarda da Constituição. [...] Com referência a outro ramo de sustentação da ordem republicana e democrática, a mesma Corte fez vista grossa ao poder que mais pode e que em verdade é o motor constitucional dos demais Poderes, atrelando-os às suas irresponsabilidades legislativas e aos seus atentados e desrespeitos e desmoralização de decisões judiciais, ostensivamente descumpridas. Aniquilam-se assim, por obra do Executivo, as bases éticas e jurídicas do sistema. E onde tal acontece, há ditadura, e não governo. Há despotismo, e não há Constituição. Há obediência, e não há consenso. Há legalidade, e não há legitimidade. E a legalidade que há é todavia a força, que enfraquece a dignidade da pessoa humana, a justiça dos direitos sociais, a sobrevivência da democracia, a defesa e proteção do Estado soberano.

Traçado esse breve panorama histórico precedente à promulgação da Constituição Federal de 1988, é salutar que percebamos que a hoje vigente Nova República, com suas qualidades e senões, é produto de toda a evolução por qual passou o Brasil ao longo de sua trajetória constitucional.

Ulysses Guimarães, Presidente da Assembleia Nacional Constituinte responsável pela elaboração da Constituição atual, referiu-se a ela enquanto “Constituição Cidadã”, expressão que se deve ao fato de que, segundo ele, a CF/1988 “[...] teve ampla participação popular em sua elaboração e especialmente porque se volta decididamente para a plena realização da cidadania”.352

Contudo, é sabido que, mesmo que tenha contado com uma adesão popular sem precedentes na história do Brasil, adotando, como procedimentos importantes, a participação popular e as audiências públicas no processo de elaboração constitucional, sendo apresentadas 122 (cento e vinte e duas) emendas populares e sendo apoiadas várias propostas que deram conteúdo social à democracia que estava sendo forjada353, a CF/1988, contaminada em parte com o “lobby” político e com o poder corporativo, foi tímida quanto a

351 BONAVIDES, Paulo. Teoria Constitucional da Democracia Participativa: por um Direito Constitucional de luta e resistência, por uma Nova Hermenêutica, por uma repolitização da legitimidade. (1ª ed.). São Paulo: Malheiros, 2001, p. 204.

352 SILVA, José Afonso da., op. cit., 2006, p. 90.

353 SILVA, José Afonso da. O Constitucionalismo Brasileiro: evolução institucional. São Paulo: Malheiros Ed., 2011, p. 87.

reformas políticas e na estrutura de poder mais efetivas, que engendram verdadeira crise de efetividade de diversos direitos previstos no texto constitucional.

Como apontado anteriormente, a CF/1988 traria para o ordenamento brasileiro as bases da Doutrina da Proteção Integral, já consagrada internacionalmente. E, no campo dos direitos da criança e do adolescente, a adoção desta doutrina seria basilar a legislações protetivas deste grupo etário, como o Estatuto da Criança e do Adolescente, em 1990, em substituição à lógica menorista anterior da Doutrina da Situação Irregular.

O reconhecimento da criança e do adolescente enquanto sujeitos de direitos e pessoas em peculiar condição de desenvolvimento a quem se garante absoluta prioridade é ponto máximo e paradigmático da Doutrina da Proteção Integral.

Indo, neste contexto, além das teorias da professora Ângela Pinheiro, a qual tratou das representações sociais da infância e da juventude,354 Homero Bezerra Ribeiro consideraria haver o forjar mais atual de uma nova representação, de adolescentes inimigos do controle punitivo.355 Com efeito, considera que os adolescentes podem desafiar o controle do Estado se entenderem como excessivo.

Aproximar a aplicação ou mesmo as terminologias empregadas no contexto do sistema penal carcerário ao sistema socioeducativo, o que é corriqueiro não apenas no senso comum e nas opiniões das massas, mas de operadores e de profissionais colaboradores dos sistemas socioeducativos nos estados, por exemplo, é preocupante, nesta perspectiva, pois aponta para uma aplicação inadequada das medidas socioeducativas impostas aos socioeducandos.

E, adiante, Ribeiro disserta considerando que, mesmo como o entendimento, inclusive pela Justiça Juvenil e pela Justiça Penal Juvenil, de que a aplicação das medidas socioeducativas, conforme anteriormente apontada, deveria ter caráter pedagógico, deve se asseverar que tal discurso pode ser acrítico e entoar um senso comum que desconsidera questões como a estigmatização e a seletividade, ou seja, outras variantes que tornam a execução destas medidas uma questão mais complexa, o que, na prática, conduziria a certa fratura no sistema garantista e no direito infracional, quando não haveria diferenças entre adolescentes e adultos na aplicação de punições pelo Estado.356

354 PINHEIRO, Ângela., op. cit., 2006, passim.

355 RIBEIRO, Homero Bezerra. Os Pontos Sensíveis Presentes no Processo de Apuração do Ato Infracional e de Aplicação das Medidas Socioeducativas: Proteção ou Controle dos Adolescentes Indesejados?

Benzer Belgeler