Segundo Geffré, é possível perceber uma plataforma comum de relacionamento entre as religiões, acima da diversidade irredutível de cada manifestação religiosa. Não há como acontecer o diálogo inter-religioso apenas no âmbito abstrato das ideias, trata-se sempre de um diálogo concreto e determinado entre denominações religiosas específicas. Muitos cultivam a ilusão de uma democracia inter-religiosa que planifica equivalentemente todas as religiões em detrimento de uma hierarquia de sobreposição de umas sobre as outras, segundo critérios vários. Isto é inaceitável, pois desrespeita a alteridade plural de cada uma delas. O que é preciso cultivar é o respeito pela misteriosa complementaridade entre as religiões a partir de uma visão comparativa aberta e respeitosa. Em todas as religiões está presente um anseio de diálogo, é preciso captar as possibilidades que emergem de cada contexto.
Olhando, por exemplo, para o relacionamento entre as três grandes religiões monoteístas335 – judaísmo, cristianismo e islamismo –, podemos perceber o intercruzamento
de elementos em comum, começando pelo dado fundamental da crença em um Deus pessoal e
333 Segundo Teixeira, “o diálogo verdadeiro deve sempre estar animado pela abertura e busca da verdade, que
não se esgota em nenhuma tradição religiosa particular. A disponibilidade em colocar-se em discussão, em cultivar a abertura, longe de enfraquecer a fé, é motivo de seu maior aprofundamento. É na relação de alteridade que a identidade da fé ganha a oportunidade de ser reconhecida na sua singularidade e, ao mesmo tempo, enriquecida.” (TEIXEIRA, Faustino. op. cit., p. 75). Certa vez Gandhi sublinhou que aqueles que estudam os ensinamentos de outros credos ampliam o seu coração.
334 GEFFRÉ, Claude. Crer e interpretar, p. 148.
335 Karl-Josef Kuschel, no seu livro Discordia en la casa de Abrahan, fala em “ecumene abraâmica” para
descrever o diálogo ecumênico entre cristãos, judeus e muçulmanos, e a sua responsabilidade comum pelos habitantes da terra.
único que se relaciona com seu povo eleito. No entanto, apesar de o cristianismo não se compreender fora de suas raízes judaicas, o judaísmo pós-cristão é independente de um acabamento em Jesus Cristo. Após o Concílio Vaticano II, a Igreja católica reformulou a sua teologia do judaísmo, reconhecendo a permanência das promessas feitas por Deus a Israel. E a respeito das relações entre o cristianismo e o islã, continua difícil para os cristãos aceitarem a profecia de Maomé, a qual contradiz pontos essenciais da doutrina cristã. Apesar de o islamismo deitar as suas raízes na história bíblica da salvação, acolhe elementos tanto judaicos quanto cristãos, porém, assumindo uma missão profética em relação a ambos. Apesar das divergências essenciais em matéria de doutrina, entre essas religiões há muitas lições a serem aprendidas através do diálogo mútuo.
A interpelação crítica do monoteísmo intransigente do islã convida o pensamento cristão para uma melhor compreensão dos dogmas fundamentais da encarnação e da Trindade. E, inversamente, a compreensão cristã da Bíblia como Palavra de Deus não deixa de questionar um certo fundamentalismo muçulmano.336
A respeito do diálogo entre o cristianismo e as grandes religiões orientais, como ocidentais muitas vezes pensamos em um Oriente mítico a partir de um patamar puramente abstrato, não nos damos conta que o Oriente índio é inseparável do hinduísmo, assim como o é o budismo Zen no Japão e o taoísmo e o confucionismo na China. Entretanto, procedendo a uma comparação entre essas religiões e o cristianismo, podemos perceber que enquanto o cristianismo, baseado em uma revelação bíblica, professa a fé em um Deus pessoal que se relaciona com a história humana, as religiões orientais citadas são religiões do Um nas quais não há distinção entre uma pretensa Realidade última e a realidade do eu e do cosmos. Isso está diretamente ligado com a cultura desses povos e a sua cosmovisão.
