É importante interrogarmos, agora, a analogia elaborada por Gurwitsch entre a derrogação da hipótese de constância e a redução fenomenológica. Já analisamos a estrutura da redução fenomenológica (capítulo 1) e a estrutura da hipótese de constância e do significado metodológico de sua derrogação. Por meio de seu princípio descritivo, a abordagem da Psicologia da Gestalt e a abordagem fenomenológica da consciência demonstram coincidir quanto a seu registro de investigação: a descrição pura daquilo que é
dado tal como é dado. Este princípio possui, então, consequências importantes não apenas
para a investigação psicológica da esfera perceptiva, mas, generalizando-o adequadamente, demonstra possuir um significado epistemológico mais profundo. É por esta via que os conceitos e as teses da Psicologia da Gestalt demonstram possuir significado e validade para a pesquisa fenomenológica e, ainda mais, para a própria fenomenologia transcendental. A fim de esclarecermos a via pela qual a investigação psicológica da teoria da Gestalt pode levar a uma investigação puramente fenomenológica e, em última instância, aos problemas da fenomenologia constitutiva, é importante estabelecer a estrutura da própria analogia. Em
nossa análise, tentamos destacar alguns dos pontos contidos nos textos de Gurwitsch, mas que não explicitamente foram separados por ele.
a) Restrição à esfera descritiva da experiência imediata
O primeiro ponto resultante da derrogação da hipótese de constância é o de importância metodológica e epistemológica mais fundamental do ponto de vista fenomenológico, apesar de os demais estarem também conectados com ele. Trata-se do princípio de tomar descritivamente o percepto tal como ele se oferece diretamente à experiência. Em um primeiro momento, experiência deve significar, de acordo com este princípio, aquilo com que um sujeito se depara “em primeira pessoa” (o conteúdo descritivo da experiência). Do ponto de vista fenomenológico, isto implica tomar a aparência perceptiva como apresentando, ao mesmo tempo, um aspecto eminentemente subjetivo e um aspecto objetivo (no sentido estrito do correlato objetivo da vivência) que podem ser descritos de forma “imediata”. É, portanto, a própria vivência perceptiva que é a ocupação do trabalho descritivo. Não se trata de explicar a percepção segundo princípios que liguem eventos simultâneos ou sucessivos em termos causais segundo um quadro teórico prévio, tal como funcionava a “hipótese de constância” para a psicologia tradicional. Mesmo psicologicamente, deve-se começar pelo objeto percebido tal como ele é percebido, incluindo nisso tanto a sua objetividade quanto a sua subjetividade. Deste ponto de vista, o princípio descritivo da Psicologia da Gestalt corresponde, em grande medida, com o princípio fenomenológico da autodoação do objeto, ou ao que Husserl chamou, em Ideias I, de “intuição doadora originária” (HUSSERL, 1913/1976a; 2006, §24). Como afirma Husserl naquele texto, todo objeto de experiência “deve ser simplesmente tomado tal como ele se dá, mas também apenas nos limites dentro dos quais ele se dá” (HUSSERL, 1913/1976a, p. 51; 2006, p. 69). Em seu texto de 1955, Gurwitsch (1955/2009e) afirma este princípio dizendo que o percepto
[…] deve ser tomado por seu valor imediato (at face value); tal como ele se apresenta através do ato de percepção dado e apenas através de tal ato; tal como ele aparece à consciência do sujeito da percepção; tal como ele é significado [meant] e intencionado [intended] (o termo ‘significado’ sendo entendido em um sentido propriamente ampliado e alargado) naquele modo privilegiado de significado e de intenção que é a apresentação perceptual (GURWITSCH, 1955/2009e, p. 116).
b) Neutralização das construções teóricas
Ainda, a derrogação da hipótese de constância tem por consequência a neutralização
separável. Trata-se, sobretudo, de neutralizar a tese de que há um “mundo objetivo” composto por estímulos que seriam a causa real e última de todo fenômeno perceptivo. Isto afeta, igualmente, outras assunções puramente teóricas e que, por isso, possuem o caráter de dados extrafenomênicos. O significado geral desta neutralização é que nenhum conhecimento indireto deve intervir sobre aquilo que é dado, qualquer que seja a sua natureza, que nada de exterior ao noema seja imputado a ele (GURWITSCH, 2009h, p. 139), que, enfim, nada deve entrar na descrição da experiência imediata a título de pressuposto. Em certo sentido, a derrogação da hipótese de constância possui, por isso, o mesmo significado da epoquē: consiste em abster-se de efetuar juízos (teóricos ou de qualquer outra natureza) sobre o objeto, pois isto implicaria em adicionar conteúdo ao objeto intuitivo e realizar um ato que viria a transformar o ato de reflexão e a agregar conteúdo ao próprio objeto intuitivamente dado. Mais ainda, conforme afirma Gurwitsch (1955/2009e), “[…] nenhuma realidade extrafenomenal deve ser admitida como base ou pressuposição para a análise descritiva, nem deve ser permitido que ela intervenha ‘de fora’ em tal análise” (p. 117). O fenômeno perceptivo é considerado, a partir de então, puramente como noema perceptivo, e não mais como um fenômeno dependente do universo de construção racional-teorética. Isto está, também, em acordo com o “princípio de todos os princípios”, visto que, como já observamos anteriormente, este princípio liberta a experiência de toda “teoria prévia”.
