A exceção de contrato não cumprido é regra de caráter praticamente universal e enuncia que a parte inadimplente não pode exigir da outra o adimplemento da obrigação por esta assumida, sob pena de violação ao equilíbrio contratual. 180
Orlando Gomes ressalta ser a exceção de contrato não cumprido exceção dilatória, qualificada como direito potestativo ou contradireito, pela qual o excipiente paralisa a ação
180 Interessante a abordagem desta matéria trazida por Rafael Villar Gagliardi em dissertação de mestrado
orientada pelo Professor Renan Lotufo na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Segundo este autor, “a exceção de contrato não cumprido é exceção substancial, dilatória e pessoal, por meio da qual o excipiente opõe- se à exigência do cumprimento de uma obrigação sinalagmática, negando-lhe a eficácia, embora não a exigência, sob o fundamento do inadimplemento do excepto e o signo da simultaneidade do cumprimento, ou descumprimento pretérito pelo excepto, nas relações de trato sucessivo. Embora satisfatório, esse conceito merece os acréscimos colhidos do estudo da influência da função social do contrato na matéria, para refletir na questão das redes contratuais. Como visto não só o inadimplemento do co-contratante naquele mesmo contrato em que prevista a prestação, enseja a exceção. Também o faz o inadimplemento de obrigação irradiada de outro contrato, mesmo que por outro contratante, quando se tratar de contratos coligados por nexo de dependência, e as prestações puderem ser reconduzidas a uma relação de causalidade recíproca, de modo que o descumprimento importe perturbação do equilíbrio supracontratual. Em síntese cabe a exceção desde que haja um contato, ou uma proximidade social, que justifique a aproximação de terceiros qualificados (partes apenas de um contrato coligado) à qualidade de parte do próprio contrato, cuja prestação se recusa devido ao inadimplemento alheio. Com isso os requisitos para a oposição legitima da exceção de contrato não cumprido podem ser passados em revista e elencados como a existência de uma relação sinalagmática – inclusive aquela formada por uma rede contratual -, a coetaneidade de prestações, o inadimplemento (por conta dos deveres laterais), quanto à função de controle e abusividade da oposição, exercendo neste último ponto, papel ponderador dos inadimplementos contrapostos. GAGLIARDI, Rafael Villar, op. cit., p. 272-273.
do excepto, tornando seu crédito inexigível181. Já segundo o Professor Limongi França, a exceção de contrato não cumprido consiste no “direito que tem uma das partes do contrato sinalagmático (bilateral), de se recusar ao cumprimento de sua obrigação, antes que o outro contratante execute, por sua vez, a obrigação que lhe diz respeito”.182
Trata-se justamente do disposto pelo artigo 476 do Código Civil que enuncia: “nos contratos bilaterais, nenhum dos contratantes, antes de cumprida a sua obrigação pode exigir o implemento da do outro.”
Há também a exceptio non rite adimpleti contractus, aplicável às hipóteses de
adimplemento parcial ou incompleto, bem como para o caso de adimplemento defeituoso, em que há cumprimento em desacordo com os princípios da identidade e integralidade.183
Ambas as hipóteses têm como fundamento a interdependência exata das prestações, a fim de impedir que uma das partes venha a beneficiar-se com o próprio inadimplemento.
Por este motivo, é correto afirmar que a teoria do adimplemento substancial se aplica na exceção de contrato não cumprido, quando esta for sustentada para a hipótese de execução defeituosa, incompleta ou deficiente, isto é, em caso de exceptio non rite adimpleti contractus.
Entretanto, em se tratando de exceptio non adimpleti contractus, em que nada do devido se cumpriu, inegável será a gravidade do descumprimento considerado em si mesmo, o que viabiliza o exercício da exceção.
181 GOMES, Orlando. Contratos. 26.ed. Rio de Janeiro: Forense, 2007, p.110.
182 FRANÇA, R. Limongi. Manual de direito civil. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1969, v.4, tomo II. p.62 183 Segundo Orlando Gomes: “admite-se ao lado da exceptio non adimpleti contractus, a exceptio non rite
adimpleti contractus. A primeira para o caso de inadimplemento da obrigação. A outra para a hipótese de
cumprimento incompleto, seja porque o devedor somente tenha satisfeito, em parte, a prestação, seja porque o a cumpriu de modo defeituoso. Sempre que a obrigação não é cumprida pelo modo devido, a outra parte pode recusar-se a cumprir a sua até que seja completada ou melhorada pertinentemente. A exceptio non rite adimpleti
contractus é, no fundo, a mesma exceptio non adimpleti contractus, dado que o cumprimento parcial, inexato ou
defeituoso, equivale a inadimplemento total. Difere, porém, nos efeitos, incumbe a prova ao contraente que não cumpriu a obrigação. Havendo execução incompleta, deve prová-la quem invoca a exceção, pois se presume regular o pagamento aceito.” GOMES, Orlando, op. cit., p.110.
Dessa forma, infere-se que será abusivo o uso de tal exceção se o descumprimento da parte que está exigindo a prestação for leve, de escassa importância para a economia do contrato. Na verdade, se o inadimplemento for de escassa importância mantém-se o vínculo contratual e não se permite que o contratante não inadimplente busque dissolver o contrato, ficando vedado ainda alegar abusivamente o leve descumprimento contratual para não cumprir a prestação que lhe cabe.
Nesse sentido, tem-se o disposto pelo art. 1460, segunda parte, do Código Civil italiano que não permite a utilização da defesa dilatória quando ela é contrária à boa-fé.184 Nos termos desse dispositivo, veda-se a aplicação da exceção de contrato não cumprido a todas as hipóteses em que possa tal defesa ser contrária ao dever de lealdade e de correção imposto pelo princípio aos contratantes, de acordo com as circunstâncias do caso concreto.
Em outros termos, acaba por ser contrário à boa-fé valer-se da exceção naqueles casos em que o descumprimento não for grave e não atingir a função econômico-social do contrato. Na Itália, a valorização do inadimplemento na hipótese da exceção de contrato não cumprido deve ser feita levando em consideração o critério contido no art. 1455 do Código Civil italiano, ou seja, se o inadimplemento afeta diretamente o interesse na manutenção do contrato. Somente se justifica a exceção do contrato não cumprido o inadimplemento que incida na função econômico-social do contrato.185
Por tudo quanto exposto, conclui-se que a teoria do adimplemento substancial se aplica nos casos de exceptio non rite contractus. Entretanto, instado a manifestar-se sobre o assunto, o Poder Judiciário necessariamente deverá valorar a gravidade do descumprimento ocorrido e só permitir que a exceção se opere quando o mencionado incumprimento for relevante e grave para a economia do contrato.
184 in verbis: “Art. 1.460. (Eccezione di inadempimento). Nei contratti com prestazione corripettive, ciascuno dei
contraenti può rifiutarsi di adempieri la sua obligazione, se l’altro non adempie o non affre di adempieri contemporaneamente la propria, salvo che termini diversi per l’adempimento siano stati stabiliti dalle parti o risultino dalla natura del contratto. Tuttavia, non può rifiutarsi la esecuzione se, avuto riguardo alle circonstanze, il rifiuto è contrario a buona fede.”