O uso do véu é algo muito discutido entre estudiosos do islam, tanto por seu significado para as fiéis, quanto por seu impacto em uma sociedade judaico cristã como a brasileira. Causa desconforto aos olhos de quem vê uma mulher muçulmana usar seu véu em um local público, no entanto, uma freira não causa tanto estranhamento assim. As mulheres muçulmanas, em alguns casos, sofrem discriminação pela adesão ao véu. Algumas mulheres, no entanto, não se importam com esta discriminação, pelo contrário, se sentem empoderadas e respeitadas por sua vestimenta. Orquídea, por exemplo, é revertida há quatro anos, e segundo ela, se sente mais respeitada atualmente do que quando não era muçulmana. Já foi espírita, umbandista, testemunha de Jeová e católica antes de se tornar muçulmana, e relata que conquistou respeito através da vestimenta islâmica.
A questão do hidjab não foi difícil, graças a deus não foi difícil... Para falar a verdade, eu me senti mais feliz... Eu me sinto mais feliz assim, o véu me segura em algumas coisas, por exemplo, por que a gente tem que passar um exemplo para as outras pessoas, então se torna um cuidado a mais. Eu antes de fazer alguma coisa... Opa! Um muçulmano não faria isso! E eu falava bastante palavrão né, então você tem que começar a... É lógico, não é do dia para a noite, é uma coisa gradativa, de pouquinho em pouquinho... Porque é muita informação no início, e se você pensar em todas as coisas, você enlouquece, então assim, se você demorou nove meses para nascer, e este é o tempo correto, então eu não posso adiantar as coisas.... Cada coisa no seu tempo.... (ORQUÍDEA ).
(...) O hidjab é uma proteção da mulher... Proteção do que? Dos olhares, dos assédios, sabe, querendo ou não, uma mulher de lenço, ela se resguarda mais, ela toma mais cuidado. Na realidade, o Alcorão menciona isso porque Alá cuida da criatura dele, entendeu? (ORQUÍDEA).
Eu não sofro discriminação, graças a deus... Mas eu tenho uma amiga que já ouviu na rua: ‘Aí vem a mulher boom!’ (BEGÔNIA).
Eu me sinto muito bem com o meu véu... Apesar de que eu já ouvi algumas coisas das pessoas que me conheciam antes de eu me reverter. Falaram assim: “Ah, porque você está usando esse véu? Está parecendo uma velha!” (...) Isso causava um pouco de incômodo nas pessoas que já estavam habituadas a me ver com as roupas daqui... No meu trabalho, eu fico no meio de muitos homens... Então eles se incomodavam... “Por que você está vestida desta maneira?” Então... Não conseguiam compreender (MARGARIDA).
O binômio modéstia e castidade são os norteadores para as mulheres muçulmanas. As relações de gênero no islam são pautadas exatamente neste binômio. Por exemplo, a
vestimenta, é uma barreira física que confere proteção à mulher. É uma barreira simbólica, que exprime a segregação entre o público e privado. O Profeta Maomé no Alcorão já dizia isto e orientava suas esposas a se cobrirem ao sair de casa, como forma de proteção e para que estas não fossem molestadas.
Dize às fies que recatem os seus olhares, conservem os seus pudores e não mostrem os seus atrativos, além dos que (normalmente) aparecem; que cubram o colo com seus véus e não mostrem seus atrativos, a não ser aos seus esposos, seus pais, seus sogros, seus filhos, seus enteados, seus irmãos, seus sobrinhos, às mulheres suas servas, seus criados isentos das necessidades sexuais, ou às crianças que não discernem a nudez das mulheres; que não agitem seus pés, para que não chamem à atenção sobre seus atrativos ocultos. Ó fiéis, voltai-vos todos, arrependidos a Alá, a fim de que vos salvais (ALCORÃO 24:31, sem data).
As esposas dos profetas) não são recriminadas (se aparecerem a descoberto) perante seus pais, seus filhos, seus irmãos, seus sobrinhos, perante suas mulheres crentes ou as que suas mãos direita possuam (servas). E temei a Alá, porque ele é testemunha de tudo (ALCORÃO 33:55, sem data).
Ó Profeta, dize a tuas esposas, tuas filhas e às mulheres dos fiéis que (quando saírem) se cubram com as suas mantas; isso é mais conveniente, para que se distingam das demais e não sejam molestadas; sabei que Alá é indulgente, Misericordiosíssimo” (ALCORÃO 33:59, sem data).
