Para se chegar a um conceito de direitos individuais indisponíveis se faz necessário realizar um breve estudo acerca de alguns aspectos dos direitos fundamentais, os quais destacaremos neste momento.
2.1.1 Conceito
Primeiramente, cumpre destacar o entendimento de alguns autores, consubstanciado nos ensinamentos de Marcelo Novelino:
Os direitos fundamentais, compreendidos como os direitos humanos consagrados no plano interno, são normas positivas constitucionais. Após atravessarem uma fase de carência normativa na qual eram considerados meras declarações solenes, revestidas somente de valor moral, esses direitos tiveram sua normatividade reconhecida, sendo alçados à condição de normas jurídicas constitucionais.11
Impende, agora, destacar a conceituação dada por José Afonso da Silva:
Direitos fundamentais do homem constitui a expressão mais adequada a este estudo, porque, além de referir-se a princípios que resumem a concepção do mundo e informam a ideologia política de cada ordenamento jurídico, é reservada para designar, no nível do direito positivo, aquelas prerrogativas e instituições que ele concretiza em garantias de uma convivência digna, livre e igual de todas as pessoas. No qualificativo fundamentais acha-se a indicação de que se trata de situações jurídicas
11
NOVELINO, Marcelo. Direito Constitucional. 3ª ed. ver., atual. e ampl. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2009, p. 360.
sem as quais a pessoa humana não se realiza, não convive e, as vezes, nem mesmo sobrevive; fundamentais do homem no sentido de que a todos, por igual, devem ser, não apenas formalmente reconhecidos, mas concreta e materialmente efetivados.12
Pode-se dizer, então, diante dos conceitos doutrinários acima elencados, que os direitos fundamentais do cidadão são aqueles insertos no Título II da Lei Maior, quais sejam, os direitos e deveres individuais e coletivos, os direitos sociais, os direitos de nacionalidade, os direitos políticos, e os direitos relacionados à existência, organização e participação em partidos políticos.
2.1.2 Caracteres
Os direitos fundamentais possuem características que os identifica e distingue dos demais. A historicidade é a primeira, pois, como quaisquer outros surgem em diferentes épocas.
A inalienabilidade é outra qualidade. Os direitos fundamentais são intransferíveis, inegociáveis, porque não são de conteúdo econômico-patrimonial e, diante disso, surge outra característica, qual seja a imprescritibilidade, pois não são passíveis de serem fulminados pela prescrição.
Outro importante atributo é a irrenunciabilidade, já que esses direitos não podem ser renunciados. Destaque-se que não se admite a renúncia ao núcleo substancial de um direito fundamental, sendo possível que alguns deles deixem de ser exercidos, mas jamais renunciados.
Por fim, há que se destacar a relatividade desses direitos, por encontrarem limitações em outros constitucionalmente consagrados, não podendo, pois, serem considerados absolutos, diante da necessidade de convivência das liberdades públicas.
12
SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 24ª ed. rev. e atual. São Paulo: Malheiros, 2005, p. 178.
2.1.3 Dupla Dimensão dos Direitos Fundamentais
A doutrina faz a distinção entre as dimensões objetiva e subjetiva dos direitos fundamentais.
Por dimensão objetiva dos direitos fundamentais entende-se que eles não são meramente direitos subjetivos públicos do cidadão. Marcelo Novelino indica que “a dimensão objetiva se encontra presente nas normas que impõem deveres ao Estado sem relação direta com qualquer direito de um titular concreto.”13.
Por dimensão subjetiva dos direitos fundamentais, entende-se que se revela quando os direitos fundamentais são consagrados em normas assecuratórias de direitos subjetivos nas quais os titulares têm direitos em face dos deveres impostos aos destinatários.
2.1.4 Direitos Fundamentais e Dignidade da Pessoa Humana
A Constituição Federal, em seu primeiro artigo, assim dispõe:
Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado democrático de direito e tem como fundamentos:
[...]
III – a dignidade da pessoa humana; [...]
Vê-se, então, que a dignidade da pessoa humana se trata de um dos fundamentos do Estado brasileiro. Pode-se dizer que se constitui “no valor constitucional supremo em torno do qual gravitam os direitos fundamentais14”.
Ingo Sarlet assim afirma:
A dignidade, como qualidade intrínseca da pessoa humana, não poderá ser ela própria concedida pelo ordenamento jurídico. (...) Assim, quando se fala – no nosso sentir equivocadamente – em direito à dignidade, se está, em verdade, a considerar o direito a reconhecimento, respeito, proteção e até
13
NOVELINO, Marcelo. Direito Constitucional. 3ª ed. ver., atual. e ampl. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2009, p. 369.
14
Idem, p. 372.
mesmo promoção e desenvolvimento da dignidade, podendo inclusive falar- se em direito a uma existência digna, sem prejuízo de outro sentido que se possa atribuir aos direitos fundamentais relativos à dignidade da pessoa. Por esta razão, consideramos que neste sentido estrito – de um direito à dignidade como concessão – efetivamente poder-se-á sustentar que a dignidade da pessoa humana não é nem poderá ser, ela própria, um direito fundamental.15
A dignidade, portanto, não deve ser entendida como um direito fundamental, mas como um atributo inerente a todo ser humano.
2.2 Conceito de Direitos Individuais Indisponíveis
Não existe um conceito legal do que sejam os direitos individuais indisponíveis, nem há consenso doutrinário quanto a isso.
Dessa forma, realizado um breve estudo sobre os direitos fundamentais, passemos a uma conceituação dos direitos individuais indisponíveis através daqueles.
É possível afirmar, inicial e simplificadamente, que os direitos individuais indisponíveis formam uma espécie de que os direitos fundamentais é gênero, ou seja, os direitos individuais indisponíveis estão inseridos nos direitos fundamentais.
A principal característica dos direitos fundamentais a se destacar para a conceituação dos direitos individuais indisponíveis é a inalienabilidade. José Afonso da Silva afirma que “se a ordem constitucional os confere a todos, deles não se pode desfazer, porque são indisponíveis”16.
No que tange à dimensão dos direitos fundamentais – subjetiva e objetiva –, ambas devem ser apreciadas para se chegar a um conceito completo de direitos individuais indisponíveis.
Impende ressaltar ainda que, fazendo parte dos direitos fundamentais, os direitos individuais indisponíveis têm a dignidade da pessoa humana como seu
15 SARLET, Ingo Wolfang. Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais na
Constituição Federal de 1988. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2001, p. 71.
16
SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 24ª ed. rev. e atual. São Paulo: Malheiros, 2005, p. 181.
fundamento, podendo-se dizer, ademais, que tais direitos decorrem diretamente da dignidade.
Pode-se dizer, então, que direitos individuais indisponíveis são aqueles que estão ligados umbilicalmente à sobrevivência do homem, tratando-se de direitos do individuo considerado em sua singularidade dos quais não podem se desfazer, sendo consagrados em normas jurídicas assecuratórias de direitos subjetivos ou em normas que impõem deveres ao Estado. Assim, nesse sentido, os direitos individuais indisponíveis podem ser exigidos pelo indivíduo contra o particular ou contra o Estado.