4.5.3.1 Elementos de origem primitiva e mitológica
O afastamento () do herói se dá quando este sai para caçar. É importante notar que a caça é um dos motivos mais arcaicos presentes no conto maravilhoso, uma vez que reflete o meio de subsistência pertencente a um regime tribal anterior ao advento da produção agrícola (PROPP, 2002, p.8).
A seguir, o herói vai à cabana da velha, o que remete diretamente à cabana onde os jovens tribais eram iniciados. A velha representa o sacerdote, guardião do Reino dos Mortos da sociedade tribal, pois é ela quem possibilita ao herói encontrar o segundo doador (o velho) e o meio mágico (fada), para realizar a travessia ao Outro Mundo.
Um fator-padrão no conto maravilhoso é o fato de o herói receber alimento da velha. Isso engloba concepções religiosas mais desenvolvidas, como as do Antigo Egito, em que alimentos especiais eram oferecidos ao morto (ou a um sacerdote que representava o morto) para que ele pudesse seguir sua jornada à outra vida (Id. ibid., p.68). O fato de o herói aceitar o alimento oferecido, sem temê-lo, significa que ele sabe que tem direito a esse alimento, que é o que vai integrá-lo ao Outro Mundo e dar-lhe forças para enfrentar os obstáculos lá encontrados. A ação de ele comer significa que ele é o “escolhido” para essa jornada, e que a velha deve permitir-lhe a passagem ao Outro Mundo.
Neste conto, o outro reino apresenta palácios, alimentos em abundância e objetos valiosos, e a atmosfera criada é um convite ao prazer e à languidez, nem de longe remetendo à labuta diária do mundo dos vivos. Segundo Propp (2002, p. 356), essas características são comuns à representação do Outro Mundo após o período agrícola.
O fato de o jovem ter que realizar suas tarefas (N) no Outro Mundo sozinho, após receber instruções da fada, remete a um tempo em que se acreditava que o espírito do morto transformava-se no animal totêmico para realizar seus trabalhos no Reino dos Mortos. Assim, ele não contava com o espírito auxiliar (elemento posterior), mas transformava-se no próprio espírito ancestral, com o conhecimento necessário para superar os obstáculos (PROPP, 2002, p. 242). Neste conto, parece haver a assimilação das duas situações, relativas a épocas diferentes.
Com relação aos objetos roubados por Eshyn, estes são descritos como jóias valiosas, sendo que a espada é de ouro e prata, e a pérola, que emana luz, é encontrada sobre um castiçal de ouro; quanto ao palácio, embora a matéria de que é feito não nos seja informada, é
descrito como sendo bastante reluzente. Isso nos revela uma conexão desse conto com a concepção solar originária de sociedades com concepções religiosas mais evoluídas, como a do Egito, cuja predominância da cor dourada é característica de tudo o que pertence ao mundo pós-morte (Id. ibid., p. 358-9).
Ainda com relação a tais objetos, embora possa nos parecer moralmente inadequado que Eshyn os roube, pode-se encontrar uma explicação para essa atitude ao analisar-se informações fornecidas por Propp (2002, p.135) sobre os costumes relativos aos jovens iniciados. A tais jovens, que por vezes formavam uma confraria, era permitido roubar os pertences de membros não iniciados da sociedade a que pertenciam e de outras tribos, sem qualquer punição, já que se subentendia que essa ação era um direito adquirido por esses jovens ao passarem pela iniciação. Portanto, em “Y Chadee”, o fato de a tarefa (M) imposta ao herói ser a obtenção de certos objetos que não lhe pertencem, não faz dele menos merecedor do título de herói: ao contrário, na verdade, demonstra que, por o herói representar o jovem iniciado, ele tem direito a esse tipo de roubo.
Com relação ao palácio do Outro Mundo, Propp (2002, p. 127-8; 138) o remete à casa masculina da tribo, onde os iniciados viviam por um período, em companhia das esposas temporárias. Muitos contos maravilhosos essa situação, geralmente omitindo a função sexual das moças, representando a relação entre elas e os rapazes como se fosse apenas fraternal. A personagem feminina cuidaria dos afazeres domésticos e os homens a respeitariam como se fosse uma irmã (como exemplo, podemos citar a história de “Branca de Neve e os sete anões”). Porém, em outros contos, as relações conjugais podem aparecer de formas mais explícitas, como no exemplo que nos é dado por Propp (2002, p. 140), sobre um conto mongol em que sete príncipes encontram uma jovem muito bela e lhe propõem que se torne a esposa de todos eles. A jovem aceita e passam a viver todos juntos. Considera-se, então, que os contos em que a relação entre uma jovem e vários homens é sublimada, seja uma forma mais tardia de retratar essa união, refletindo que a sociedade na qual esse elemento foi assim modificado, rechaçava a poliandria, tendo adotado outras formas de casamento (Id. ibid., p.150).
