Antes da coleta de dados propriamente dita, encaminhamos, primeiramente, o projeto de pesquisa para apreciação pelo Comitê de Ética em Pesquisa (COEP) da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG. Logo após a sua aprovação,25 iniciamos os
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O número de registro do projeto junto ao Comité de Ética em Pesquisa – COEP da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG é 03320912.7.0000.5149.
contatos com coordenadores de diversos cursos livres de inglês, por meio de ligações telefônicas, e-mails e conversas presenciais. Infelizmente, grande parte dos coordenadores não retornou as tentativas de contato, o que implicou grande dificuldade, no âmbito de coleta de dados, para esta pesquisa.
Tivemos retorno positivo de dois cursos livres de inglês26 e, tão logo essas respostas nos foram dadas, iniciamos o contato com professores dessas instituições, para verificarmos quais deles teriam interesse em participar da pesquisa. Aqui, novamente, tivemos dificuldades. Muitos dos professores não retornaram os contatos e, entre aqueles poucos que mostraram interesse, houve, ainda, algumas restrições de possibilidade de filmagem, uma vez que alguns de seus alunos relataram que se sentiriam desconfortáveis, caso suas aulas fossem filmadas.
Ao final do processo de gravação em vídeo, tivemos a participação de três professores brasileiros e três professores americanos, além de dezenove alunos brasileiros,27 o que nos rendeu um total de seiscentos e vinte e cinco minutos, ou cerca de dez horas, de filmagem. Nessas filmagens, foram abordados diferentes tipos de atividades: aulas completas de professores para suas turmas regulares, exposições de um professor acerca de um tema específico (onde havia menor interação entre aluno e professor) para alunos da escola que se mostrassem interessados em participar do evento e uma atividade de conversação delineada por um dos professores para a pesquisa.
Para a filmagem, foi utilizada uma filmadora da marca Sony HDR-CX2E, que nos possibilitou qualidade de imagem e áudio adequada para os nossos propósitos de análise. Em cerca de cinquenta por cento das filmagens, apenas a câmera ficava disposta em ponto estratégico da sala, sobre um tripé. Isso foi possível em salas onde o grupo de alunos e o professor podiam ser filmados todos ao mesmo tempo pela câmera, sem necessidade de ajustes e movimentos da filmadora. Nas demais aulas, foi necessária a presença da pesquisadora, porque os espaços não permitiam que todos fossem enquadrados simultaneamente pela câmera. Ressaltamos que alguns professores, perguntados, previamente, se prefeririam que a pesquisadora estivesse presente ou ausente na hora da filmagem, optaram pela segunda alternativa e relataram que se sentiriam menos desconfortáveis dessa maneira.
Em um primeiro momento, previamente à coleta de dados, relatamos, em nosso projeto de pesquisa, que daríamos preferência a turmas de nível intermediário e avançado,
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Os coordenadores de cursos livres que deram permissão para que filmagens fossem feitas em suas escolas assinaram um ‘Termo de Anuência’ (APÊNDICE E).
27Os professores e alunos participantes da pesquisa assinaram um ‘Termo de Consentimento Livre e
porque esperávamos que os alunos com tais níveis de proficiência tivessem certa competência linguística e comunicativa que os permitisse sustentar comunicações mais longas. Apesar de a maioria dos informantes do corpus ser de turmas desses níveis, temos duas observações a fazer: 1) a distinção de níveis nos cursos livres é, geralmente, bastante subjetiva e, por isso, há grande heterogeneidade nas turmas, o que faz com que encontremos alunos que poderiam ser classificados em níveis de proficiência diferentes em uma mesma turma; e 2) a filmagem e a análise dos dados de uma turma de nível básico nos deram uma nova perspectiva – que será apresentada no capítulo seguinte – para o estudo das pistas de contextualização que se mostram presentes nas interações de participantes com esse nível de proficiência.
Outras pretensões relatadas no projeto de pesquisa foram a filmagem de várias aulas por turma e a realização de entrevistas retrospectivas com cada um dos participantes das gravações. Esses procedimentos, porém, não puderam ser concretizados, porque poderiam resultar em grande desconforto para os alunos e professores filmados, que, além de participarem de várias filmagens, teriam que se comprometer a estar nas escolas fora dos horários de suas aulas.
