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A universidade, secular para os europeus, adulta para os americanos, jovem para nós, brasileiros, tem em nosso país, diferentes movimentos de constituir-se e de tornar-se presente, sem haver, necessariamente, uma relação com o tempo existencial e a qualidade do que produz, cada uma delas tem a sua história. Independentemente, também, da esfera em que se situa, pública ou privada, a universidade brasileira, por meio da criação de cursos superiores, está entre nós a partir da vinda da Família Real para o Brasil.

Carvalho (1996), ao escrever sobre a unificação da elite e sobre o poder ideológico e político, representado pela educação superior para o império, faz uma recuperação dessa educação nesse período, no Brasil. Segundo esse autor, a partir de 1808, com a chegada da Corte Real foram criadas: uma real Academia dos Guardas-Marinhas, uma Academia Real Militar e as Escolas de Medicina do Rio de Janeiro e de Salvador, na Bahia. Em 1820, foi criada a Academia de Belas Artes. Com a independência do Brasil, surgiram dois cursos de Direito, um em São Paulo e outro em Olinda, esse transferido em 1854, para Recife (1854).

Em 1839, em Ouro Preto, foi criada uma escola de Farmácia. O curso de Engenharia Civil foi retirado da Academia Militar no ano de 1858, sendo transferido para a Escola Central, tendo em 1875 se transformado em Escola Politécnica (1874) nos moldes da instituição francesa. A responsabilidade do governo geral e das províncias pelo ensino superior somente veio acontecer após o Ato Adicional de 1824.

No que se refere à história do ensino da Matemática no Brasil, enquanto construção dos colonizadores, ela está, diretamente relacionado aos conhecimentos trazidos pelos portugueses, mais precisamente com os jesuítas. Esses jesuítas teriam iniciado o ensino da Matemática pelas operações, sendo que, em 1605, as aulas de Aritmética aconteciam na Bahia, no Rio de Janeiro e em Pernambuco.

Valente (1999), ao falar sobre o ensino de aritmética, menciona os Colégios Jesuítas e cita o Auto de Inventário e Avaliação dos Livros, achados nos Colégios dos jesuítas do Rio de Janeiro e sequestrados em 1775, como o documento no qual consta obras de Clavio, jesuíta alemão que viveu em Roma, além de Kircher, Boscoviche e Alpoim, autores de livros de Matemática. Assim, leva-se a crer que os jesuítas ensinassem para os nativos os conhecimentos dessa disciplina, porém foram poucas as escolas sob a ordem da Companhia de Jesus que conseguiram manter, nos cursos de Matemática, esses livros. Valente (1999) aponta ainda que a Matemática não conseguiu se impor como ciência nem pelos próprios professores jesuítas.

A citação de Valente (1999, p. 32), a seguir, talvez acene com uma primeira formação de professores para atuar no Brasil e que tenha acontecido em Roma:

Outra questão importante que impedia o desenvolvimento e difusão das matemáticas nas escolas da Companhia de Jesus era o fato de não haver professores: a preocupação com a formação de professores de matemática fez com que fosse realizada por Clavio em Roma seminário para jovens professores que iriam a seguir ministrar cursos noutras escolas da ordem.

Assim, como em Portugal, no Brasil, não era dado um lugar de destaque ao ensino de Matemática, pois o mesmo era considerado um ensino prático, técnico e menor em relação às letras.

Ainda recorrendo às ideias de Valente (1999), destaco que a formação de professores de Matemática estaria ligada às escolas militares que existiam no século XVII. Nessas escolas, realizavam-se aulas de Artilharia e Fortificações, e o conhecimento da Matemática, ainda que para fins práticos, era importante. Tais aulas eram desenvolvidas com um número de apenas três alunos e com idade mínima de dezoito anos.

Com a obrigatoriedade do ensino militar, determinado pela ordem Régia de 19 de agosto de 1738, é designado professor o engenheiro e militar José Fernandes Pinto Alpoim que ministrou aula até 1765. Esse professor escreveu os dois primeiros livros de Matemática, na forma de perguntas e respostas, ambos voltados ao ensino militar. Era uma Matemática básica sem um rigor científico de demonstrações e com conteúdos relacionados à Geometria e à Aritmética.

Com a transformação das escolas militares, advieram as escolas politécnicas para formação de engenheiros. Os professores de Matemática dessas escolas eram militares e engenheiros e ensinavam uma Matemática voltada à prática, com a predominância do ensino da Geometria, sendo que a Aritmética era requisito para que os estudantes pudessem frequentar as aulas. Há uma forte influência do pensamento de Descartes na Matemática, desenvolvida como se pode perceber nesta passagem:

O ensino nas Academias Militares, baseado na filosofia racionalista de Descartes, pretendia formar engenheiros, militares, cartógrafos e matemáticos, capazes de levar a cabo o levantamento de mapas com latitudes determinadas pelos novos métodos empregados na Inglaterra e na França, e habilitar engenheiros a construir fortificações para a defesa dos domínios ultramarinos. (VALENTE, 1999, p. 46). A influência militar está explicita no predomínio de algumas disciplinas específicas, como é o caso da Geometria e do Cálculo, em detrimento de outras como a Álgebra Abstrata. Devido ao fim a que se destinavam, é natural que as disciplinas pedagógicas não estivessem presentes neste tempo da história.

Em contrapartida, o professor Ubiratan D’Ambrósio (1999), criador da Etnomatemática, destaca que os descobridores, quando aqui aportaram não reconheceram entre os nativos algo que pudesse ser caracterizado como uma produção matemática. Para ele “[...] deve-se atribuir isso ao não reconhecimento da especificidade de certas formas de conhecimento que somente muito depois, viria a ser identificado como matemática.” (D’AMBRÓSIO, 1999, p. 35-36).

D’Ambrósio (1999) vai mais longe, ao afirmar que, nesse processo de descobrimento, o conhecimento do dominado não tem credibilidade, sendo esse substituído pelo conhecimento do dominador, tanto do ponto de vista religioso, como social e econômico.

Sobre o real desenvolvimento da Matemática, no Brasil, D’Ambrósio (2008, p. 95) destaca: “A vitalidade e o interesse pela matemática, que se intensifica na segunda metade do século XX, estimulada pelas circunstâncias internacionais, abriram espaço para a emergência,

no Brasil, de outras áreas de pesquisa matemática, muitas de natureza interdisciplinar [...].” Associa-se tal fato com a criação dos cursos superiores no país.

A história dos cursos superiores no Brasil somente se consolida com a criação das primeiras Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras, a partir de 1930, quando começam a ser formados os primeiros professores para o ensino secundário. Todavia, os concluintes desses cursos receberiam o diploma de bacharéis e deveriam fazer o “Curso de Didática” para receberem o diploma de licenciados. Essa estrutura tomou o formato de três mais um, em que o aluno tinha primeiro a formação específica e, após, os conhecimentos pedagógicos necessários para o exercício da profissão.

5.2 O LUGAR DAS BUSCAS: AS UNIVERSIDADES E OS CURSOS DE

Benzer Belgeler