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O fluxo de vivências forma uma unidade, uma cadeia de vivências que estão articuladas entre si e que estão dispostas no tempo imanente da consciência. Esta unidade não pode ser apreendida de maneira completa como que por uma percepção que transcorra junto com ela. É impossível que eu seja consciente, no sentido forte de uma percepção direta e atual, de todas as vivências que englobam (ligando-se por meio de sínteses) essa unidade temporal. Esta é uma impossibilidade de princípio e que compõe a essência da “percepção imanente”. O que se constata, na reflexão fenomenológica, pelo contrário, é a situação de essência de que toda vivência está enredada na trama da temporalidade imanente da consciência. A temporalidade é o modo de ser das vivências, ela expressa a essência da concatenação das vivências, a sua forma necessária de vinculação.

O tempo fenomenológico é uma constatação que é possível apenas sobre o apoio da redução fenomenológica. Ele é o tempo universal reduzido. Como toda transcendência, o tempo objetivo, também chamado de “cósmico”, é colocado entre parênteses. O tempo que passa a contar, no interior da investigação fenomenológica, é o tempo imanente. O tempo imanente é o tempo da experiência imanente, da duração das vivências. É da essência de toda vivência reflexivamente apreendida que ela seja fluída, que ela se dê em um momento atual e, então, escorra para o passado e seja substituída por uma nova vivência ou um novo momento de vivência. Assim, o fluxo das vivências é sempre apreendido de maneira parcial, “por

perfis”, com relação ao todo unitário da consciência, onde novas vivências sempre emergem e se articulam com as demais. A tematização do tempo feita por Husserl (1913/1976a; 2006, §81; 1991b) aproxima-se, nestes termos, da tematização bergsoniana do tempo, sobretudo quanto tomamos em consideração a distinção, feita por Bergson (1889/1963), entre “tempo” (temps) e “duração” (durée) para referir-se, respectivamente, ao tempo objetivo, enquanto sucessão indefinida e homogênea, e ao tempo fenomenológico, vivenciado.

a) Desligamento do tempo objetivo

A consciência fenomenológica está, então, desligada de sua relação com o tempo objetivo. O tempo objetivo é aquele no qual está mergulhada toda experiência e, correlativamente a ela, todo ser efetivo e todo momento de ser efetivo, desde o ponto de vista natural ou científico. Todo ser objetivamente válido, todas as coisas e eventos, corporais e psíquicos, tudo encontra uma posição em um tempo objetivo único e infinito, com intervalos temporais sucessivos efetivos. Como tal, o tempo objetivo pode ser mensurado por técnicas e instrumentos de medição, como a posição do Sol, o relógio e até mesmo a frequência de oscilação de energia de um átomo, ou qualquer outro meio físico. A duração é, pois, neste caso, essencialmente física, ela é mera sucessão de segmentos temporais abstrativamente separados uns dos outros. O tempo objetivo é, assim, um análogo da “extensão” espacial objetiva da coisa externa, que segmenta os objetos espaciais em multiplicidades. Mas, ainda que o tempo transcendente se exiba, também, por perfis na vivência imanente e nos momentos de vivência, quer dizer, como “momentos parciais” de um fluxo objetivo unitário, mesmo assim ele se diferencia da forma como se exibem outros momentos de essência material do mundo. É o que afirma Husserl:

Seguramente, a exibição de cores e demais qualidades sensíveis da coisa (nos dados sensíveis correspondentes dos campos de sensação [Sinnesfelder]) é essencialmente de outra espécie, e também de outra espécie é o perfilar-se de formas materiais espaciais nas formas da extensão, no interior dos dados sensíveis (HUSSERL, 1913/1976a, p. 181; 2006, p. 185).

Por exemplo, se eu estou a observar a folhagem de uma árvore, os tons de verde desta folham estão em constante mudança, apresentam-se em variações de perfis, conforme eu altero a minha perspectiva ou me movo, ou conforme o próprio vento chacoalha as folhas. Apesar destas variações, o objeto transcende o ato singular que o apreende apenas por um perfil. Mas, no decorrer do fluxo temporal, ele continua a ser vivenciado em constantes variações de tonalidade conforme eu ou ele nos movimentamos.

