ARAġTIRMA BULGULAR
SONUÇ VE ÖNERĠLER
É claro que muitas dessas opções estéticas realizadas por Górki estão relacionadas diretamente ao programa do realismo socialista, do qual é considerado o pai. Contudo, o método realista utilizado por Górki em A mãe não se restringe ao realismo socialista. Poderíamos pensar em um método próprio de Górki, principalmente no que se refere às descrições, que já aponta algumas das linhas gerais do realismo socialista.
A obra de Górki deixa evidente sua posição ideológica, o que poderia limitar, de certo modo, o seu estilo realista. Todavia, o próprio método de Górki não se reduz a essa posição,
sua obra a evidencia, sim, mas não se pode negar que ela consegue penetrar em muitos aspectos da realidade que não são filtrados apenas por essa ótica.
O método realista escolhido por Górki demonstra uma grande sensibilidade do autor, ao conseguir apreender e traduzir o caráter psicológico e social de uma personagem simples, do povo. Em certa medida, seu estilo realista se diferencia tanto do romance contemporâneo de fluxo de consciência, de Virginia Woolf, Marcel Proust, quanto dos primeiros realistas modernos. Como averigua Auerbach, em relação ao romance do início do século XX ,
tudo é, portanto, uma questão da posição do escritor diante da realidade do mundo que representa; posição que é, precisamente, totalmente diferente da posição daqueles autores que interpretam as ações, as situações e os caracteres das suas personagens com segurança objetiva, da forma que, anteriormente, ocorria em geral. (2007: 482).
Em Górki, a interpretação de ações, situações e caracteres, só ocorre na primeira cena, a partir daí, o autor opta pelo foco da mãe e deixa-o falar e mostrar por si. O narrador de A mãe não interfere, não interpreta, apenas apresenta, deixando os fatos e impressões da personagem “a mãe” falarem livremente – claro que de uma maneira talvez um tanto simplista, mas objetiva. O intento é sempre atingir o “coração do real”, percebendo-se nesse estilo gorkiano a preocupação de manifestar a realidade o mais objetiva e claramente possível. De maneira que o leitor até se emociona com a ingenuidade e disposição no trato dessa mãe para com as agitações revolucionárias.
A partir das opções estéticas de Maksim Górki, como observamos, o escritor insere-se em uma tradição de realismo que retoma os romances sociais do século XIX – Zola, Balzac, Flaubert. Contudo, sua realidade social é outra: o processo revolucionário russo no século XX. Mesmo antes da Revolução, a realidade social russa já começava apontar em fins do
século XIX outras direções ideológicas, outras necessidades sociais, o que se fazia sentir sobremaneira no discurso e, em particular, no discurso literário. Norman Fairclofh, em Discurso e mudança social (2001), esclarece que o discurso manifesta algum tempo antes as transformações sociais que estão em vias de ocorrer. No que concerne ao caso russo, percebemos isso no modo como escritores expressavam o desejo de liberdade em suas obras – como o que ocorre com o amor. Górki sentia as transformações e as expressava em sua obra. A mãe é um exemplo. O romance foi escrito 11 anos antes da revolução e quase 20 anos antes dos escritores socialistas beberem na fonte gorkiana e o Realismo socialista ser instituído. Dessa forma, o romance é uma florescência do que se desenvolve posteriormente. Como florescência incipiente, apresenta aspectos que não foram desenvolvidos, que permaneceram muito próprios ao escritor.
Górki aproveitou as técnicas dos grandes romancistas para criar um método realista mais de acordo com a sua realidade. E, ao fazer isso, contribui com certos elementos artísticos. Às descrições zolianas, por exemplo, Górki equilibra sua obra com uma narrativa cujo enredo acompanha o movimento de desenvolvimento humano de sua personagem principal. A uma perspectiva psicológica do Realismo, Górki acrescenta uma técnica que penetra a consciência da personagem por dentro, deixando que ela se manifeste diretamente ao leitor. A opção por narrar o romance do foco narrativo da personagem tem conseqüências não apenas para a questão do narrador, mas, sobretudo, para a obra como um todo e para a compreensão concreta do que seja o desenvolvimento da consciência de modo dialético – um meio de se entender a psicologia social. Pelaguéia evolui em contato com outra visão de mundo, na medida em que enxerga a realidade social de perto, ela aprende e se transforma intimamente, como o leitor pode observar de perto, como ela o sente, no desenrolar da narrativa.
Diante de tudo, poder-se-ia dizer que Maksim Górki realiza uma atualização do romance social do século XIX, na medida em que insere um método realista responsável pela criação da narração em um ponto-de-vista próprio à personagem central. Não se trata de fluxo de consciência ou de discurso indireto, trata-se pura e simplesmente de se adotar uma perspectiva que não é a do narrador da obra e, muito menos, a do autor – mais esclarecido que sua personagem. E, como disse Juli Daniel para se defender do processo contra si e contra Andrei Siniavski, “o importante não é o que dizem os personagens, mas a atitude do autor em relação a eles, as suas posições”18
. Diríamos, apenas para completar, que o importante não é somente o que dizem as personagens. Para além de tudo aquilo que os leitores e críticos apontariam de programático no romance, o que há de mais belo nessa obra de Górki é esse modo íntimo de falar ao povo a partir de seus olhos, de deixar que eles guiem o narrar dos fatos.
18 Audiência do processo contra Juli Daniel e Andrei Siniavski, tribunal provincial de Moscou, 1966. In: MORETTI, Franco (org.). A cultura do romance. Trad. Denise Bottmann. São Paulo: Cosac Naify, 2009, vol. 2. Pág. 235.