Collière (1999, cit. por Agostinho, 2010) refere três etapas na história da Enfermagem. A primeira engloba os tempos mais recuados da história até à Idade Média na sociedade ocidental, onde a prática de cuidados é associada à mulher, símbolo da fecundidade e em que os conhecimentos passavam de mulher para mulher e de geração para geração. A prática de cuidados era associada aos cuidados maternos.
A segunda etapa, da Idade Média até final do século XIX, em que a prática de cuidados é identificada com as mulheres religiosas, consagradas, que renunciando à vida de mulher enquanto procriadora se dedicavam à caridade como caminho para a santificação, cuidando dos irmãos e de quem estava doente como caminho para chegar a Deus. A prática de cuidados baseava-se assim em valores religiosos e moralistas. Na Idade Média os cuidados de enfermagem estavam, pelos motivos enunciados, centralizados nos mosteiros (Vieira, 2009).
Nos finais do século XIX, segundo Vieira (2009) uma jovem inglesa, Florence Nightingale, sente o “chamamento de Deus” para o serviço aos doentes e começar a estudar. Este é de facto um nome incontornável na história da enfermagem sendo a ela que é atribuída a primeira reforma ou revolução nesta área e o surgimento da Enfermagem Moderna já que defendeu uma formação específica, com base científica e uma
31 padronização da linguagem (Vieira, 2009, p.20). O nome Nightingale tem uma importância fulcral na área da enfermagem devido a uma sistematização de um campo de conhecimentos, tendo-se instituindo como uma “nova arte e nova ciência” para a qual era preciso uma educação formal e organizada sobre bases científicas. Com Florence Nightingale assistiu-se a uma reelaboração da natureza do trabalho de Enfermagem, onde se defendeu uma formação específica e se definiu a função de enfermeira como aquela que agia sobre a pessoa e o ambiente (Agostinho, 2010, p.52). É a ela que também se deve a fundação da primeira escola de Enfermagem, em 1860, no Hospital de St. Thomas em Londres (Lopes, 2001, citado por Agostinho, 2010). O objetivo da Enfermagem passou a ser a manutenção da saúde da pessoa em todas as suas dimensões.
O primeiro curso de enfermagem científica em Portugal surge em 1881, pelo então administrador dos hospitais da Universidade de Coimbra, professor doutor António Augusto Costa Simões, criando a Escola dos Enfermeiros de Coimbra. Surge assim o primeiro curso no Hospital de Coimbra, em 1886, no hospital de Lisboa e em 1887, no Hospital do Porto (Ferreira, 1990).
A partir daí os cuidados de enfermagem adquirem um carácter de trabalho técnico assistencial.
Ao longo dos anos e sobretudo nos últimos, a enfermagem em Portugal tem sofrido uma grande evolução, quer no que concerne à própria formação, quer no que se refere à complexidade e ao reconhecimento desta atividade profissional (OE, 2008).
No ano de 1974, ano da revolução de abril, existiam em Portugal cerca de 3000 enfermeiros, embora coexistissem um maior número de auxiliares de enfermagem (cerca de 15 mil), pela menor exigência de tempo de formação. No entanto, em 1975, as escolas terminam a ministração dos cursos de auxiliares, proporcionando o Curso de Promoção de Auxiliares de Enfermagem a Enfermeiros, com vista à criação de uma carreira única e um único nível de formação (OE, 2008).
Com a publicação do Decreto-Lei 305/81 é instituída a carreira única para todos os enfermeiros denominada “Carreira de Enfermagem”, definindo simultaneamente cinco categorias profissionais, entre as quais se encontra a de enfermeiro especialista (OE, 2008). Em 1988, o Decreto-Lei nº 480/88 de 23 de dezembro integra o ensino da Enfermagem no Sistema Educativo Nacional.
Mais tarde, o Decreto-Lei nº 437/91 de 8 de novembro cria uma nova Carreira de Enfermagem, através da qual são definidas três áreas de atuação, designadamente a prestação de cuidados, gestão e assessoria. Perante a inexistência de um instrumento jurídico que regulamentasse o exercício profissional da Enfermagem, é aprovado em 1996 o
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Regulamento do Exercício Profissional dos Enfermeiros (REPE) e publicado o Decreto-Lei nº 161/96 de 4 de setembro que com a referida regulamentação jurídica clarifica conceitos, intervenções e funções, assim como os aspetos básicos dos direitos e deveres dos enfermeiros.
Atualmente, a formação de enfermeiros em Portugal é ministrada apenas em instituições do ensino superior, quer no setor público, quer no setor privado, nos subsistemas politécnico e universitário. No entanto, na enfermagem, a passagem do grau de bacharel a licenciado ocorre apenas no final dos anos 90, mais concretamente através da publicação do Decreto-Lei nº 353/99 de 3 de setembro, sendo aí referenciado que o Curso de Licenciatura em Enfermagem tinha como objeto “assegurar a formação científica,
técnica, humana e cultural para a prestação e gestão de cuidados de enfermagem gerais ao longo do ciclo vital, à família, grupos e comunidade, nos diferentes níveis de prevenção”
(artº 5º, p. 6199). O curso visava ainda “assegurar a formação necessária: à participação na
gestão dos serviços, unidades ou estabelecimentos de saúde; a participação na formação de enfermeiros e de outros profissionais de saúde; ao desenvolvimento da prática de investigação no seu âmbito” (idem). A partir daí, o curso e Licenciatura em Enfermagem
teria a duração de quatro anos. Este marco representou um ganho e um progresso para esta profissão, mas também o enfrentar de novos desafios associados ao aprofundar da prática da enfermagem e à necessidade de reorientar a sua atuação (Rebelo, 2002).
