Em geral, as Universidades medievais eram poderosas corporações fundadas apenas para transmitir determinadas disciplinas e atribuir graus acadêmicos àqueles que demonstrassem suficiência em sua área. Tais saberes se achavam distribuídos em áreas específicas, a cada uma das quais correspondia uma faculdade: artes, teologia, filosofia, medicina, direito civil e direito canônico.137
A ciência se encontrava nos livros e não se pretendia transformá-la, senão transmiti-la. Nesta reafirmação e estratificação do saber, havia uma disciplina que não se constituía em faculdade. Era a gramática. Seus professores, em princípio,
135 Renauet. Op. cit., p. 52.
136 Natálio Fernández Marcos e Emilia Fernández Tejero. Biblismo y Erasmismo en la España del Siglo XVI. In: El Erasmismo en España, p. 97.
137 Enrique González González. La crítica de los humanistas a las Universidades: El caso de Vives. In: F. J. Fdez, Nieto e outros.(Coords.) Luis Vives y el Humanismo Europeo, p. 13.
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possuíam maior flexibilidade, mas, ao mesmo tempo, não logravam os mesmos privilégios dos demais. É interessante destacar que o humanismo nasce e lento se desenvolve justamente neste campo marginal dos professores de gramática, inclusive na própria Espanha, onde a expressão mais alta é Nebrija.
Escolástica e Universidade são indissociáveis na Idade Média e, assim, se prolongam por um bom período pós-renascentista. É impossível fazer um corte histórico seguro quanto ao momento exato em que se deu o rompimento. Em torno desse saber e método de ensinar, consolidaram-se as Universidades européias, formando, particularmente, os juristas que tinham uma forte demanda entre as autoridades civis e eclesiásticas, que, via de regra, os ocupavam na administração de seus interesses.138
O início do século XVI desponta mostrando o vigor das Universidades espanholas, especialmente a de Salamanca. Nascida no século XIII havia crescido enormemente em fama e conhecimento. Para ali acorrem pessoas de toda a Europa com o fim de aperfeiçoarem-se em letras, medicina, direito, filosofia, teologia, entre outras virtudes.
Desde Alfonso IX de Leon, o vencedor em Navas de Tolosa (1212), remonta a origem da Universidade de Salamanca, porque a gratidão a Deus pela vitória alcançada, o moveu a fundar uma sede de saber para a glória da Sabedoria. São Fernando III e Afonso X, o sábio, concentraram dinheiro, tempo e energia no edifício de Santa Sofia de Espanha, às margens do Rio Tormes. Já no século XV, Benedicto XIII, seu segundo fundador, lhe deu novo impulso, e, por fim, os reis católicos Fernando e Isabel a favoreceram, para que obtivesse lugar de preeminência entre as Universidades européias.139
Por volta de 1552, matriculam-se, em Salamanca, 6.328 alunos, total dificilmente igualado por outra Universidade européia. Chegam estudantes de
138 Enrique González González. Op. cit., p. 18.
todas as classes sociais, desde o nobre rico acompanhado de seus criados, até os mais pobres sopistas que confiavam à caridade a sua manutenção.140
Suas tendências, ainda que conservadoras e escolásticas, não afastam, de modo algum, as idéias novas. Ali revela Colombo os segredos do novo mundo; ali também se ensina o sistema de Copérnico, antes de haver sido aceito em outra parte. É quase a única Universidade em que se permite aos seus anatomistas a dissecação do corpo humano, em uma época em que semelhantes práticas eram totalmente proibidas por ímpias.141
Diz-se que Salamanca é a única Universidade de seu tempo a permitir a entrada de mulheres. Pelo menos, Lúcia de Medrano e Juana de Contreras costumavam ministrar lições públicas ali. A filha de Nebrija, a erudita Francisca de Nebrija, deu aulas em Salamanca.
Salamanca, no século XVI, marca um ciclo de cultura definitivo para o desenvolvimento da cultura e do pensamento político espanhol, propriamente dito. Quatro professores definem este período: Francisco de Vitoria, Diego de Cavarrubias, Domingo de Soto e Martin de Azpilcueta.
Enquanto Vitoria, com a serenidade do seu espírito, preside uma verdadeira revolução ideológica predicando as conquistas do renascimento erasmista Diego Cavarrubias dá forma ao renascimento jurídico espanhol – significa a primeira teorização da política imperial da Espanha.
Vitoria e Soto fizeram de seu magistério teológico em Salamanca uma cátedra de direito e de ciências do Estado. Desde aí, por meio de seus discípulos – é o caso de Melchior Cano que sucede a Vitoria em Salamanca - difunde-se um pensamento político novo na sociedade espanhola do século XVI.
A Universidade de Valladolid está entre as mais antigas da Espanha e se fez famosa mundialmente pelos trabalhos especializados em cirurgia. Entre o final
140 R. Trevor Davies. El Siglo de Oro Español, p. 26. 141 Ibid., mesma página.
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do século XV e início do século XVI, funda-se um número significativo de Universidades, a saber: Sigüenza (1472), Zaragoza (1474), Ávila (1482).
Todavia, a Universidade de Alcalá é a mais importante das novas fundações, e sua origem (1508) se deve ao Cardeal Jimenez de Cisneros. Alcalá pode ser considerada uma verdadeira cidade universitária do século XVI, uma vez que provê moradia aos seus catedráticos, estudantes e livreiros. Os melhores professores da Europa se encontram dentro de seus muros e ali se acolhem todas as correntes do melhor pensamento renascentista.142
A fama permanente de Alcalá perdura em sua Bíblia poliglota, que, entre outras coisas notáveis, contém, pela primeira vez, uma impressão em grego das Sagradas Escrituras (1514), dois anos antes da tradução de Erasmo.143
Uma lei de 1480 permite importarem-se livros estrangeiros sem nenhum imposto. A atividade das prensas revela um crescimento significativo da atividade intelectual na Espanha desse tempo. Häbler enumera não menos de 720 livros impressos em 25 cidades distintas da Espanha, antes de terminar o século XV, uma cifra impressionante se comparada à Inglaterra com 358 livros impressos nesse mesmo período.144