Não é de se estranhar que as Temperance Societies possuíssem ramificações as quais procurassem se estabelecer entre os mais diversos segmentos na sociedade, inclusos nisto os jovens, as mulheres e as crianças. As crianças, obtiveram lugar privilegiado em sua relação com os “adeptos da promessa” em razão das construções de seminários e
estudos semanais desenvolvidos através de ações lúdicas musicais intituladas Bands of Hope, principalmente por considerarem a educação de crianças como a necessidade vital
para a consolidação da moral.
Mas havia, ainda, a necessidade de se enquadrar os jovens, como um setor de urgências. Pensando nisso, caso este fosse devidamente instruído, poderia propagar a moral do etos da sobriedade. Nisto, é interessante ressaltar que o movimento de temperança passa a reverberar uma condição de movimento internacionalista, considerando sua ampla propagação muito pela influência exercida por um grupo que, a seu modo, surge como uma alternativa frente aos movimentos religiosos e assistenciais do século XIX na Inglaterra, ou seja, o Young Men’s Christian Association (YMCA)15.
Fundada por George Williams, no ano de 184416, a associação teve como meta o acolhimento e apoio espiritual, moral e trabalhista aos jovens imigrantes que procuravam Londres a trabalho. Eram de praxe os ensinamentos cristãos; podemos considerar que as práticas assistenciais ofertadas pelo YMCA sugeriam um catecismo semelhante ao das pastorais católicas, onde levam-se supostas alternativas sociais e se introduz a mensagem e ética cristã como “alimento para o espírito”. Destarte, a fundação da YMCA não provém
das associações de temperança, mas geram vínculos entre ambas as entidades através de dois fatores comuns: a postura contrária ao uso do álcool por parte da sociedade e a origem protestante de ambas as organizações.
15 A música “YMCA” do grupo Village People surgiu como uma paródia à organização, onde o letrista resolveu abordar o entusiasmo dos jovens negros partícipes em seus momentos de evangelização e abordagem de pessoas, principalmente em jogos de basquete e em campeonatos de natação. A organização, por sua vez, chegou a elaborar um processo judicial contra a banda, por sua vinculação aos homossexuais e a posturas diferentes das adotadas por ela, mas voltou a trás quando o número de novos associados aumentou exponencialmente depois da ampla divulgação e aceitação da música.
16 George Williams nasceu em 11 de outubro de 1821, na cidade de Somerset, Inglaterra. Converteu-se ao protestantismo da Igreja Congregacionalista onde fora incumbido de realizar ações de evangelização. Aos 23 anos funda a Young Men’s Christian Association por razão de afinidades sociais (trabalhadores vindos de regiões rurais e instalados em Londres, geralmente em setores comerciantes) e para propagar valores cristãos e éticos. Vide: BLOCKER, S. Alcohol and Temperance in Modern History: na international encyclopedia. California: ABC-CLIO, 2003, 842p.
Assegurados por uma dupla condição estratégica, ambas as associações progrediriam, e muito, em seus intentos, alcançando o patamar da política normativa já no século XX, onde se tornariam verdadeiras instituições, reverberando mesmo no sentido de “interesse público”17. É na esteira de sua importância que, ainda no século XIX, a YMCA abriria as portas de seus escritórios para o uso e divulgação dos ideais abstêmios, como forma de suporte ao projeto de proibição do álcool. Nisto constata-se haver um movimento interior dentre as sociedades de sobriedade quanto à postura sobre o uso moderado (temperança) da bebida alcoólica: começa-se, então, uma abertura para um posicionamento mais arraigado, mais vinculado mesmo ao preceito da proibição que, mais tarde, se configuraria como lei, procurando a outorga da extinção do álcool na sociedade sob o poder do Estado e da sociedade civil.
O YMCA não se configurou apenas como um grupo de jovens cristãos que procurava abster-se dos prazeres diversos e que se reunia para divulgar suas crenças e contar seus acréscimos de fé, mas tornou-se um importante aliado para a construção da política proibicionista, muito pelo prospecto fascinante que conseguiram ter: já no final século XIX e início do século XX, com cerca de 40 milhões de membros e 140 unidades locais espalhadas ao redor do planeta, a YMCA aportou em diversos países, costumou-se ao desenvolvimento de programas de cariz humanitário18
Apesar de ter iniciado suas ações como um grupo de convivência e apoio para trabalhadores pobres dos grandes centros urbanos do século XIX, a YMCA possuía um forte apelo patriótico, que incidia diretamente sobre seu público alvo (a maior parte era
17 Tal movimento político em pouco se difere do que vemos hodiernamente com as chamadas Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) as quais, por meio de uma “aceitação civil das boas práticas sociais” imbricam uma correspondência direta entre a necessidade política de determinada organização e sua função socialmente definida, no interior do plano das ingerências.