Uma de nossas experiências de filmagem de aulas foi especialmente difícil. A filmagem resultou em grande desconforto, por parte dos alunos, e, certamente, em uma mudança na dinâmica das aulas, porque vários estudantes tentavam se esconder da câmera em posições estratégicas da sala e reduziam, assim, sua participação. Além disso, uma aluna relatou desconforto com relação à filmagem e com relação ao uso dos dados coletados até aquele momento, o que nos fez interromper a coleta e não utilizar os dados daquela turma. Portanto, como salienta Selting (2010, p. 13), apesar de termos acesso a equipamentos diversos para coleta de dados, as gravações, hoje em dia, tornaram-se mais um problema de ordem ética do que de possibilidade.
Dadas as dificuldades com entrevistas retrospectivas, resolvemos, ainda assim, realizar entrevistas com professores nativos de língua inglesa. O objetivo das entrevistas foi complementar as nossas interpretações a respeito dos dados. Assim, os fenômenos por nós selecionados foram analisados também sob outra visão, a saber, o ponto de vista do nativo americano, já que este trabalho se propõe a comparar as perspectivas americana e a brasileira para interações em inglês.
Foram contatados professores americanos de inglês que trabalham e residem na cidade de Belo Horizonte – Minas Gerais. A participante C.C.,28 professora de Inglês e de História, reside em Belo Horizonte há três anos e leciona para adolescentes em uma escola regular bilíngue dessa mesma cidade, além de trabalhar em um curso de inglês para adultos. Ela fala muito bem a língua portuguesa. B.T., professor de inglês, também vive em Belo Horizonte há dois anos, porém, ainda não fala português. Ele trabalha no mesmo curso livre onde C.C. leciona. J.M., professor particular de inglês, também reside em Belo Horizonte há dois anos e já tem conhecimento satisfatório da língua portuguesa. Ele se interessa bastante por diferenças culturais e escreve regularmente, em seu blog, sobre o assunto. C.C. e B.T. participaram, também, da etapa prévia da pesquisa e tiveram, portanto, suas aulas filmadas.
As entrevistas foram gravadas apenas em áudio, para minimizar o desconforto dos participantes, nesse estágio. J.M. foi entrevistado individualmente, enquanto C.C. e B.T. foram entrevistados ao mesmo tempo. Tentamos, com isso, utilizar dois tipos de entrevista e julgamos ter chegado a resultados satisfatórios em ambos. No primeiro caso, como o entrevistado já tinha, ele mesmo, feito várias reflexões a respeito de diferenças culturais e linguísticas entre americanos e brasileiros, a entrevista foi bastante produtiva, com várias observações a respeito de questões sobre as quais ele já havia pensando anteriormente. No caso da entrevista em grupo, houve momentos em que os participantes C.C. e B.T. conversaram entre si sobre diferenças linguísticas e culturais que estimularam a discussão e foram, também, bastante interessantes.
Optamos por um tipo de entrevista chamada por Dörnyei (2007, p. 135) de
‘unstructured interviews’, conhecida também como ‘entrevista etnográfica’. Essa opção se
deve ao objetivo que tínhamos ao utilizar esse instrumento: almejávamos, além de apreender impressões acerca de momentos particulares de determinadas interações, captar impressões gerais dos nativos americanos acerca dos brasileiros. Como já mencionado, diferentes processos interpretativos – resultantes do emprego de pistas de contextualização divergentes – podem ser vistos em termos atitudinais. Logo, os ouvintes podem fazer julgamentos e classificar os falantes (ou vice-versa) como rudes, arrogantes, etc.. Era esse tipo de impressão que pretendíamos captar com as entrevistas.
Selecionamos alguns trechos interessantes das gravações para apresentar aos entrevistados. Durante as entrevistas, os seguintes procedimentos foram seguidos: primeiramente, informamos os entrevistados sobre o conceito de ‘pistas de contextualização’
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Para preservar as identidades dos participantes, somente as iniciais dos nomes dos entrevistados foram informadas.
e pedimos que identificassem momentos, nos trechos de filmagem assistidos, que lhes soassem estranhos. Em seguida, fizemos perguntas sobre momentos específicos de cada um dos trechos e, finalmente, iniciamos uma conversa a respeito de questões macro relativas às culturas brasileira e americana.