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O jornalista é um contador de histórias. Para contá-las, sempre precisou aliar habilidades e recursos, sejam esses humanos, como a voz e as mãos, ou técnicos, como a prensa tipográfica. Cada época tem suas especificidades, as quais acabam por influenciar a seguinte. O livro e o jornal, o telégrafo e o telefone, o rádio e a TV. Nos últimos anos, o computador, sobretudo a Internet e a web, estão alterando todas as outras mídias. Faz parte do aprimoramento da técnica jornalística a (re)adaptação das histórias, mais especificamente das linguagens, conforme o meio pelo qual será contada. Hoje, uma das principais transições gira em torno da web. Uma vez que as histórias estão sendo digitalizadas, é necessária a construção de uma nova linguagem, que tanto deve ser compreendida pelos produtores (jornalistas), quanto pelos receptores (usuários).

Quando se usa a figura do jornalista como contador de histórias, é preciso ressaltar que a “essência do jornalismo é a informação da atualidade, ou seja, de fatos, situações e idéias que estão ocorrendo, desenrolando-se ou atuando em e sobre determinada comunidade no momento preciso de sua manifestação”; portanto, não são considerados os documentos que objetivam narrar eventos relacionados à história: “A não ser quando uma ação do presente atualiza situações passadas, o sucedido temporal é objeto da História” (BELTRÃO, 1980, p. 11).

Com a analogia do contador de história, originada da expressão storyteller, do inglês, e ainda da palavra story, equivalente à matéria, pretende-se representar o jornalista como aquele sujeito que conta história(s), faz a etnografia do presente.

São freqüentes as remissões a Heródoto, considerado o pai da História, como sendo também o repórter da história, pois os métodos/técnicas utilizados

por ele para contar a história do século V continham muitas similaridades com o que se convencionou chamar de jornalismo88.

Hoje, os suportes se justapõem de modo que há várias possibilidades de se contar histórias. Histórias que seguem modelos de redação, rotinas de produção e princípios, os quais indicam se determinada informação deve ou não tornar-ser notícia.

Quando o jornalismo surgiu no século XVII89 a realidade não era essa. A fase mais remota tem um caráter amador e, por essa razão, localiza-se nas chamadas Pré-história do jornalismo (de 1631 a 1789) e Primeiro jornalismo (de 1789 à metade do século 19). Os anos iniciais caracterizam-se por uma economia simples que gera uma produção artesanal de formato semelhante ao livro (MARCONDES FILHO, 2000, p. 11).

Historiadores indicam a importância de se observar dois períodos: as Idades Antiga e Média e os tipos de comunicação existentes em cada um. “Quanto mais democrática uma sociedade, maior é a tendência de dispor de mais notícias e informações”; por esse motivo, “à medida que as sociedades se faziam mais democráticas, inclinavam-se na direção de um pré-jornalismo”. Na democracia da Grécia, havia o jornalismo oral, no qual era exposto tudo aquilo considerado de interesse público. Também se produzia um relatório diário, a Acta Diurna, papiros disponíveis em locais públicos que continham a transcrição de acontecimentos públicos e sociais. Já, na Idade Média, as “notícias impressas tornam-se a cada momento mais raras devido ao caminho autoritário e violento que as sociedades tomam” (KOVACH; ROSENSTIEL, 2003, p. 36-37).

O estágio seguinte é conhecido pela produção de conteúdo literário e político e também pela deficitária conjuntura econômica. Há uma significativa

88 “Heródoto procurou contar a história do século V como se fosse um repórter, observando,

fazendo entrevistas e anotando. Levando em conta primeiro lugar o que viu, em segundo o que ouviu de quem viu, e depois o que os pais haviam passado para os filhos. Onde chegava queria saber de tudo, como viviam as famílias, o que comiam, o que plantavam” (SMOLKA, apud CALDAS, 2002, p. 35).

89 De acordo com Lage, na obra

contribuição de textos críticos assinados por escritores, políticos e intelectuais, conhecidos também como publicistas90 (MARCONDES FILHO, 2000, p. 11).

Devido a essa herança, a figura do jornalista oscila entre um caráter romântico91 e outro mais técnico. Há quem diga que não se faz mais reportagem92

como antigamente, ou precisamente, como no período chamado de Segundo jornalismo (de 1830 a 1900). A inovação tecnológica passa a interferir na consolidação do jornal como empresa capitalista e símbolo da imprensa de massa (com ênfase ao entretenimento). Cria-se a reportagem e os ícones gráficos, como as manchetes, a fim de direcionar a leitura. Tem-se o início da utilização da publicidade e do processo de profissionalização dos repórteres, que passam a ser contratados pelos jornais. “As décadas de 80 e 90 foram de certo modo a continuação da Penny Press93, com muito sensacionalismo e hegemonia dos fatos sobre o comentário” (AMARAL, 1996, p. 31).