18 Fundou a Cruz Vermelha Internacional, auferiu 02 prêmios Nobel da Paz (associados, respectivamente, a criação da Cruz Vermelha e aos trabalhos de apoio médico com soldados durante a Guerra Civil, 1° e 2° Guerra Mundial), inventou o voleibol, o basquetebol (tornando, ambos, esportes olímpicos) o futsal, e criou a data oficializada que se declara como Dia das Mães.
composta por imigrantes que procuravam os grandes centros para trabalhar, considerando suas procedências econômicas precárias).
O “Y”19 incluía sermões sobre temperança e patriotismo. Estas práticas,
provavelmente, alienaram alguns imigrantes. A propaganda do Movimento de Temperança não poderia ter se assentado bem entre os imigrantes que tradicionalmente bebiam vinho e cerveja. Palestras acompanhadas de canções patrióticas sobre as bênçãos de oportunidades políticas e econômicas da América muitas vezes sofriam com as comparações feitas sobre a realidade da situação dos imigrantes. Um operário italiano, por exemplo, ao ouvir a canção “América”, pediu ao seu instrutor para explicar-lhe o significado das palavras “doce terra de liberdade”. Ao final da explicação, o trabalhador simplesmente disse “Professor, essa canção está errada”. Apesar das desvantagens, o “Y” foi mais bem sucedido do que outros grupos privados na criação e participação em aulas de língua inglesa na indústria (KORMAN, 2002, p.226).
Havia uma intensa participação do YMCA em grupos organizados dentro das indústrias, principalmente em locais onde estas se estabeleceram de modo fulcral como em Birmingham (Inglaterra) e Detroit (Estados Unidos), providenciando a uma ampla camada de trabalhadores jovens os ideais da temperança (KORMAN, 2002). Em uma coluna do primeiro número do Journal of American Temperance Society, é possível encontrar uma recomendação aos jovens a qual refere-se tanto ao patriotismo quanto ao fato de tornar-se livre através da abstinência.
É notável que ampla camada da população estadunidense procurou obliterar de suas vidas o uso de bebidas alcoólicas, mas o uso não se desconstrói de um momento a outro, num solavanco moral cristão patrocinado por um grupo em uma única tacada. Boa
19 N.T.: Youth Men’s Christian Association, que no Brasil é conhecida por “Associação Cristã de Moços” (ACM). Cf: <http://www.YMCA.org.br/site/index.asp?pagina=inicial>. Acesso em 14/04/2014.
parte dos membros dos movimentos de temperança iniciaram suas vidas nisto ainda jovens, entre os 20 e 35 anos, execrando de suas vidas, progressivamente, o uso do álcool, porquanto adentravam cada vez mais na produção de novos dispositivos de aperfeiçoamento do ideal e da prática, na criação de casas de recuperação, entidades assistenciais e, como não poderia deixar de ser, na política local.
Além da YMCA, intercala-se nisto a importante representatividade auferida pelas mulheres em relação ao movimento de temperança. Considerando as transformações que ocorreram no lócus discursivo do grupo, passando de uma postura incentivadora de práticas de moderação para uma proibição legal, o alcance das mulheres tornava-se imprescindível para a sua difusão nos lares, desde a educação da criança até a repreensão ao marido.