O hidjab veio não apenas para quebrar um pouco isso de você ser julgada, desrespeitada... Mas, veio para dizer: ‘Oh, aqui tem um limite!’ Você não vai olhar para todo mundo assim... É uma questão de preservar e guardar... Que te poupa no geral... É isso... Eu escolho o que os outros veem, não são eles que olham tudo o que eu mostro (FLOR DE LÓTUS).
O conceito aqui do Brasil é que, uma mulher para estar bem vestida, para estar bonita, interessante, ela tem que estar no conceito do que está na moda... Do que é provocativo principalmente para o sexo oposto. E o hidjab, o objetivo é se preservar, e não se mostrar. Isso causava um pouco de incomodo nas outras pessoas (MARGARIDA).
(...) O hidjab é uma proteção da mulher! Proteção do que? Dos olhares, dos assédios. Sabe, querendo ou não, uma mulher de lenço, ela se resguarda mais, ela toma mais cuidado. Na realidade, o Alcorão menciona isso porque Alá cuida da criatura dele, entendeu? (ORQUÍDEA).
Ele (Alá) quer o melhor. E a mulher é como uma pérola.... Eu sempre uso um exemplo talvez até grosseiro, mas que tem uma grande verdade. Quando você vai comprar uma bala, você vai sempre pegar a bala que está no pacotinho fechado, você nunca vai pegar aquela bala que está desembalada... Por quê? Porque aquela bala que está desembalada todo mundo já viu... Todo mundo já sabe como ela é, enquanto a mulher muçulmana é mais protegida para ela mesma... Não é o homem que impõe, é por Alá! (ORQUÍDEA).
O véu tem sido um dos símbolos mais utilizados para caracterizar as mulheres muçulmanas e o islam em geral. A imagem das mulheres muçulmanas que utilizam seus véus tem se propagado de maneira global, e sido observado pelo Ocidente como símbolo máximo de opressão, que carrega toda a dominação masculina sobre as mulheres. A partir deste ponto de vista, as mulheres islâmicas são percebidas como necessitadas de serem descobertas. A declaração universal dos direitos humanos tem sido usada para legitimar estes atos de salvação, no entanto, o uso do véu pode ser demonstrado por significados que revelam e contradizem a visão ocidental (ESPINOLA, 2005).
O discurso da afirmação da fé através do uso do véu foi um dado que apareceu principalmente na fala das revertidas. As mulheres nascidas muçulmanas usam o véu, mas não afirmam sua fé de maneira categórica como as revertidas3.
Eu uso o véu porque não existe muçulmana completa sem véu. Eu me sinto mais confortável com o véu... Eu uso o véu e ninguém me obrigou. A minha mãe, por exemplo, não usa... Vou dar um exemplo: ‘Eu, onze horas da noite, vou colocar o lixo para fora. Não preciso colocar o véu!’ (...) A minha mãe não usa porque ela não quer. É uma obrigação o uso do véu. Não é opcional. Mas ela não usa porque não quer. (...) O meu pai não fala nada. Na família da minha mãe, tem muita gente que não usa. Na família do meu pai tem... A maioria usa. É que não adianta nada usar forçada... Isso não vai fazer dela uma pessoa melhor. Isso é ela com ela. Não ia fazer bem para mim, mas faz para ela. (...) Tem a questão também de palestra... Às vezes a menina vai de palestra em palestra e de tanto ouvir que tem que usar, usa. Mas, usa por medo... Isso tem que vir de você (BEGÔNIA).
O véu não é só uma maneira de eu me cobrir, de me sentir reservada, de me guardar... Ele me dá o meu direito de fazer o que eu quero. Como está escrito no Alcorão, que o profeta Mohammad falou para nós... Você não fica exposta... Sabe, quando você tem uma coisa preciosa, você guarda, você não expõem. Isso é uma forma de valorizar. Então a gente se valoriza com o hidjab. Além de tudo o que o hidjab significa, eu me sinto bem mais livre com o uso do hidjab. Se fosse agora para eu sair na rua e você vem e me diz: ‘Ah não, você tem que sair daqui sem lenço!’ Eu não! Nossa! Deus que me livre! Ia ser a pior coisa do mundo! Eu me sinto muito livre usando o meu lenço! Ainda mais por essa questão, o hidjab não é apenas um paninho na cabeça. A forma pela qual você se veste, isso influencia muito em quem você é. A sua personalidade acaba ficando diferente, de uma forma mais... É... Sabe, mais à vontade. Eu me sinto muito à vontade por usar o hidjab (FLOR DE LÓTUS).
Eu não saio sem o véu ‘nem que a vaca tussa’ (ORQUÍDEA).