O Deus de Israel não é, em primeiro lugar, um Deus do cosmos, mas um Deus da história que faz aliança com um povo particular. O dogma da criação dessacralizou o mundo que não está mais repleto do divino: é um mundo profano aberto à ação transformadora do homem. E, de um ponto de vista fenomenológico, temos razão de querer caracterizar as religiões proféticas (judaísmo, cristianismo, islã) como religiões onde Deus se revela pela proclamação de uma palavra, quer seja a Torá, Jesus Cristo ou o Corão, e não por manifestação a partir dos fenômenos da natureza.337
Para além das divergências que se enraízam nas línguas e nas cosmovisões entre as religiões orientais e ocidentais, o encontro dialogal gera um enriquecimento mútuo que ocasiona uma nova compreensão da própria identidade. É possível, por exemplo, perceber no interior das religiões proféticas, correntes que buscam ultrapassar os limites antropomórficos da relação “eu” imanente e “Tu” transcendente, para alcançar uma espontaneidade na oração que favoreça a experiência de uma unidade mais radical com o divino, como é o caso do
336 Id. De Babel à Pentecostes, p. 21. 337 Id. Ibid., p. 21-22.
cristão Mestre Eckhart e do místico muçulmano Al-Hallaj. É o caso também de budistas que, em contato com a teologia do Cristo crucificado, puderam refletir sobre o mistério do desapego e da pobreza que nos remetem a uma Realidade última a qual só se alcança passando pela renúncia e pela morte a si mesmo.
Na aurora do século XXI, em cada religião há homens e mulheres que estão dispostos a ultrapassar suas querelas ancestrais, a renunciar à sua vontade de conquista e de dominação para se pôr a serviço do homem. Eis aí um sinal dos tempos. Em Assis, em 1986, as autoridades religiosas mais respeitadas no mundo se encontraram como mensageiros de paz. Em contraste com essa vontade de diálogo, o renascimento de fanatismos e de integrismos assume um caráter escandaloso para o observador do futuro das religiões no mundo.338
A consciência universal da humanidade se convenceu do perigo das atrocidades advindas da aliança entre o religioso e a ideologia política, ao ponto de condenar as ações daqueles que dizem matar em nome de Deus ou outros crimes semelhantes que atentam contra os direitos humanos. As religiões, desde que sejam fiéis a sua legítima natureza, podem ser um fator atenuante das violências históricas contra o ser humano e a natureza. “Diante do aumento do fanatismo, do racismo, do terrorismo internacional, dos genocídios por motivo étnico, os valores morais recomendados pelas religiões são mais atuais do que nunca.”339 As
religiões podem fornecer um critério verossímil de humanidade e um discernimento legítimo entre o bem e o mal a ser praticado na vida em sociedade. Para Hans Küng, “a verdadeira humanidade é o pressuposto para a verdadeira religião” e a “verdadeira religião é a realização da verdadeira humanidade”.340 As tradições religiosas podem ser consideradas como
instâncias de sabedoria que ajudam a humanidade a não se definir apenas pela ambição da acumulação de bens matérias ou pelo desenvolvimento técnico-científico, mas como fraternidade que aprende a cada dia a viver e a conviver bem, construindo e apreciando o sentido da vida e da história, valorizando a cultura, a meditação e a contemplação de cada realidade humana em contexto.
O diálogo inter-religioso é indissociável de um encontro entre as culturas. Para o Ocidente que exaltou unilateralmente a liberdade individual em detrimento de uma relação de continuidade com o cosmos, a relação com as religiões e as culturas orientais pode ser um fator de autocrítica às atitudes prepotentes de domínio demiúrgico da humanidade sobre o planeta. Os ocidentais podem aprender com os orientais os valores da gratuidade e da serenidade meditativa como atenuantes da vontade de poder e de domínio. “Contra os perigos de um mundo unidimensional sob o signo da modernidade técnica, as tradições religiosas
338 Id. Ibid., p. 23. 339 Id. Ibid., p. 24.
podem desempenhar um papel essencial para conservar e desenvolver a riqueza diversificada das culturas.”341 O encontro entre as religiões pode ajudar no cultivo do respeito e da
preservação da alteridade plural inter-cultural.
2.3 A RESPONSABILIDADE DA TEOLOGIA CRISTÃ NA ERA DO PLURALISMO