Em “Y Chadee”, Eshyn encontra o palácio pouco antes do final de sua jornada pelo Outro Mundo, e o local encontra-se habitado por mulheres que lhe oferecem frutas em abundância e sexo. Nesse conto parece existir uma inversão do que ocorria nas casas masculinas, pois Eshyn é um homem que é convidado a dividir sua atenção com várias mulheres. Porém, segundo Propp (Ibid., p. 140), fontes históricas demonstram haver existido
versões femininas mais tardias dessas casas masculinas, cujos resquícios podem estar refletidos nesse motivo do conto.
Outro fato curioso é que embora exista uma fartura de frutas de todas as espécies no palácio, o herói não as prova. Vimos anteriormente que para se incorporar ao mundo dos mortos, o morto deve comer certos alimentos especiais antes de sua jornada. Mas existia, também, a crença de que uma vez no reino dos mortos, o visitante não deveria consumir nenhum alimento ali, sob pena de não poder mais voltar para casa, integrando-se definitivamente à morada dos mortos. Quanto a isso, Propp (Ibid., p. 70) cita o exemplo de Perséfone, que por ter comido uma romã, passou a pertencer ao Hades, e de Ulisses, que é tentado por Calipso com néctar e ambrosia, para que permanecesse em seu poder.
Em “Y Chadee”, o herói retorna () ao reino do pai, ali permanecendo. Segundo Propp (Ibid., p. 410-13), isso ocorre em contos que refletem formas mais tardias de sucessão ao trono. O fato de no final o jovem jogar os objetos do Outro Mundo ao mar, remete à crença formada após a evolução agrícola, quando passou a se considerar que tais objetos trariam desgraças ao seu possuidor (Id. ibid., p. 358).
4.5.3.2 Elementos de origem celta: sociedade e mitologia
Já no início do conto, o reino é localizado em Ellan Vannin, nome celta da Ilha de Man, segundo Radcliffe (1895)12. O próprio nome do conto, “Y Chadee”, indica o nome manquês de uma planta comum na ilha, o qual significa “pérola eterna” (ELLIS, 1999, p. 128).
No decorrer do enredo, são mencionadas regiões da ilha, como South Barrule (onde Ny-Eshyn encontra o velho), Slieau Meahyll (onde Eshyn vai caçar veados) e Slieau Dhoo (onde fica a cabana da velha). Os locais apontados chamam a atenção para a topografia da ilha, que é repleta de elevações.
A cabana da velha encontra-se no alto da Montanha Negra, um local escuro, sombrio e afastado. Na maioria dos contos maravilhosos, a floresta possui essa mesma atmosfera obscura e misteriosa, mas aqui há influências regionais.
Verificamos também, por todo o conto, formas de cumprimentos e expressões na língua manquesa, que são traduzidos logo em seguida pelo narrador. São citados também alguns ditados tradicionais, entre eles: “Cha nee eshyn ta red beg echey ta boght agh eshyn
12
Disponível em: <http://www.isle-of-man.com/manxnotebook/fulltext/ev/folklore/index.htm>. Acesso em 22/11/07.
ta geearree ny smoo” (ELLIS, 1999, p. 139), sendo traduzido, aproximadamente como: “Pobre não é quem tem pouco, mas aquele que deseja mais”.13
Alguns nomes de deuses celtas estão presentes, como o deus Orion, e Mannan Mac Lir, , sendo o primeiro identificado como o ancestral da princesa Y Chadee e o último, como o ancestral do herói. Orion é identificado na mitologia celta com o herói Cuchulainn (CONWAY, 2000, p. 192) – um dos personagens míticos, entre deuses e heróis, que tinham em seu poder a Espada de Luz, e também com o deus Cernunnos, o grande caçador, Entretanto, neste conto, seu nome permanece como conhecido na mitologia grega. Já Manannan Mac Lir, é o deus do oceano na mitologia celta, e considerado o fundador mítico da Ilha de Man. Dessa forma, o conto remete o herói e à princesa a mais nobre descendência celta.
Em “Y Chadee” observamos a figura da fada no papel de auxiliar mágico, que é uma criatura inerente ao folclore celta, que, assim como os anjos, possui a leveza característica dos seres alados, além de servir como intermediária entre os mundos terreno e espiritual – estando, portanto, apta a conduzir o herói Eshyn em sua travessia entre os dois mundos. O Outro Mundo localiza-se no além mar; sendo que nele o herói deve passar por cavernas e praias, o que é bem característico das representações celtas desse local.
Outro aspecto característico que remete às crenças populares é o fato de o velho que causara o encantamento do herói possuir olhos estranhos: no folclore celta, o olho gordo, chamado em inglês de evil eye (literalmente olho mau) é constante nas narrativas. Como exemplo mitológico celta, temo o deus Balor, que tinha o poder de matar a quem mirasse com seu único olho (ELLIS, 1999, p. 28; 139). Essa qualidade é atribuída às bruxas, magos e seres perversos, sendo que no próprio conto, Ny Eshyn, ao observar o velho, se lembra de que os espíritos malignos tinham aquele tipo de olhos (estranhos).
Já a velha da cabana (primeira doadora), ao observar o céu noturno, diz a Eshyn que ele conseguiria realizar seu desejo. Os druidas e druidesas do mundo celta eram versados em astronomia e teriam o dom de prever o futuro ao interpretar a posição das estrelas (ELLIS, 2003, p. 262-3; 2007, p.178).