Faz parte da prática da minha fé. Quando eu entendi de fato a prática religiosa da minha fé, ali eu entendi que deveria usar o véu. Eu também comecei a entender o meu cabelo como parte da minha intimidade né... É
3Dado este, encontrado no meu campo de pesquisa. Não posso afirmar que este seja um dado encontrado em
mais a prática da fé mesmo, é uma recomendação, a gente não costuma questionar muito né... a gente crê. Então, se é assim, a gente tem que ser o mais adequada possível. Conforme fui sentindo esta necessidade, hoje não me vejo mais sem o lenço (...) Olha, eu tive um pouco de medo... Eu era dona de um salão de cabeleireiro, e meu marido (nascido muçulmano) como eu disse, não praticava muito, e ele tinha uma oposição ao uso do véu. Então eu tinha um pouco de medo. Mas, aí eu só vivia com o cabelo amarrado. Quando foi chegando o dia que eu decidi usar o véu, uns dois ou três meses antes eu não conseguia mais usar meu cabelo solto, eu só usava ele preso, andava olhando para o chão, e me sentia invadida na rua... Às vezes, as pessoas acham que a gente anda oprimida na rua por causa do véu, pelo contrário, depois que eu coloquei o véu, eu me senti mais leve, mais plena, eu me senti completa entendeu?! Faltava alguma coisa... Eu me senti completa (JASMIM).
O véu me deu mais liberdade. Eu não preciso ficar puxando o vestidinho para baixo ou para cima. Eu fico mais confortável. Não preciso me preocupar por ter roupa de menos. Até quando vou à praia. A família do meu marido é do Espírito Santo. Lá é bem quente e a maioria das pessoas anda com poucas roupas. De certo modo, eu viro atração na praia, mas eu não ligo! (...) O meu marido até prefere... Antes ele ficava super desconfortável por que eu usava um ‘biquininho’. Mas ele não falava nada, porque ele estaria indo na contra mão. Mas, agora, ele fica muito mais à vontade. Claro, eu uso roupas mais leves do que esta... Uso calça legging, uso roupas que só deixam as mãos, os pés e o rosto à mostra... Pode ser o burkini também. Tem mulheres muçulmanas que trazem de outros países estas roupas para cá. Mas, eu prefiro. Me sinto mais confortável. Sinceramente, hoje eu não entendo como eu conseguia usar aquelas roupas (MARGARIDA).
A discussão acerca do uso do véu tem se tornado alvo de preocupações contemporâneas sobre as mulheres muçulmanas. Ao analisar a vestimenta islâmica, sempre se associam ao Talibã e aos terroristas a obrigatoriedade das mulheres utilizarem a burca ou os véus. No entanto, não foi o Talibã que inventou a burca ou o véu. No Afeganistão, após o Talibã ter liberado o uso da Burca, as mulheres continuaram a utilizá-las (ABU-LUGHOD, 2012). Alguém que trabalhou em regiões muçulmanas deve se perguntar por que isso é tão surpreendente. Esperávamos que, uma vez ‘livres’ do Talibã, elas iriam ‘retornar’ a camisetas curtas e jeans, ou tirar a poeira dos seus trajes Channel? (ABU-LUGHOD, 2012, p. 456)
A verdade é, imagina-se que as mulheres muçulmanas de outros países ao virem para o Brasil deixarão de usar seus véus e usarão calças jeans e blusas apertadas. Ou as mulheres revertidas irão se recusar a usar o véu por conta do contexto em que estão inseridas. Porém, não acontece assim na maioria das vezes. Grande parte das mulheres muçulmanas percebe o véu como parte constituinte da sua vestimenta. Tão necessário quanto calças e blusas. As revertidas são muitas vezes, as mais rigorosas quanto ao uso do véu islâmico.
Entrar no debate acerca das mulheres muçulmanas quanto ao uso das suas vestimentas, é ficar a beira de um abismo inultrapassável das culturas essencializadas e do choque das civilizações. No entanto, é impossível negar que a vestimenta vem sendo transformada em um fato político (SILVA, 2008).
Na França, um estado considerado laico, com base no projeto de Lei nº 524, de 13 de julho de 2010, passou a proibir o uso da burca (vestimenta islâmica usada no Afeganistão e no Paquistão) e o Niqab (utilizados na Península árabe) em vias públicas, em lugares abertos ao público e nos destinados aos serviços públicos (FERREIRA, 2013, p. 184).
