Se a censura causa a destruição prática dos direitos previstos na constituição com maior expressividade após 1922, cujo marco é o assassinato do ministro Walter Rathenau, observamos que ela já tem suas raízes alguns anos antes desse acontecimento. Podemos traçar um breve panorama da censura também a partir do texto “A charrua de Vênus”, cuja autoria é de Ignaz Wrobel e que traz o erotismo na literatura como tema central.
Dentre os heterônimos de Tucholsky, Wrobel se destaca nas discussões acerca dos principais acontecimentos políticos. Essa abordagem também se torna freqüente quando o crítico elabora seus textos de crítica literária, como observamos no seguinte trecho:
Quando, às vezes, por não conseguir de modo algum dormir, folheio com esta intenção as antigas edições do “Schaubühne” e do “Weltbühne”, então percebo que então percebo que seria bom possivelmente reimprimir na seqüência, lentamente, tudo isso de novo – nossos antigos ensaios, as glosas de meu amigo Wrobel e os poemas do meu conhecido distante Tiger. É atual e permanece atual. Os funcionários públicos subalternos da Prússia, a polícia de Berlim, a censura, a escola com o professor superior e que hoje se denomina conselheiro estudantil, ou seja, mudou o título, mas as funçõezinhas continuam: como outrora no mês de maio prussiano e imperial – como outrora em maio... Também o comportamento dos juízes e promotores contra os produtos da arte e contra obras semelhantes – isso não se modificou (TUCHOLSKY 1993b: 77).81
No excerto acima, o crítico utiliza o sarcasmo na construção de algumas de suas críticas. A ferramenta do sarcasmo introduz a defesa de um tema, o qual pode dar às suas palavras uma falsa tomada de posição, revelando gradualmente sua verdadeira faceta no decorrer de suas idéias. Enquanto Panter utiliza a ironia como um recurso para finalizar vários de seus textos críticos e constrói, muitas vezes, uma “auto-ironia” para romper o limite da seriedade e expandir o alcance de seu ataque, Wrobel lança mão do sarcasmo crítico diante da sociedade alemã para hostilizar de forma mais direta e contundente.82 Como vimos nas discussões anteriores, o efeito da obra de arte literária no leitor é a principal preocupação de Panter – e nada melhor do que o uso da ironia para tal; já para Wrobel a obra literária desempenha o papel de instrumento de crítica ao sistema judiciário e político.
81 “Wenn ich manchmal, so ich überhaupt nicht einschlafen kann, zu diesem Behufe die alten Jahrgänge der ‘Schau’- und der Die Weltbühne durchblättre, dann merke ich, daß es wohl möglich wäre, unsre alten Aufsätze, die Glossen meines Freundes Wrobel, die Gedichte meines entfernten Bekannten Tiger - all das langsam der Reihe nach unverändert wieder abzudrucken. Es ist aktuell und bleibt aktuell. Der preußische Subalternbeamte, berliner Polizei, die Zensur, die Schule mit dem Oberlehrer, der sich heute Studienrat nennt, also den Titel, aber nicht die Röllchen gewechselt hat -: wie einst im königlich preußischen Mai - wie einst im Mai . . . Auch das Verhalten der Richter und Staatsanwälte gegen Produkte der Kunst oder kunstähnliche Erzeugnisse - es hat sich nicht gewandelt”.
82 A diferença entre ironia, recurso utilizado por Panter, e sarcasmo, arma de Wrobel, consiste no fato desse último conter alusão mais explícita àquilo que se refere, o que resulta numa “derrisão desabrida”, enquanto a ironia trabalha com as idéias no nível da polissemia semântica. SIMÕES JR., Álvaro Santos.
A sátira do Parnaso: Estudo da poesia satírica de Olavo Bilac publicada em periódicos de 1894 a 1904.
Através das palavras do crítico, para quem os vários e tempestuosos anos não serviram para alterar a forma de pensar da estrutura hierárquica alemã (um fator que pode ser melhor explanado se observado à luz de ramos das ciências como a história, visto que o episódio da Primeira Guerra Mundial – 1914-1918 – permeia, de alguma forma, o referido periódico), percebemos que a censura não é algo novo nem exclusivo a partir de 1919: o nascimento da república marca também o inicio de um novo momento histórico – conseqüentemente, político –, o qual se reflete na literatura, como observamos nessa segunda parte. Entretanto, se há a censura, ela já tem seus passos registrados antes de 1921 e fortalecidos após 1922 de forma mais expressiva.
Para Wrobel, a censura influencia diretamente tanto o momento da produção quanto do da recepção artística, pois gera empecilhos à liberdade de criação literária vinculada à forma de abordar um tema, neste caso, o erotismo, e também à liberdade de escolha de tais obras pelos leitores. Ao criar empecilhos à criação e veiculação dessas obras, impõe-se uma forma de comportamento que se depara justamente com a liberdade de expressão/opinião garantida por lei e um padrão de gosto baseado em modelos hierárquicos de leitura.