Essa neutralização implica, em primeiro lugar, que devem ser abandonadas, enquanto pressupostos, aquelas hipóteses sobre a constituição do fenômeno perceptivo que o fazem repousar na distinção entre os dados sensoriais genuínos e os outros processos que estes dados possam evocar (associação, produção etc.). Tais hipóteses colocam no interior do quadro descritivo fatores que não são perceptuais, mas que, de alguma forma, estariam conectados com o processo perceptivo. Segundo Gurwitsch (2009h, p. 140), as objeções que a Psicologia da Gestalt fez às teorias clássicas baseadas em tais hipóteses não entram diretamente no interior do quadro fenomenológico, mas os seus resultados possuem valor fenomenológico por conta, justamente, de circunscreverem a investigação ao registro da experiência imediata e da descrição pura e por neutralizarem as construções teóricas. E, em segundo lugar, implica deixar de lado a distinção entre “fatos objetivos” e “fatos subjetivos”. Implica abandonar as correlações entre os dados de consciência e as excitações nervosas dos órgãos receptores, os estímulos objetivos que são exteriores até mesmo ao sistema nervoso e, também, o estado atual deste sistema condicionado e modificado pelos eventos passados (GURWITSCH, 2009h, p. 140). Isto acarreta o próximo ponto.
c) Colocação entre parênteses da transcendência
No plano puramente fenomenológico, a divisão entre “realidade” e “aparência” perde o seu valor funcional. Aquilo que é tomado em consideração deve ser apenas o objeto tal
como ele aparece e sem preconceitos. Trata-se de uma limitação descritiva ao objeto que
aparece na percepção, sem pressupor nem avançar quaisquer teorias sobre as conexões exteriores que ele possa eventualmente ter. O objeto “tal como ele realmente é” – por exemplo, a “árvore que queima” por conta de suas propriedades físico-químicas, conhecíveis do ponto de vista empírico e, por isso, pelas ciências positivas104 – é substituído, na análise,
pelo objeto “tal como ele aparece” (GURWITSCH, 1929/2009a, p. 214) – no exemplo dado, simplesmente, a árvore tal como ela é percebida, sem quaisquer predicações adicionais sobre sua composição físico-química105. Com isso, os juízos descritivos efetuados pela Psicologia
da Gestalt encerram-se no círculo do fenômeno, deixando de lado considerações sobre a “coisa real”106. Deste ponto de vista, a derrogação da hipótese de constância coincide com a
“colocação entre parênteses” do mundo objetivo, que é o carro-chefe do procedimento fenomenológico (HUSSERL, 1976a; 2006, §§31-32; 1973; 2013 §8). A partir de então, qualquer objetividade, inclusive os estados vitais corporais, devem ser considerados através do ponto de vista da consciência, isto é, como correlatos intencionais (GURWITSCH, 2009h, p. 140). As investigações que seguem esta linha não lidam, então, como as ciências objetivas modernas, com as “coisas”, os “estados-de-coisa”, os “eventos” pura e simplesmente, mas com o objeto tal como ele é dado através do ato de consciência em estudo (GURWITSCH, 1929/2009a, p. 213), como já vimos. Neste sentido, com os procedimentos redutivos da Psicologia da Gestalt e da fenomenologia, que são análogos, abre-se, para a psicologia, a dimensão do “em primeira pessoa”. Abre-se o que Gurwitsch (2009h) chama, também, de “objeto psicológico”, a saber, “o objeto tal como o sujeito o tem em consideração, em contraste com o objeto objetivo, o objeto em si mesmo” (GURWITSCH, 2009h, p. 141). Em seu texto de 1929, precisamente, Gurwitsch (1929/2009a) concebe este objeto como o próprio
noema: “pelo abandono da hipótese de constância, o campo do noemático é aberto para a
psicologia, e a psicologia lida apenas com este campo noemático” (1929/2009a, pp. 213-214).
104 Veja-se Sowa (2009, §I).
105 Do ponto de vista transcendental, inibem-se, ainda, as predicações relativas à existência do objeto.
106 Em uma análise fenomenológica mais profunda, a “coisa real” se revela como consistindo, na verdade, em um
longo processo de sedimentação de sentido, como produto da idealização, e como relativa a uma intencionalidade própria, idealizadora (ou categorial). O objeto da ciência jamais é dado na experiência cotidiana, sensível, a não ser a título de modificação. É isto o que nos ensinam as análises de “Crise” (HUSSERL, 1976b; 2012b).
O conjunto desta analogia entre a derrogação da hipótese de constância e a redução fenomenológica apresenta, então, a tese de Gurwitsch de que, por trás da referida derrogação, encontra-se uma profunda coincidência entre o que é “estabelecido e elaborado sob a redução fenomenológica” (GURWITSCH, 1955/2009e, p. 116). Ambos os procedimentos revelam possuir uma estrutura comum. Esta estrutura é, pois, a de um procedimento “redutivo”, ou seja, de limitação metódica da investigação a uma esfera epistêmica determinada. Esta esfera, por sua vez, corresponde à esfera do noema. Deste ponto de vista, o conceito de Gestalt demonstra possuir um significado importante para os “fatos noemáticos” (GURWITSCH, 2009h, p. 142), ainda que acarrete uma modificação na compreensão da estrutura do noema. Com base nisto, além de seu imenso valor para a psicologia pura, a teoria da Gestalt se investe de significado e demonstra possuir validade para a própria investigação filosófica (GURWITSCH, 1929/2009a, pp. 213-215; 2009h, p. 141-144). Mas, a realização de seu significado filosófico depende da radicalização de seu “procedimento redutivo”.