4.5.3.3 Aspectos socioculturais gerais e a representação feminina em “Y Chadee”
13
O fato de Eshyn também ter recusado o carinho das mulheres, indica que essa forma de comportamento não seria bem vista pela sociedade em que o conto se originou. Porém, com relação a isso, o comportamento esperado do herói já está bem definido no início do conto, quando o seu recato ao evitar flertar com as garotas é ressaltado como uma de suas qualidades. Podemos, então, inferir que esse motivo do palácio, onde as jovens se oferecem a ele de forma explicitamente sexual, seja bem mais antigo que o início do conto, onde um excesso de pudor é demonstrado como virtude do herói e marca a influência do cristianismo em narrativas originalmente pagãs. Podemos notar também algumas características que remetem aos ideais dos romances e contos de cavalaria, com grande repercussão na cultura celta e em todo o mundo, como atestam as lendas e contos arturianos. Ele era nobre, honrado, corajoso, modesto, manteve-se sexualmente puro e acreditava no amor ideal e eterno.
Neste conto, a primeira doadora e também o meio mágico são personagens femininas, ambas com conexões no mundo espiritual, característica comum à representação feminina nos contos: a velha doadora, porque guardiã do Reino dos Mortos, e a fada, por excelência um ser etéreo, intermediário entre dois mundos. Ambas têm participação ativa limitada no conto, assim como a princesa Y Chadee, que habita o Outro Mundo. Todas elas contribuem para o bem-estar e sucesso do herói, caracterizando o estereótipo da idealização da mulher-anjo (WOLLSTONECRAFT, s.d., p. 119-29).
A princesa, embora sem grande participação, no final mostra-se astuta, ao testar a fibra de caráter do herói, tentando-o com seus favores sexuais. Essa astúcia remete a um tempo em que a mulher na sociedade utilizava de seus atributos para obter do marido o que desejasse, de modo sutil (WOLLSTONECRAFT, ibid.). A princesa também tem a iniciativa de ir ao palácio de Eshyn para se casar com ele, sem a mínima dúvida de que esta seria também sua vontade, o que indica determinação e iniciativa.
Segundo Warner (1999, p. 263), o fato de o herói ser bondoso com a velhinha encontrada no caminho, remete a um tempo em que as velhas viúvas da sociedade necessitavam de ajuda, devido à vida miserável que levavam – nos contos, a bondade para com elas sempre traz recompensas (mesmo porque elas normalmente são as doadoras do meio mágico e o herói deve passar no teste para recebê-lo).
4.5.4 Análise do percurso dos personagens principais sob uma perspectiva actancial (COURTÉS, 1979)
O herói é motivado a partir () por que deve fugir da morte certa no palácio, após ter sua aparência transformada por obra do irmão. O antagonista é levado a agir pela cobiça, destinador de seus atos, enquanto que seu querer fazer negativo (maldoso) é complementado pelo velho de olhos esquisitos, que lhe proporciona o saber fazer e o poder fazer. Por meio disto, temporariamente, entra em conjunção com o objeto de valor visado: todo o reino para si, enquanto filho único, já que o herói encontra-se ausente.
Quanto ao herói, seu objeto de valor é a recuperação de sua antiga aparência. O destinador de seus atos é, portanto, seu próprio desejo de voltar ao normal, traduzindo-se na modalidade do fazer querer fazer. Posteriormente, outras personagens influenciam em seu agir, como co-destinadores: a velha da cabana, o velho de olhos esquisitos e a fada, os quais lhe dizem o que deve fazer (possuem a modalidade do saber fazer, passando-a ao herói, que, a partir disso, obtém também o poder fazer). Com a fada, o herói estabelece um contrato de troca: ele faz o que ela determina (realização das tarefas difíceis M e N) e ele consegue sucesso naquilo que busca (objeto de valor).
No final, após conseguir o que deseja, estando em conjunção com sua antiga aparência, seu objeto de valor passa a ser a princesa Y Chadee. Após realizar todas as tarefas impostas, o jovem já está munido com a modalidade do poder fazer (casamento com a moça), mas ainda não sabe disso: não possui o saber fazer, modalidade que fica por conta da princesa.
A princesa, por sua vez, deseja casar-se com o herói (objeto de valor), mas, para tanto, espera prudentemente que este prove seu valor para ser digno do casamento (W0). Dessa forma, o fazer transformador do herói (que o sanciona enquanto tal) transforma também o estatuto da princesa: ela vai a seu encontro, porque junto com as modalidades do saber fazer e do querer fazer, agora ela possui também a do poder fazer. O destinador das ações da moça é subentendido como a importância social do matrimônio entre pessoas de linhagem nobre, e ela tem consciência de que seu marido deve ser portador de todos os atributos que o fazem digno desse papel.
No final, o herói altera seu estatuto de homem horripilante, voltando ao normal, de homem solteiro, casando-se com a princesa, além de livrar-se do irmão, passando a ser o único herdeiro ao trono.