No decurso deste processo, houve que, tal como nos restantes cursos em Portugal, adequar os princípios decorrentes do Processo de Bolonha (valorização da formação ao longo da vida), tendo também um papel ativo a Ordem dos Enfermeiros, que havia sido criada em 1998 e o seu estatuto aprovado através do Decreto-Lei nº104/98 de 21 de abril, algo pelo qual os enfermeiros tanto ambicionavam. Foi assim criada a associação profissional de direito público que é responsável pela “regulamentação e disciplina da
prática dos enfermeiros, em termos de assegurar o cumprimento das normas deontológicas que devem orientar a profissão, garantindo a prossecução do interesse público e a dignidade do exercício da Enfermagem” (p. 1740).
De facto, a Ordem dos Enfermeiros assumiu um papel decisivo no desenvolvimento da prática de Enfermagem desde 1999. Entre as suas atribuições destacam-se: promover a qualidade dos cuidados de enfermagem; regulamentar e controlar o exercício da profissão de enfermagem e assegurar o cumprimento das regras de ética e deontologia profissional. Anexado aos Estatutos da Ordem há a salientar igualmente o Código Deontológico, constituído por um conjunto de deveres e responsabilidades dos profissionais de enfermagem (OE, 2008).
33 A Ordem dos Enfermeiros, a partir do ano 2000 passa então a exigir a licenciatura para o acesso ao exercício profissional e indispensável para o início da atividade profissional autónoma. Este organismo tem, efetivamente, assumido uma primordial importância, constituindo o bastião em que se fundamenta o crescimento e a afirmação profissional da enfermagem, “proporcionando a estruturação e consolidação de saberes que lhe são
próprios, estimulando simultaneamente o desenvolvimento de competências” (Arco, 2005,
p. 10).
A criação da Ordem dos Enfermeiros permitiu que esta se constituísse como um pilar do desenvolvimento da Enfermagem e instrumento da qualidade dos cuidados. Esta emite dois títulos profissionais diferentes: enfermeiro e enfermeiro especialista, sendo que o título de enfermeiro reconhece competência científica, técnica e humana para prestar cuidados de Enfermagem gerais a indivíduos, família e comunidade, aos três níveis de prevenção. O título de enfermeiro especialista “reconhece a competência científica, técnica e humana para prestar, além de cuidados gerais, também cuidados especializados numa dada área clínica, designadamente Enfermagem de Saúde Materna e Obstétrica, Enfermagem de Saúde Infantil e Pediátrica, Enfermagem Comunitária, Enfermagem de Reabilitação, Enfermagem Médico-Cirúrgica, sendo este título atribuído aos profissionais que já têm o título de enfermeiro e que concluíram um curso de pós-licenciatura de especialização (OE, 2008).
Segundo Azevedo (2009, cit. por Silva et al., 2011, p. 137) “O diploma de curso
habilita para entrada numa profissão, mas já não limita as competências, que se irão adquirindo com a investigação e a prática diária…”. Esta certificação de competências
ultrapassa o percurso académico, pois referindo Azevedo (2007, cit. por Silva et al, 2011, p.137) “a formação profissional diária é constante e dinâmica; é progressiva. Por isso, só os
parâmetros de qualidade crescente da OE a podem certificar”. Nesta perspetiva, a formação
contínua na formação dos enfermeiros assume um papel de destaque e de enriquecimento permanente tendo como focos a prática, o exercício tutelado, a supervisão clínica, o desenvolvimento e certificação de competências, a individualização das especialidades, entre outros (Silva et al., 2011).
Atualmente, a enfermagem portuguesa é uma referência e modelo para os países da Europa, essencialmente pelo facto de exigir a licenciatura para o acesso à profissão, caraterizando-se pela coerência e qualidade que tem conseguido impor na formação dos enfermeiros. É uma disciplina em franca ascensão e consolidação, que desenvolve investigação própria, cria, representa e aplica o conhecimento necessário à prática dos cuidados (Amendoeira, 2006).
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Os progressos tecnológicos na área da saúde têm sido bastante significativos, aumentando consequentemente, o grau de complexidade dos cuidados de enfermagem, o que coloca imensos desafios a estes técnicos de saúde. Assim sendo, o grupo socioprofissional dos enfermeiros portugueses é hoje de elevado nível de competência, quer no que diz respeito ao domínio técnico, quer científico, quer relacional e ético (Chaves, 2012).
A formação tem constituído o baluarte em que se fundamenta o crescimento e afirmação profissional da enfermagem, permitindo a estruturação e consolidação de saberes que lhes são próprios, estimulando simultaneamente o desenvolvimento de competências (Arco, 2005) e conferindo-lhe o estatuto de qualidade que hoje, de forma inequívoca o carateriza, sendo prova disso o interesse crescente dos países europeus na contratação dos enfermeiros portugueses.
Após um longo percurso, a Enfermagem é hoje, de forma indiscutível, citando Chaves (2012, p. 127) “um corpo de saberes com uma autonomia e um método de ensino-
aprendizagem predisposto naturalmente a responder com elevada eficácia aos novos desafios do processo de Bolonha, convergindo de forma cada vez mais evidente para um enquadramento no ensino universitário”.