b) A estrutura temporal da vivência

A inspeção fenomenológica revela que toda vivência se apresenta, de maneira imediata, como estando disposta em um horizonte temporal tríplice: do agora, da anterioridade e da posteridade. Primeiramente, toda vivência é dada imediatamente no “agora”. Cada agora singular, por sua vez, manifesta-se em continuidade necessária com um novo agora, que, sempre novamente, transforma-se em um “ainda há pouco” e assim de novo e de novo, criando-se novos “ainda há pouco”. Do ponto de vista fenomenológico, o agora é uma forma que persiste e é preenchida sempre por uma nova matéria na sucessão do fluxo temporal. Ele permanece, assim, enquanto uma forma com sempre novos conteúdos. O mesmo vale para o “ainda há pouco”. Ao fluírem em direção ao passado, as vivências antigas do passado imediato são “retidas” como “ainda há pouco” no interior da própria vivência atual. Assim, o “ainda há pouco” é, em conexão com o agora, sempre preenchido por novos conteúdos. Novas fases de duração são acopladas, assim, ao presente vivo e, assim, vão tornando-se mais complexas e se modificando. A “vivência-agora” (Erlebnis-Jetzt) recebe sempre um novo conteúdo, uma nova impressão que se acopla à original e a modifica. Esta nova impressão forma um novo conteúdo no contínuo da duração. E, na medida em que a consciência recebe ainda novas impressões, a vivência atual se modifica em retenção (conteúdo retido) e, ainda, em retenção modificada etc. Mas, segundo Husserl (1913/1976a; 2006), esta complexificação da vivência retida não progride infinitamente. Pelo contrário, há uma “fase-limite” (Grenzphase) para a continuidade de retenções. Mesmo assim, é da essência das retenções que elas estejam ligadas umas às outras em uma “continuidade intencional”, em um “um entrelaçamento [Ineinander] contínuo de retenções de retenções” (HUSSERL, 1913/1976a, p. 183; 2006, p. 186). Então, caso se possa falar de uma “impressão primária” (Urimpression) enquanto “ponto de origem” (Quellpunkt) da temporalização do objeto (Cf. HUSSERL, 1991b, §10), como a impressão mais originária por meio da qual ele entra na duração temporal, tal impressão basal somente pode ser inspecionada, na reflexão, como produto de uma modificação retencional, como algo que já foi68.

68 No segundo tomo de Filosofia Primeira (HUSSERL, 1996; 1972b), particularmente no primeiro capítulo da

terceira parte, Husserl analisa o caráter “tardio” da reflexão fenomenológica evocando a imagem de uma percepção tardia e retrospectiva: a “retrocepção” (Zurückgreifen), a “rememoração retencional” (Nacherinnerung), a “apercepção retencional” (Nachgewahren). O “retencional”, aqui, foi uma opção do tradutor francês para indicar este caráter de algo que “já foi” e de que se tem consciência apenas “depois”, tal como o expressa o termo alemão “Nach”. Como já o vimos, essa concepção implica um “esquecimento de si” (Selbstvergessheit) originário, coetâneo à reflexão e, por isso, ao eu reflexivo, e um “eu que é inconsciente de si” (seiner selbst unbewußtes Ich) (HUSSERL, 1996, p. 90; 1972b, p. 126). É interessante notar que o movimento de reflexão sobre a própria reflexão fenomenológica e com base nos resultados das análises da consciência

Por conseguinte, toda vivência atual possui um horizonte do “antes”, que corresponde a essa forma do passado retido e que é preenchida por um conteúdo sempre novo. A vivência retida na vivência atual não necessita de um novo ato intencional, reflexivo, como o rememorar, para estar presente e ser considerada como dado fenomenológico. Na verdade, a vivência retida está implicada no e é copresente à vivência atual. Ela está intencionalmente ligada ao presente vivo, sem duplicá-lo. Mas, a vivência recém-iniciada contém, ainda, uma dimensão distinta. Para toda vivência atual, há, também, um horizonte de depois, do que ainda não está presente, da “protensão”. Assim como a retenção, a protensão também não implica um novo ato intencional, como a antecipação ou a expectativa, mas sua implicação intencional está já contida na vivência atual, como um “porvir”, como uma continuidade que se já se anuncia no presente vivo. Isto significa que todo agora da vivência se desdobra em um novo agora e que este, também como o anterior, é preenchido por conteúdos, isto é, não é meramente formal. Enfim, toda vivência singular atual possui um horizonte temporal que é preenchido em todos os seus lados, quer dizer, tanto no que se refere ao passado retido quanto ao futuro pretendido.

c) O sistema de vivências

A partir das conexões que se estabelecem imediatamente entre a vivência atual e os seus horizontes de passado e de futuro, é possível constatar, também, que toda vivência singular atual pertence a um sistema de vivências em fluxo, como sua parte dependente. No interior deste sistema, cada vivência se ordena em um “contínuo infindo de durações” (einem

endlosen Kontinuum von Dauern) (HUSSERL, 1913/1976a, p. 182; 2006, p. 185). Assim,

enquanto que uma vivência singular atual, como, por exemplo, uma vivência de raiva, pode ter um começo e um fim determinados, os quais circunscrevem a sua duração, este sistema de vivências ao qual ela pertence circunscreve uma totalidade infinita, sem começo e sem fim, mas que possui indicações de temporalizações em direção ao passado e ao futuro. Com isso, os horizontes de passado e de futuro formam uma unidade complexa de vivências. Além disso, essa unidade circunscreve, ela própria, um sistema singular de vivências, que não se repete. Por conseguinte, não pode haver dois fluxos de vivências de idêntico conteúdo eidético. Cada fluxo de vivências é dado, pois, como uma unidade concreta, como uma

imanente do tempo expressa a própria complexidade do pensamento husserliano, de seu “ziguezague” (Zickzack) constante, de um retorno em espiral aos temas já analisados, mas em posse de conceitos que permitem apreendê- los de uma nova forma. Ainda mais, esse “ziguezague” compõe o próprio método fenomenológico, ao lado da “questão em sentido contrário” (Rückfrage), tal como o formaliza Husserl em Crise (HUSSERL, 1976b; 2012b).

