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Reinaldo Tronto, 2006

O curto processo de minifundiarização das terras que ocorreu após a crise de 1929 e foi marcado pelo loteamento de grandes fazendas (FURLAN JUNIOR, 1956, p.47) rapidamente foi substituído pela concentração de terras, que aumentava conforme a agricultura e a agroindústria canavieira se desenvolviam e valorizavam.

A disponibilidade de terras baratas nas zonas pioneiras de Sorocaba e Nordeste Paulista, a proibição do plantio de café em novas áreas no estado de São Paulo e a permissão para o plantio no Paraná fizeram da região de Ribeirão Preto e de Sertãozinho áreas de dispersão populacional no período de 1910 a 1940.

A decadência cafeeira e a transição para a agricultura canavieira expulsaram o pequeno proprietário para a área urbana e, principalmente, para as novas áreas pioneiras em São Paulo e nos estados vizinhos. Era comum vender a pequena propriedade em Sertãozinho por um preço relativamente alto em relação às áreas pioneiras e comprar terras em áreas mais baratas e, com a diferença, quitar dívidas ou realizar melhorias nas novas áreas.

Com a firmação da agricultura canavieira na economia e no espaço local, esse movimento demográfico se interrompeu, a urbanização (a partir de 1940) se fortaleceu e o crescimento populacional se acelerou (a partir de 1950), dados que podem ser observados na tabela 1.3 a seguir.

Tabela 1.3 – Evolução da população de Sertãozinho

População 1920 194021 1950 196022 1970 1980 1991 200623

Urbana - 5.602 7.155 13.758 22.878 45.428 73.567 100.898 Rural - 15.688 13.202 12.683 8.188 6.116 5.209 3.508 Sertãozinho e Cruz das Posses - 17.287 16.899 26.441 31.066 51.544 78.776 104.406

Município 20.738 21.290 20.357 26.441 31.066 51.544 78.776 104.406 Elaboração de Reinaldo Tronto, com dados de FURLAN JUNIOR (1956), IANNI (1977) e IBGE.

Além da menor emigração (a partir de 1950), a melhoria das condições de vida na cidade em relação ao campo e o crescimento da agricultura canavieira – que influenciou a modernização e a mecanização do campo – determinaram um maior crescimento do êxodo rural e, com o Proálcool na década de 1970, uma nova onda de migração (intermunicipal, interestadual e inter-regional) para o município. Furlan Junior, ao tratar o processo de urbanização, destaca a influência da agroindústria açucareira a partir de 1950, quando esse segmento econômico apresentava um grande crescimento e desenvolvimento. Segundo esse autor, “para se avaliar a influência da indústria açucareira, basta dizer que, se em 1950 havia na cidade 1.129 prédios, este número se elevou a 2.000 no ano de 1956, fase que corresponde à maior produção de açúcar” (FURLAN JUNIOR, 1956, p.47). O gráfico 1.1 a seguir ressalta esse crescimento substancial no número de prédios urbanos em função da urbanização provocada pela modernização-mecanização da lavoura canavieira:

Gráfico 1.1

Evolução dos prédios urbanos

0 500 1000 1500 2000 2500 1938 1940 1942 1944 1946 1948 1950 1952 1954 1956 1938-1956 pr é di os

Org. Reinaldo Tronto, com dados de Furlan Junior (1956).

21 1935: desmembramento de Pontal; 1938: desmembramento de Pradópolis.

22 Em 1954, Barrinha foi elevada a município. Nessa estimativa, considerando-se apenas a população do distrito de Sertãozinho – excluindo o de Cruz das Posses –, a população urbana (9.000) ultrapassa a rural (8.800). Em 1956, a população total de Sertãozinho era de 20.000 habitantes: 10.730 rural e 9.270 urbana.

Outra análise interessante a se fazer é o cruzamento desses dados do incremento dos prédios urbanos com a datação da fundação de usinas. O quadro 1.1 a seguir destaca as principais indústrias canavieiras instaladas em Sertãozinho e o respectivo ano de fundação:

Quadro 1.1 – Fundação e situação atual dos principais engenhos, usinas e destilarias em Sertãozinho

Ano Tipo e nome Família fundadora Situação atual

1904 Engenho Canesin Canesin Desativado em 1985.

1906 Engenho Central Schimidt Incorporado pela Santa Elisa. Desativado em 1964.

1916 Usina Albertina Marchesi24 Desativada

1922 Usina Barbacena Biagi Incorporada pela Santa Elisa. Desativada – Usina Vitório Mazer Mazer Desativado.

1936 Usina Santa Elisa Marchesi/Biagi Em atividade. 1941 Destilaria Pignata Pignata Em atividade 1945 Usina São Francisco – Em atividade. 1946 Usina Santo Antônio Balbo Em atividade.

1947 Usina São Geraldo Simioni Incorporada pela Santa Elisa. Desativada25.

1947 Usina Santa Lúcia Sverzut Incorporada pela Santa Elisa. Desativada em 1957.

Pós- guerra

Usina Sant’ Anna Verri Incorporada pela Santo Antônio. Desativada em 1962.