Ao mesmo tempo em que há esse esforço dos grandes jornais, a comercialização, que se fortalece na segunda metade do século XIX, conduz a um processo intenso de manipulação. A fim de cessar essa atividade, que comprometia a credibilidade do jornal, foi criado um espaço (de comentários e artigos de fundo) para manifestação da opinião. Uma nova forma de apresentar

90 “Por muitas décadas, o jornalista foi essencialmente um publicista, de quem se esperava

orientações e interpretação política. Os jornais publicavam, então, fatos de interesse comercial e político [...] mas isso era visto como atração secundária, já que o que importava mesmo era o artigo de fundo, geralmente editorial, isto é, escrito pelo editor – homem que fazia o jornal praticamente sozinho. [...] a linguagem dominante ficava entre a fala parlamentar, a análise erudita e o sermão religioso” (LAGE, 2001b, p. 10).

91 No artigo “O desafio do velho jornal é preservar seus valores”, Caldas faz um resgate das

modificações na redação e na atividade jornalística a partir do processo de modernização que inicia na década de 1980 no Brasil: “surgiu uma nova empresa jornalística multimídia, com gerenciamento profissional, voltada para a eficiência administrativa, o mercado e a competição” (2002, p. 18). O autor lembra que “não faz tanto tempo assim o jornalismo era visto como atividade romântica, improvisada e boêmia, e o jornalista, um profissional que cumpria suas tarefas com liberdade e um sentido de missão” (2002, p. 18). Caldas também descreve com nostalgia o ambiente da redação no período pré-modernização no qual os repórteres podiam conversar, fumar dentro da ruidosa redação que contava com as velhas máquinas de escrever: “a redação tornou-se limpa, asséptica, assumiu ares de um moderno escritório onde se fala baixo, cada repórter em sua mesa com seu computador” (2002, p. 19).

92 De acordo com Sodré (1986), reportagem é uma extensão da notícia e, por excelência, a forma

narrativa do veículo impresso, e constitui um dos gêneros jornalísticos.

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Penny Press representa uma época em que os jornais diários eram vendidos ao preço de um

centavo de dólar nos Estados Unidos e na Inglaterra. “Em 1833, Benjamin Day lançou o primeiro jornal de grande audiência a um custo baixo. Chamado de New York Sun, este jornal era vendido for a penny” (STRAUBHAAR, 2006, p. 90) .

interpretação, sem abrir mão da notícia com isenção. Nova orientação que deu certo e aumentou as vendas.

O leitor escolhe o jornal por identificação. As negociações comerciais ficam mais fáceis. “Estava aberto o caminho para o surgimento de grandes e sólidas empresas, dos enormes conglomerados que constituem, hoje em dia, os impérios jornalísticos” (AMARAL, 1996, p. 35).

Também datam desse período “as características originais da atividade jornalística: a busca da notícia, o furo, o caráter de atualidade, a aparência de neutralidade, em suma, o caráter libertário e independente” (MARCONDES FILHO, 2000, p. 14).

A pressão econômica e as definições ideológicas dos grupos de comunicação começam a prevalecer no denominado Terceiro jornalismo (de 1900 a 1960). Predomínio de uma imprensa monopolista, marcada por grandes tiragens, que sofre influência das ações das relações públicas e da indústria publicitária, e ainda das determinações políticas de grupos editoriais que monopolizam o mercado.

Esse estágio abre caminho para o Quarto jornalismo (de 1960 em diante). Crise da imprensa escrita e predomínio da informação eletrônica, denominada interativa. Ampla utilização da tecnologia e mudanças das funções do jornalista, causadas, sobretudo, pela velocidade na transmissão de informações e pela valorização do visual (MARCONDES FILHO, 2000, p. 14-15).

O quarto jornalismo (MARCONDES FILHO, 2000) corresponde ao surgimento do “novo quarto media”, cibermídia (TRAQUINA, 2001, p. 51). Um tipo ou estilo de jornalismo que está sendo construído ao longo de mais uma década e que está sendo considerado como uma importante transição em termos de comunicação contemporânea: “O Jornalismo está experimentando uma transformação fundamental, talvez a mais importante desde o surgimento da Penny Press no meio do século dezenove” (PAVLICK, 2001, p. xi).

As razões dessa afirmação são as de que essa nova forma de jornalismo incluiria: “ubiqüidade das notícias, acesso global a informação, instantaneidade

reporting, interatividade, conteúdo multimídia e conteúdo customizado” (PAVLICK, 2001, p. xi), ou seja, a concentração de recursos, alguns inéditos, em um único jornalismo.

Assim, como será visto com ênfase no quarto capítulo, a partir do estudo de caso do portal de conteúdo clicRBS, uma das hipóteses deste trabalho seria de que a web 2.0, a convergência digital e alguns recortes da cibercultura (as mobilizações que contam com a participação do público/audiência, ou seja, o chamado bottom-up) interferem diretamente na construção dessa linguagem, que parece estar sempre em movimento.

Benzer Belgeler