O pequeno caderno dá um panorama histórico excelente, escrito serena e pragmaticamente, da literatura erótica, terminando com uma crítica direta e fulminante à realidade judiciária alemã. Com razão. Tenho de admitir que é uma situação insensata se, em relação aos quadros de Corinth∗ ou de Zille,∗∗ em relação a bons romances que
tratam rigorosa e energicamente o tema não totalmente desinteressante do erotismo, se em relação a tais publicações for mobilizado, toda vez, pela defesa, um exército de peritos, que costumeiramente é desprezado pelo melhor tribunal consciente (Idem, ibidem: 77).83
O valor da obra discutida por Wrobel, Unsittliche Literatur und die deutsche
Republik (Literatura imoral e a República Alemã), está tanto na abordagem da literatura
erótica quanto na crítica à justiça alemã. Ora, encontram-se na referida obra os parâmetros de julgamento adotados por Wrobel no que se refere à realidade judiciária
∗ Lovis Corinth (1858-1925). Pintor impressionista e artista gráfico que se tornou, em 1915, responsável pelo Berliner Sezession.
∗∗ Heinrich Zille (1858-1929). Desenhista alemão.
83 “Das kleine Heft gibt einen ausgezeichneten, ruhig und sachlich geschriebenen historischen Aufriß der erotischen Literatur und endet mit einer gradezu vernichtenden Kritik der deutschen Gerichtspraxis. Mit Recht. Ich muß sagen, daß es ein würdeloser Zustand ist, wenn für Bilder von Corinth oder Zille,für gute Romane, die das immerhin nicht ganz unwichtige Thema der Erotik straff und scharf behandeln - daß für solche Publikationen von der Verteidigung jedes Mal ein Heer von Sachverständigen aufgeboten wird, das gewöhnlich von dem besser wissenden Gericht geringschätzig abgelehnt wird”.
alemã; e se tal obra é fortemente censurada, juntamente com pinturas, as palavras do crítico atuam como uma contra-corrente a esse sistema de censura, buscando a função da obra literária como forma de expressão também política.
Isso se dá independentemente do tema escolhido por um autor. O erotismo possui dois lados de representação – pode mostrar-se interessante ou não, sendo que sua importância maior reside em ser passível de abordagem artística – e desempenha a função de pano de fundo para o sentido mais direto desse texto, que visa a discutir a produção artística e sua relação com o momento político em que se insere.
Num sentido lato, pode-se observar nessa censura “censurada” por Wrobel o desenvolvimento de um embrião gerado desde o início da segunda década do século XX, na qual ocorre a Primeira Grande Guerra. Ao observar outros textos em prosa de Tucholsky, Panter, Wrobel e Hauser – sejam eles políticos ou literários – nota-se que a crítica à censura exercida pelo Estado monárquico e, posteriormente, republicano, ocorre com freqüência.
Assim, o maior desenvolvimento da censura na década de 1920 no interior da República de Weimar não é um acontecimento singular, e sim, dentre outros fatores, o resultado de uma política cujo comando difere-se apenas superficialmente, mas contém sombras que a permeiam até o momento final da ordem política, em 1933. A leitura dos textos críticos de Tucholsky e seus heterônimos, assim como de outros artistas do período, pode mostrar várias facetas dos “dourados anos vinte” na Alemanha – os quais, sem dúvida, não podem justamente por isso ser considerados tão dourados.
Ao retornarmos ao texto de Wrobel, encontramos as seguintes palavras:
Não leva a nada aqui – como sempre – discutir como é falso – de um prisma filosófico, etnográfico e ético – este julgamento artístico, terminantemente repugnante, dos tribunais alemães, os quais reagem a tudo o que é sexual com indignação, de modo que obrigam alguém a pensar que algo diferente estivesse escondido lá atrás do que somente a sensação de eunuco. E está também (Idem, ibidem: 77-78).84
O julgamento de valor artístico pronunciado pelos tribunais alemães não permite nenhum tipo de manifestação do que envolve temas sexuais, rompendo o limite do que se relaciona à arte – neste caso, literatura –, e não encontra fundamentos em nenhuma
84 “Es führt ja zu nichts, hier – immer mal wieder – auseinanderzusetzen, wie falsch, philosophisch, ethnographisch und ethisch gesehen, diese gradezu widerwärtige Kunstbeurteilung der deutschen Gerichte ist, die auf alles Geschlechtliche mit einer Gereiztheit reagiert, daß einem der Gedanke kommen muß, es liege dahinter noch andres als nur das Empfinden von Eunuchen verborgen. Liegt auch”.
área de reflexão: o que predomina nada mais é do que a demonstração e o exercício de poderes no setor judiciário.
Vejamos, agora, outro trecho importante da crítica.