Tyrrell aponta que o movimento de mulheres exerceu grande força política devido ao fato de 60% dos membros de grande parte das Temperance Societies ser constituída por elas, e que buscavam formas de agir perante a situação do álcool na sociedade (TYRRELL, 1991a, p.15). Das práticas de passeatas e reuniões realizadas em hotéis da temperança20 houve, então, a necessidade de criação do movimento de mulheres, considerando seu peso numérico exponencial, surgindo dali a chamada Woman’s Christian Temperance Union (WCTU), em 23 de dezembro de 1873, e que permanece até os dias atuais, contabilizando um número crescente de membros até o ano de 1961 (cerca de 250 mil membros), quando inicia uma expressiva queda, chegando em 2012 com o número de 5 mil membros nos Estados Unidos. Segundo Gusfield (1995), tal qual seu
20 Hotéis da Temperança, assim como Cafés da Temperança e outros equipamentos comerciais, eram locais onde as práticas da abstemia eram propagadas, debatidas e impostas como condutas. Além disso, serviam de quartel para as campanhas políticas e de fundos de financiamento para diversas ações do movimento. A primeira aparição destes recintos deu-se por intermédio da necessidade de confraternização em ambientes livres do álcool através dos partícipes do movimento cartista; para Hall, a crença no ideal abstêmio por parte, principalmente, dos cartistas, levou a adoção de “modelos culturais da burguesia” (HALL, 1999, p.73).
homônimo masculino, a WCTU possuiu um forte apelo político e social nos dois primeiros lustros do século XX, angariando milhões de dólares até a década de 1940, referenciando a década de 1920 como a mais emblemática para a instituição, com cerca de 766 mil membros divididos em quarenta países (GUSFIELD, 1995).
Contudo, foi no início da WCTU, que a retórica da tradição moral do ideário abstêmio reconfigurou-se, passando de uma produção de valores e sustentação de condições do não uso do álcool através da consolidação da conveniência e do convencimento para uma radicalidade política que levaria à proibição. A forte presença socialista em seu meio dá a WCTU uma inclinação aos pressupostos das lutas sociais (sufrágio para mulheres, jornadas trabalhistas de oito horas, conciliação judicial), travestindo a ideologia esquerdista em um frequente autoritarismo em torno da questão alcoólica (TYRRELL, 1986, p.29). Todas estas prerrogativas tornaram-se o mote da WCTU, aliado a uma religiosidade de cariz protestante, por razão da forte presença de sua segunda presidente, Frances Willard. De acordo com Tyrrell (1986) após o falecimento de Willard, a WCTU
sucumbiu a um estreitamento político, abandonando seu flerte com o socialismo e defendendo a proibição sendo que, a partir daí, a influência entre as mulheres mais jovens diminuiu auxiliado pela ascensão das sociedades de sufrágio no período de agitação pelo voto feminino, que atingiu seu pico durante a Primeira Guerra Mundial (TYRRELL, 1986, p.29).
Mesmo com uma redução do efetivo de seus integrantes, a WCTU não associou à diminuição de sua influência, seja política ou moral, no interior dos Estados Unidos: capaz mesmo de sintetizar campos de influência dos mais diversos, irrompeu numa série de ações que influenciariam, e por vezes encabeçariam, as ondas de manifestações e atos
contrários à presença do álcool na sociedade ao momento em que procuravam liar a questão do álcool como difusora dos males sociais que se alastravam, como o desemprego, a violência, o desamparo.
No período em que Willard manteve-se como presidente, um nome se destacou pela representação das obras de caridade e apoio a mulheres e crianças na WCTU. Foi Matilda Carse, irlandesa, que imigrou para os Estados Unidos em 1858, quando tinha 23 anos, casando-se com Thomas Carse, um rico empresário das ferrovias estadunidenses. Com o falecimento de seu marido, herdou uma riqueza pessoal enorme, empregada na ajuda assistencial a diversas instituições de caridade. Porém, foi com a morte de seu filho mais novo (assassinado por um carroceiro bêbado), que ela adentrou ao WCTU para fundar, posteriormente, a Woman’s Temperance Publishing Association, em 1880, que
se tornou a maior publicação dos Estados Unidos (FRICK, 2003).
Figura 3: WCTU, EUA, 190721.
A presença de Matilda Carse para a propagação do ideal abstêmio estadunidense deu-se não só devido a sua riqueza e às relações de influência arraigadas aos grupos da grande política do norte, obtendo êxito em grande parte de suas ações assistenciais e levando adiante o ideal abstêmio. Dessa forma, as posições assumidas pelos líderes dos movimentos de temperança incidiram em produções assistenciais e de saúde as quais determinariam boa parte das políticas sociais que se aperfeiçoariam no futuro, como a relação intrínseca entre a abstemia e a política de saúde, ou mesmo o proibicionismo e futuro legalismo e, para além mas não tanto, na política de educação.
