• Sonuç bulunamadı

Esse filme nos traz algumas contribuições importantes para o tema que investigamos. Uma delas ajuda-nos a relacionar o arrependimento com a aquisição de uma postura humana, que é essencialmente existencial ou até espiritual, chamada de serenidade. O arrependimento nesse contexto teria a função de auxiliar o homem a abandonar uma forma de estar no mundo marcada pela adesão às suas configurações imediatas, e vir a posicionar-se diante dos diversos eventos que lhe atravessam com esperança e tranquilidade. A dor de ter-se visto feito vítima das vicissitudes da vida, promove ao homem uma transformação na sua maneira de lidar com seus problemas, e um anseio em tornar-se mais sábio a fim de não ser dominado por elas, mas sim usá-las como oportunidade de amadurecimento. Arrependimento por meio dessa narrativa que vimos, tem o papel de ajudar o homem a tornar-se mais livre em relação às condições do mundo.

É nesse sentido que poderíamos dizer que essa é uma experiência que aponta para o desabrochar de uma espiritualidade. Nesse contexto, não estamos tratando de uma espiritualidade religiosa, mas de uma postura existencial. Safra sabe distinguir essas duas facetas, ao afirmar que "podemos falar [até] mesmo de uma espiritualidade atéia, que se realiza por meio de um princípio ético" (2006, p.117). E continua a afirmar que:

No momento em que a espiritualidade se constitui, a morte é acolhida porque o gesto que tem sentido, o tem porque está posto para além da existência mesma. Não mais a existência da pessoa será o que importa, mas o sentido do que é realizado. O sentido é vivido como mais importante que a existência pessoal. (2006, pp.117-118)

Na situação da experiência que o personagem vive, afirmo que ele vive algo que aponta para o surgimento de uma espiritualidade (por meio do o arrependimento que vive), porque consegue superar seu ímpeto natural de viver para o imediato, meramente reagindo às diversas situações, e estabelece um novo padrão mais confiante e esperançoso no devir, conseguindo dar um sentido para elas em seu destino. Espiritualidade tem o sentido aqui de colocar as situações da vida em transcendência, superar determinações e condicionamentos passados e colocá-los em devir. Está relacionada à possibilidade de o homem deixar de ser um ente determinado por seu aparato biológico, e vir a ser alguém que age em liberdade, para além de determinismos naturais.

Karim deixa de ser um reflexo das condições ambientais e passa a conseguir usá-las como oportunidade de amadurecimento, dessa maneira, transcendendo-as. Obviamente que essa conquista deverá ser sustentada no tempo, a fim de que configure de fato uma espiritualidade - e aqui talvez esteja uma das maiores contribuições que o trabalho clínico pode oferecer a alguém que atravessa experiências tais como aqui abordamos. A clínica pode ser o lugar em que experiências como essas que o personagem vive, ganhem sentido e permanência, penetrando no seu cotidiano na forma de um saber tácito que produz amadurecimento. É possível que todo o ganho que alguém vive em experiências transformativas seja perdido com o tempo; e por isso o trabalho de sustentação que a clínica pode oferecer, muitas vezes tem que ser realizado, a fim de que os frutos que surgiram ao longo das experiências ganhem ancoragem no cotidiano.

O filme também nos ajuda a pensar no arrependimento como a superação de uma tendência humana ao isolamento, despertada pelo medo e pelo ressentimento. A opção pelo isolamento parece surgir de um ímpeto instintivo humano, que procura lidar de forma imediatista e individualista com os eventos que o atravessam. Parte do percurso humano será aprender a abrandar esse ímpeto e subjugá-lo à confiança no outro e à esperança na prodigalidade da vida. Superar esse ímpeto permite ao ser humano aproximar-se do outro.

É claro em "A Canção dos Pardais", que um dos frutos da experiência transformativa que o personagem vive é o de habilitá-lo a estar mais poroso e receptivo à alteridade. Quando suas defesas desabam, Karim torna-se mais capaz de ter empatia com os demais, e apresenta maior respeito à alteridade. O arrependimento leva o indivíduo a acolher o outro dentro de si e dentro de seu horizonte de vida.

A forma como o diretor apresenta esteticamente o personagem, após esse já ter criado para si uma feiúra em suas feições, nos faz pensar que o sistema defensivo que montou, fez o rosto de Karim tornar-se uma máscara. Já não se encontra nesse momento do filme as reais feições do personagem, mas apenas uma caricatura de si. Toda a experiência transformativa que vive, faz com que seu rosto volte a se manifestar e a máscara construída, como que se desmancha.

Essa dinâmica de rosto para máscara e máscara para rosto, e um último rosto muito mais pleno e verdadeiro que o anterior, nos remete ao que a Igreja Ortodoxa entende por Ícone. O ícone é sempre a manifestação da plena realização do rosto de um ser humano. É um rosto transfigurado pelo amadurecimento, pelo contato íntimo com o Outro.

Por meio do rosto icônico, pode-se descobrir a pessoa que nele habita. E mais uma vez a Teologia nos empresta sua compreensão antropológica, quando nos permite pensar que o percurso que o personagem do filme faz, é o de sair de uma condição de indivíduo e caminhar para uma condição de pessoa. Vlashos oferece com clareza uma distinção entre esse dois conceitos. Ele ensina:

O termo 'pessoa' é usado para dizer respeito ao homem que tem liberdade e amor e é claramente distinto da grande massa, enquanto que o termo 'indivíduo' caracteriza o homem que permanece um ser biológico e gasta toda sua existência e atividades em suas necessidades materiais e biológicas, sem estabelecer nenhum sentido em sua vida. (1999, p.12)

E em outro momento conclui:

Não é possível definir a pessoa filosoficamente, pois ela é um objeto de revelação. E essa revelação acontece no coração humano. Aí o homem percebe que uma mudança está acontecendo e que ele está passando de máscara para uma pessoa. A revelação e a pessoa viva também são chamadas de o renascimento do homem. Ao homem é dado o renascimento pela graça divina e assim, torna-se uma pessoa, ou melhor, poderíamos dizer que a pessoa nasce de cima. A pessoa renasce das Alturas. Uma flor maravilhosa que desabrocha dentro de nós [...] A pessoa transcende todos os limites terrenos e move-se em outras esferas. Ela é singular e única. (1999, p. 19)

Por fim, o que nos chama bastante a atenção, é o fato de Karim, em seu poema citado aos meninos, conseguir reconhecer que a transformação que vive não é de sua autoria, mas de um outro. Ele diz: o bastão dos céus atingiu o meu coração, e com isso dá a entender que sabe que foi presenteado com a experiência que viveu, e que por ele mesmo, não teria sido capaz de promovê-la. O outro, seja ele parte da comunidade humana, seja parte do inefável, é tomado como o autor de sua transformação. O arrependimento é vivido como pura oferta.

Benzer Belgeler