Certamente existem obras que ofendem os sentimentos de pudor. A pergunta é: onde estão à venda e para quem se destinam? Uma escala absoluta não existe. (E a oficial é a última em valor). A insolente mentalidade das administrações públicas alemãs, a estratégia muito desagradável dos tribunais adotarem procedimentos objetivos em casos duvidosos e de apreenderem apenas o livro e torná-lo inutilizável sem incomodar o autor, e sem igualar, cultural e artisticamente, a ofensa petulante que há em “Com vara e açoite pelos pensionatos femininos húngaros”, os importantes volumes de novelas: esta é minha Alemanha, a terra dos §§! [dos regulamentos] (Idem, ibidem: 78).85
Ao discutir as diferentes formas de abordagem literária do erotismo, Wrobel traça um percurso discursivo que parte do sarcasmo introdutório à seriedade crítica sócio-política: a forma – ou escala – de julgamento da temática erótica na literatura não deve, certamente, encontrar-se no meio oficial. Quando o crítico indica que há controle das formas de manifestações artísticas pelos órgãos oficiais, então podemos analisar a forte censura do início da década de 1930 como o resultado desse momento. A medida para a avaliação, que passa pela voz do crítico, também não deve ser a última como padrão de gosto: a liberdade de escolha do que se deseja ler é mais importante, para Wrobel, do que uma avaliação final do próprio crítico.
Um outro ponto notório no trecho acima é a referência ao uso dos abundantes parágrafos da constituição. Os órgãos que deveriam fazer com que os mesmos parágrafos fossem usados de forma correta emperram a máquina judiciária e estendem sua área de domínio. Esse fato é visto, por fim, com pessimismo pelo crítico, para quem, mesmo após sua análise sobre o erotismo na construção da obra de arte literária em confronto com a censura, há a continuidade da situação, como observamos na seqüência:
85 “Es gibt sicherlich Werke, die das Schamgefühl verletzen. Es fragt sich, wo sie ausliegen, und für wen sie bestimmt sind. Ein absoluter Maßstab existiert nicht. (Und der behördliche ist der letzte an Wert.) Die überhebliche Art der deutschen Verwaltungsbehörden, die sehr unangenehme Strategie der Gerichte, in Zweifelsfällen das objektive Verfahren einzuleiten und nur das Buch zu beschlagnahmen und unbrauchbar machen zu lassen, ohne den Autor anzurühren, die freche Beleidigung, die darin steckt, ‘Mit Rute und Peitsche durch ungarische Mädchenpensionate’ kulturell und künstlerisch wichtigen Novellenbänden gleich zu stellen: das ist mein Deutschland, das Land der §§!”
Este ensaio custará o salário de diretor de tribunal de primeira instância? Será que alguém precisa se pronunciar apenas depois? Podemos prejudicá-lo na carreira, no funcionamento do aparelho, entre os colegas? Não. Portanto tudo fica como antes (Idem, ibidem: 79).86
A literatura imoral e a república alemã é o título da obra que serve de mote para
a crítica, na qual observamos o papel do erotismo na obra literária com confronto com um determinado aspecto social – a saber, a censura. Esta ainda é o centro das discussões de Wrobel nos textos seguintes; entretanto, na esfera das artes plásticas dadaístas.
A seguir buscamos ampliar as discussões de Wrobel – com o auxílio de um texto Peter Panter referente ao tema – sobre as manifestações artísticas diante da censura e as idéias do crítico quanto à postura dadaísta contrária ao espírito militar no início da década de 1920. Para tanto, abordamos os seguintes textos: “Dada”, de Peter Panter, veiculado em julho de 1920 no periódico Berliner Tageblatt; “Der kleine Geßler und der große Grosz” (O pequeno Geßler e o grande Grosz), de Ignaz Wrobel, escrito em agosto de 1920 no periódico Freiheit; “Dada-Prozeß” (O processo Dada) e “Fratzen von Grosz” (As caretas de Grosz), também de Ignaz Wrobel, veiculados no Die Weltbühne em abril e agosto de 1921, respectivamente. Esses textos nos mostram também as funções da imprensa no período, que se mostra, como observamos no decorrer dessa terceira parte, ainda bastante sob o comando do governo – para não dizer sob a égide dos militares.
Dentre os textos selecionados, dois deles tematizam o lançamento de um conjunto de pinturas de Grosz, como “O pequeno Geßler e o grande Grosz”, referente à pasta com ilustrações intitulada Deus conosco, e “As caretas de Grosz”, sobre a obra A
face da classe dominante; os outros dois são “compêndios” à repercussão das obras e
exposições do grupo dadaísta. Acreditamos que esses textos críticos sobre artes plásticas sejam uma pequena contribuição para a compreensão do dadaísmo, visto que as análises desses críticos da época revelam outras formas de compreensão do cenário político e cultural em que se insere o movimento.
3.2 As artes plásticas e a censura.
86 “Kostet dieser Aufsatz einem Landgerichtsdirektor die Pension? Braucht sich auch nur einer danach zu richten? Können wir ihm in der Karriere, in der Geltung beim Apparat, unter den Kollegen schaden? Nein. Also bleibt alles beim Alten”.