- Usina São Vicente – Desativada.

1968 Eng. Irmãos Toniello Toniello Atual destilaria Santa Inês. 1976 Destilaria Lopes Lopes e Silva Em atividade.

Org. Reinaldo Tronto, com dados de Biagi (1987), Furlan Junior (1956), Hasse (1996) e Sarti (2007).

Percebe-se, pela tabela, o grande número de estabelecimentos industriais canavieiros criados na década de 1940. A criação dessas indústrias, nesse período, aponta o grande desenvolvimento da cana-de-açúcar no município e explica as profundas transformações comandadas pelas usinas e usineiros que passaram a ocorrer. Ianni descreve de forma objetiva as transformações que passaram a ocorrer em Sertãozinho com o desenvolvimento, a expansão e a supremacia da atividade canavieira:

Foi substantiva a modificação ocorrida em Sertãozinho, a partir de 1944, quando as atividades relacionadas direta e indiretamente com a cana-de-açúcar tornaram-se cada vez mais importantes, no conjunto da economia e da sociedade, no campo e na

24 João Marchesi e o cunhado Pedro Biagi investiram juntos em vários segmentos econômicos locais e na região. 25 As usinas Santa Elisa e São Geraldo realizaram a fusão das indústrias em 1998. Poucos anos depois, a Santa Elisa comprou a parte da São Geraldo e desativou o parque industrial. Os antigos proprietários da São Geraldo passaram a fornecer cana para a Santa Elisa. É importante lembrar que Santa Elisa é vizinha da São Geraldo (7 quilômetros entre as plantas industriais) e suas terras agrícolas está em uma terreno de desnível altimétrico, o que sempre a colocou em vulnerabilidade, quanto ao abastecimento de água, em relação à São Geraldo.

cidade. À medida que se desenvolveu e impôs, a agroindústria açucareira provocou algumas modificações notáveis no sistema econômico social e político de Sertãozinho. Vejamos, preliminarmente, de forma breve, alguns aspectos das modificações havidas no lugar: a) Modificou-se a estrutura judiciária no município de Sertãozinho, tendo ocorrido certa concentração da propriedade; b) A pequena e média burguesia agrárias foram associadas, absorvidas ou subjugadas aos interesses do capital agroindustrial comandado pelo usineiro; c) A usina se impôs como uma categoria político-econômico nova e poderosa, no campo e na cidade; d) Criou-se em Sertãozinho um setor industrial bastante ligado à agroindústria açucareira, para produzir e reparar máquinas e equipamentos. Naturalmente, esse setor atende também às demandas do terciário e do próprio secundário. Inclusive produz para clientes de outros municípios e estados. Mas é evidente a sua vinculação às exigências tecnológicas da agroindústria açucareira. e) As mudanças havidas na combinação e dinâmica das forças produtivas, bem como as modificações ocorridas nas relações de produção, provocaram o desenvolvimento do proletariado rural e inclusive a modificação da sua composição interna. Cresceu progressivamente o contingente de assalariados temporários e residentes nas periferias da cidade de Sertãozinho. f) Devido às peculiaridades econômico-sociais e políticas da agroindústria açucareira, vista em perspectiva nacional e regional, a ação estatal tornou-se visível em todos os principais momentos das relações de produção envolvidas nas fainas dos canaviais e das usinas do lugar. (IANNI,1977, p.24-25) Mesmo com a retomada do desenvolvimento econômico no pós-guerra – em função, em grande parte, do avanço da agricultura canavieira, que, por sua vez, determinava uma nova entrada de migrantes26 –, a população rural continuava em queda, e a urbanização se

acentuava. Esse novo “salto” econômico da agricultura foi acompanhado de uma concepção modernizadora da produção agrícola, que utilizava crescentemente o trabalhador agrícola em substituição ao trabalhador rural.

1.2.4. A industrialização de Sertãozinho

As indústrias, historicamente, aparecem concomitantemente ao desenvolvimento do espaço urbano, ou seja, desde o desenvolvimento inicial do núcleo urbano. No início do século XX, já existiam algumas pequenas e precárias oficinas e maquinofaturas. Geralmente instaladas em fundo de quintal ou em algum cômodo da casa, essas oficinas – verdadeiros ateliês industriais – apresentavam seu funcionamento vinculado à fabricação de produtos geralmente para habitações urbanas e, em alguns casos, para os sítios e fazendas de café do município.

Essa industrialização “a serviço do campo” ocorreu até o final do período cafeeiro, mas favoreceu um conjunto de transformações que serviam de base para a industrialização

26 Agora os migrantes são nordestinos e mineiros (do extremo norte do estado) pobres, que se deslocam para o corte da cana.

local: iniciaram-se timidamente os processos de industrialização e modernização do campo na região. A mecanização e a racionalização das atividades agrícolas – cada vez mais “industriais” – liberavam gradativamente os trabalhadores e proporcionavam o êxodo rural e a urbanização em Sertãozinho.

Benzer Belgeler