• Sonuç bulunamadı

Compreendemos a pobreza como uma produção e consequência do sistema capitalista que se dá a partir do excesso relativo da população, sendo também uma premissa de existência da riqueza do capitalismo. Esse excesso se apresenta como um disponível inesgotável de trabalha- dores que, para sua sobrevivência, se submetem às condições mínimas de salários. De acordo com a teoria marxiana, esse trabalhador que so- brevive

Acostumado à miséria crônica, a condições de existência completa- mente incertas e vergonhosamente inferiores ao nível ordinário da classe operária, converte-se em extensa base de ramos especiais de exploração nos quais o tempo de trabalho chega ao seu máximo e a

taxa de salário ao seu mínimo (Marx, 2010, p. 156).

Nessa perspectiva, a análise da pobreza em nossa sociedade brasilei- ra deve estar vinculada a uma análise do modo de produção capitalista, do momento histórico do desenvolvimento do capital e da posição so- ciopolítica de nosso país, de forma a compreender a dinâmica do siste- ma e sua lógica de ajustamento, como apresentado por Husson (1999), quando explicita como o capitalismo “tende a modelar as relações so- ciais e políticas no sentido de um aprofundamento sistemático das de- sigualdades sociais, [...] imposto aos excluídos com o recurso a formas modernas de coerção” (p. 6). Segundo Yazbek (1996, p. 63), a

[...] pobreza é uma face do descarte de mão de obra barata, que faz parte da expansão do capitalismo [...] que cria uma população so- brante, cria o necessitado, o desamparado e a tensão permanente da instabilidade na luta pela vida a cada dia.

Na mesma direção, Veras (2013, p. 31) fala da exclusão social no Brasil em um processo de 500 anos e que nas “décadas de 60 e 70, apre- sentam também outro debate no Brasil, enraizando a pobreza (e a ex- clusão subjacente) nas contradições do modo de produção capitalista. Não são marginais, mas integram as engrenagens produtivas de forma desigual”.

A pobreza, no nosso país, tem raízes históricas e mantém um ci- clo intergeracional que, segundo Strapsson e Pamplona (2014, p. 48), é “alimentado pela falta de estabilidade econômica durante longos perío- dos e pelas consequentes difi culdades na obtenção de trabalho formal e renda”.

3 METODOLOGIA

A pesquisa utiliza metodologias quantitativa e qualitativa, o que possibilita complementaridade das informações obtidas por percursos metodológicos diferentes. Segundo Kirschbaum (2013), idealmente, ao

combinar abordagens qualitativa e quantitativa, os pesquisadores evita- riam as fragilidades próprias de cada método, pois a complementação de estudo quantitativo com qualitativo “pode fornecer maior potencial de interpretação dos fenômenos, principalmente ao agregar a percep- ção dos indivíduos no desenho de pesquisa” (Kirschbaum, 2013, p. 189). Também para Moura Jr. (2015), o uso dos dois métodos possibilita a compreensão do fenômeno estudado e a utilização de diferentes estraté- gias de coleta de dados e de análises.

A pesquisa1 foi realizada junto a moradores de uma comunidade

em contexto rural e de outra em contexto urbano. A primeira, na área rural, foi a comunidade de Canafístula, distante 26 km da sede do mu- nicípio de Apuiarés, localizado este a 118 km de Fortaleza. Em Canafís- tula, vivem cerca de 170 famílias, totalizando pouco mais de mil pessoas. A renda da população em geral vem da agricultura, pequenos comércios, aposentadorias, vencimentos de funcionários públicos e benefícios so- ciais. Os pesquisados da área urbana foram os moradores do bairro Bom Jardim, em Fortaleza. Lá residem cerca de 37.758 mil habitantes em uma área de 2,53 Km2. Possui altos índices de violência e problemas estruturais como falta de moradia, educação, transporte e saúde para a população.