Esta premissa de que as mulheres muçulmanas ao serem proibidas de utilizar suas vestimentas estão sendo salvas de uma submissão forçada, é tão violento quanto obrigá-las a utilizar a vestimenta. Segundo a cosmovisão destas mulheres, o véu não subtrai o pensamento, e a ausência dele não é sinônimo de autonomia (FERREIRA, 2013).
Além da observação da modéstia, em muitos casos, o véu é utilizado como símbolo da afirmação de uma identidade de gênero frente aos homens muçulmanos. Como uma forma de resistência dos dominados (SILVA, 2008). A associação entre o véu e a liberdade é manifestada somente nos discursos que defendem o uso do véu, sob a alegação de libertação da cultura ocidental (FERREIRA, 2013).
O véu, ao mesmo tempo em que separa, delimita fronteiras, também protege, e pelo fato de seguirem o cânone religioso do qual acreditam, faz com que a auto estima das mulheres que a utilizam seja preservada e valorizada. Esta delimitação colocada pelo uso do véu é bastante complexa, pois se dá por meio de um processo reflexivo acerca das atitudes intrínsecas da religião, da própria religiosidade e do entorno social (ZAIA, 2010) e é visto como uma demarcação simbólica, temporal, espacial, sexual e ética (FERREIRA, 2013).
Relatou Mu’auiah Ibn Haida (ra) que foi perguntou ao mensageiro de Allah (saws): ‘ Perante quem é permitido desnudar-nos? ‘ O Profeta (saws) respondeu: ‘ Somente pode se desvestir perante tua esposa. ‘ E perguntou: ‘Oh Mensageiro de Allah! Que acontece se outros parentes vivem conosco? O Profeta (saws) respondeu: ‘ Deve se assegurar que ninguém te veja nu. ‘ Disse: Oh Mensageiro de Allah! E quando me encontro só? Respondeu (saws): ‘ Allah é mais digno de teu pudor que as pessoas’ (SEXUALIDADE NO ISLAM).
No vídeo Vozes do islam, uma das entrevistadas diz: Eu não me sinto oprimida por causa do uso do véu (apud FERREIRA, 2013). Ao se discutir este tema, é necessário observar qual é a aceitação por parte das mulheres que acreditam que a utilização da vestimenta e do véu seja a forma correta de se apresentarem publicamente, visto que o próprio Alcorão diz isso (FERREIRA, 2013).
Mernissi (1996), diz não ser contrária ao uso do véu, desde que este não seja obrigatório, e que o islam do início da sua história social não é o mesmo dos dias atuais, por isso, o conceito que determina o uso do mesmo deveria ser reavaliado. Neste mesmo livro (Sonhos de transgressão), ela mesma conta que aos nove anos, quando seu primo precisou parar de frequentar o rito de beleza das mulheres e ir para a ala dos homens, a questão da segregação dos gêneros se tornou bem forte e marcante.
O véu está para a feminilidade, assim como a barba está para a masculinidade. Esta é uma construção social do islam que é fortemente assimilada por seus adeptos. Para ilustrar, apresento alguns tipos de véus nos apêndices.
Uma questão importante constatada no campo de pesquisa foi a repercussão da vestimenta islâmica sobre a saúde. O nosso corpo necessita ser exposto ao Sol para que a pró- vitamina D seja transformada em vitamina D nas camadas mais profundas da epiderme, para posteriormente, juntamente com outros fatores, ser absorvida. Esta transformação da molécula de vitamina D é realizada através da incidência direta dos raios solares, especificamente, os raios ultravioletas B (UVB). Caso a pessoa não absorva esta vitamina, o organismo sofrerá implicações clínico- metabólicas (CASTRO, 2011).
A Margarida revelou que precisou realizar adaptações quanto ao seu novo estilo de vestimenta e expôs a repercussão direta desta sobre a sua saúde.
Eu me sinto muito mais preservada em todos os aspectos, na saúde física. Querendo ou não, a gente se expõe muito ao Sol... Claro que existe uma deficiência de vitamina D, isso foi comprovado nos meus exames... Foi comprovado que há uma deficiência de vitamina D. Então, quando você tem a possibilidade de se expôr ao Sol pela questão da saúde, você deve, porque para todos é necessário o Sol. E, fazer um complemento com vitamina D. Eu tomo vitamina D por conta deste impacto que eu tive na minha saúde desde que... É... de vitamina D. (...) Hoje eu prefiro tomar, porque todos os exames que eu faço, ou dá no limite mínimo, ou abaixo do limite. Então eu prefiro sempre tomar. Os médicos pedem para que de manhã, principalmente, se eu puder ficar um pouco descoberta, para não afetar negativamente a saúde (MARGARIDA).