“mônada” (HUSSERL, 1931/1973; 2013). É neste sentido, aliás, que cada eu puro possui uma “esfera daquilo que lhe pertence”, uma ipseidade.

Estando em um sistema, toda vivência atual possui, também, um entorno de outras vivências inatuais ou potenciais que podem se tornar atuais de modos variados, no antes e no depois. É, sobretudo, através da inspeção do “eu puro” que estas vivências se atualizam. O eu puro pode dirigir o seu “puro olhar” para uma vivência singular e apreendê-la como realmente existente ou como durando no interior do tempo fenomenológico. Ele pode, também, dirigir o seu olhar reflexivo para o modo de doação temporal da cadeia de vivências e desvelar a sua estrutura eidética (do simultâneo, do antes e do depois). Igualmente, ele pode dirigir o seu olhar para a cadeia de vivências e esclarecê-la, até o seu limite de apreensão. Mas, como já o dissemos, a apreensão integral do fluxo de vivências por um “único olhar puro” é uma impossibilidade de princípio, que está fundada sobre a essência do próprio fluxo de consciência. O fluxo de vivências possui um limite apenas como caso ideal. O seu modo de doação é, pois, o “da ‘ausência de limites’ [Grenzenlosigkeit im Fortgang] na progressão das

intuições imanentes” (HUSSERL, 1913/1976a, p. 185; 2006, p. 188). Mesmo assim, sempre é

possível trazer à claridade do olhar puro aquelas vivências impercebidas.

d) Contra o idealismo psicologista

A fenomenologia do tempo imanente da consciência possui, de fato, amplas consequências para a concepção husserliana de constituição das objetividades pela consciência. Isso porque ela permite compreender o modo de constituição temporal das objetividades e, ao mesmo tempo, enquanto opõe-se a todo psicologismo gnosiológico, permite mostrar que a problemática da constituição se afasta de uma redução à construção subjetiva e mesmo de uma teoria das produções (“sínteses”) da consciência psicológica. Neste sentido, a fenomenologia do tempo imanente evita as incompreensões da teoria de Hume, conforme o comenta Santos (2010). A teoria de Hume estaria fundada sobre a indistinção entre o objeto imanente, vivenciado, e o objeto transcendente. Por conseguinte, o objeto transcendente é assimilado ao objeto imanente e toda a constituição de objetividades se torna um processo de criação exclusivamente subjetiva, uma mera “ficção”, um mero “construto”. Perde-se de vista, neste caso, a correlação essencial dessa subjetividade com as próprias objetividades que são constituídas. Desconsidera-se o “sentido objetivo” (gegenständlicher

Sinn) dessas objetividades, enquanto “espécie de objetos que possuem uma essência própria”

psicológico, dos dados da temporalidade psicológica. Isto tudo caracteriza esta interpretação como um “idealismo psicologista”.

A concepção fenomenológica do tempo permite, pelo contrário, denunciar a confusão entre o objeto e as partes intrínsecas da vivência e avança, com isso, uma concepção que atesta a transcendência do objeto mesmo a partir da imanência. O tempo imanente da consciência se revela, de fato, como a síntese universal da consciência, aquilo que garante a sua unidade de nível mais alto, na sucessão e na simultaneidade. Com base nesta síntese universal, torna-se possível à consciência pura apresentar-se como uma unidade concreta. Com isso, as multiplicidades de aparências sensíveis ganham, igualmente, coesão no sentido de apontarem uma unidade do objeto intencional. A conciência revela possuir uma estrutura “dual”: por um lado, a temporalidade que é o princípio de organização da tessitura das vivências imanentes e, por outro, a direcionalidade para um objeto transcendente que se apresenta como tal para a consciência. Com essa referência para além de si mesmas, as vivências e, por extensão, toda a vida consciente demonstram estar, desde o princípio, em contato com uma alteridade que é irredutível à imanência. Através do tempo fenomenológico, há um objeto que é apontado e que permanece idêntico. Por exemplo, se estou, agora, consciente de meu computador por um ato de percepção, fecho os meus olhos e, então, abro os olhos e o vejo novamente, o próprio tempo se alterou, a vivência atual fluiu para o passado e foi substituída por uma nova vivência, porém o objeto vivenciado permaneceu o mesmo. Todo o conteúdo daquela vivência passada foi substituído por um novo conteúdo, distinto em sua matéria, e, ainda assim, o objeto visado é o mesmo. Com isto, é possível distinguir-se entre o tempo imanente das vivências, que transcorre com o conteúdo particular e irrepetível de cada vivência singular, e o objeto transcendente, que é visado por cada vivência singular e, ainda assim, tem a possibilidade de ser visado como “o mesmo”. O conteúdo particular de cada vivência é composto, do ponto de vista da teoria de Husserl, por matéria e forma. Este conteúdo flui junto com o tempo imanente. Nós nos voltaremos, agora, ao estudo deste conteúdo. Depois, tomaremos por tema o problema da identidade do objeto.

Benzer Belgeler