No total, 417 pessoas foram respondentes da pesquisa, os quais obedeciam aos requisitos de terem mais de 18 anos e residirem há mais de um ano nas suas respectivas comunidades. Para a coleta de dados foi elaborado um instrumento contemplando vertentes relacionadas à pobreza multidimensional e suas implicações psicossociais, que foi apli- cado diretamente pela equipe de pesquisa, de forma individual ou em grupo, dependendo do grau de instrução do participante da pesquisa.

1 O presente estudo faz parte das análises da pesquisa fi nanciada pelo CNPq, por meio da Chamada MCTI/CNPq/MEC/CAPES no 07/2011, no período de 2012 a 2014. Coor- denada pela Profa. Dra. Verônica Morais Ximenes e desenvolvida no Grupo de Pesquisa, cadastrado no CNPq: NUCOM: Identidade, comunidade e sustentabilidade do Núcleo de

Para apreender como os sujeitos percebem e expressam as suas vi- vências de humilhação e vergonha em contextos de pobreza, foi reali- zada a tradução e adaptação semântica das Escalas de Vergonha e Hu- milhação de Zavaleta (2007), que é composta por: Escala de Vergonha Associada à Pobreza, Escala de Tendência à Vergonha, Escala de Expe- riência Externa de Humilhação e Escala de Experiência Interna de Hu- milhação. O primeiro indicador foi o de “vergonha de ser pobre” apre- sentado em uma escala binária de alternativas “sim” ou “não”. O segundo indicador foi o dos “níveis de propensão à vergonha”, em uma escala de likert (com as alternativas de nunca, poucas vezes, frequentemente, sempre ou quase sempre). O terceiro indicador de discriminação rela- ciona-se com os locais nos quais foram humilhados, em uma escala de likert (nunca, poucas vezes, frequentemente, sempre ou quase sempre). O quarto indicador – o de “motivos para as situações de humilhação” –, contava com uma escala binária de respostas “sim” e “não” para onze alternativas. O quinto indicador de “nível acumulado de humilhação”, em uma escala de likert (nunca, poucas vezes, frequentemente, sempre ou quase sempre) perguntou “o quanto, ao longo de sua vida, você foi afetado por processos de humilhação”. Os dados provenientes da eta- pa quantitativa foram organizados em um banco no pacote estatístico SPSS 20.0, e realizadas análise de frequência e análise fatorial por meio do método de componentes principais.

Na metodologia qualitativa, foi escolhida a técnica de Grupo Focal (GF)2 para a obtenção de dados que pudessem ampliar a análise dos as-

pectos subjetivos da pobreza multidimensional. As questões abordadas nos GF seguiram um roteiro previamente formulado pelos pesquisado- res a partir das categorias estudadas e de resultados obtidos por ocasião da fase quantitativa. Foram efetuados cinco GF, sendo três na comuni- dade rural, com 22 sujeitos (destes, 11 no primeiro GF, cinco no segun-

2 Adotamos, para a identifi cação dos GF, a seguinte nomenclatura: GF AU – Grupo Focal em área urbana, seguida da numeração dos eventos 1 ou 2; e GF AR – Grupo Focal em área rural, seguida da numeração 1, 2 ou 3.

do e seis no terceiro GF) e dois na comunidade urbana, com 16 sujeitos (sendo nove sujeitos no primeiro GF e sete sujeitos no segundo).

Destacamos que as falas transcritas se referem aos GF especifi ca- dos, não sendo realizadas identifi cações individuais, visando a contribuir ainda mais com a preservação do sigilo. E ainda, o compartilhamen- to de opiniões e relatos foram incentivados pelos pesquisadores, mas a participação foi livre, de forma que nem todos opinaram a respeito de determinados temas em foco. As falas dos participantes dos GF foram transcritas e realizadas observações e exames com base na Análise de Discurso, considerando-se o caráter ideológico e simbólico da lingua- gem individual, perpassada pelos sentidos coletivos e históricos de toda fala3.

4 APRESENTAÇÃO E AUTOAPRESENTAÇÃO DOS

Benzer Belgeler