Quando analisamos o desenvolvimento do ideal abstêmio e seus desdobramentos em grupos de interesse os quais refletem um maior alcance e adesão e, nos deparando especialmente com o WCTU, é possível dizer que as estratégias empregadas para a contenção do álcool na sociedade dos séculos XIX e XX se alternam em uma razão contínua, evidenciando a busca por certa saúde. Este tema não advém somente do fomento do ideal abstêmio anglicista, mas de formas conjuntas de supressão e domesticação do corpo no próprio processo de produção da saúde, de uma saúde controlada e definida, dada. Por trás das questões do sufrágio feminino, das associações de ajuda assistencial, das casas para crianças sem-teto, da produção de grupos de mulheres em torno da família, da moral e dos bons costumes, enfim, ao redor desta produção do fim do século XIX e início do século XX a questão do álcool surgiu como um conjunto de ações políticas voltadas ao controle da população, que incidiram decisivamente em legislações e outorgas.
A percepção do papel do álcool salta aos olhos quando se analisa a questão das petições realizadas, principalmente, pela WCTU. No século XIX, Frances Willard organizou petições para que as mulheres tivessem direito ao voto em questões referentes ao processo de tomada de decisões sobre o alcoolismo. Na primeira tentativa, alcançou o
número de 170 mil assinaturas sob uma petição que referenciava o voto feminino em torno de decisões quanto a proibição da venda de álcool em estabelecimentos. Em 1880, Willard organizou a Polyglot Petition, em que missionários do World’s Woman’s Christian Temperance Union (formato mundial da WCTU) colheram assinaturas para solicitar uma proibição em torno do álcool, do tabaco, do ópio e de outras substâncias entorpecentes. A influência da WCTU foi fundamental para a criação do Salvation Army e, não apenas por isso, mas com uma forte presença, a WCTU pode alcançar países onde não se esperava uma adesão, com o envio de missionários da temperança. Na China, por exemplo:
Crianças de algumas escolas missionárias chinesas sentaram-se em salas de aula em que sua imagem [de Willard] fora colocada nas paredes; no País de Gales, miniaturas de fotografias de Willard eram transportadas por pequenos agricultores solitários; cartas testemunhavam sua fama e influência, vindas de vários países; jornais relatando as convenções da WCTU chamados de “a mundialmente famosa palestrante da temperança”. Willard era adorada por seus seguidores nos Estados Unidos, mas fora do WCTU americano, seus partidários concorriam para perpetuar o culto a Willard após sua morte, nomeando edifícios e até colocando seu nome em crianças. Ela era a “rainha da temperança”, de acordo com um relatório, com seu trabalho classificado como o “mais bem sucedido do que o de qualquer estadista em vida” (TYREEL, 1991, p.232).
Chama a atenção o emprego da palavra adorada, indicando uma ascensão da presidente da WCTU a uma postura deificada, mítica. Neste sentido, a congruente questão levantada por Rodrigues (2004) nos traz um aporte de pensamento voltado à interpretação da moral estadunidense: “como foi possível [...] que passados cerca de 150 anos da
independência, o proibicionismo começasse a aparecer com força irresistível, abrindo caminhos legislativos até a aceitação [...]” (RODRIGUES, 2004. p.86)? É inegável que a
procedência estratégica da composição dos sujeitos estadunidenses ser uma integração entre sociedade civil e religião de cariz protestante tenha influenciado, e muito, a adequação do cenário propício ao desenvolvimento das categorias e decisões políticas do país, fomentando uma sociedade onde a presença do álcool deveria ser legalmente repudiada, combatida, suprimida.
Esse ponto é relevante para a compreensão das procedências, reiteradas pelas atuais configurações do ideário político que se estende dos movimentos da política maior alcançando a produção da vida política cotidiana dos sujeitos, em suas mais variadas formas de ser, contribuindo para uma ingerência baseada no alcance do Estado às mínimas situações. Assim, com uma camada cada vez mais favorável à aplicação da sancionatória proibitiva, não apenas no álcool mas utilizando-o como foco, as bases para uma aproximação do Estado no cuidado pastoral da sociedade estariam lançadas, corroborando antes para a construção de uma moral vinculada à incapacidade do autogoverno, que para uma contestação massiva e eficaz. Entretanto, é neste ponto em especial que temos o que seria a crítica liberal, realizada no século XIX por Lysander