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Son Çekim Edatları

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2.6. Edatlar

2.6.3 Son Çekim Edatları

Francisco Rodrigues de Paiva, editor de Acção; Reacção; Transacção, recomendava que este panfleto de 1855 deveria “ser lido por todos os brasileiros que se interessem pela historia e pela marcha dos negocios públicos do seu paiz”.2 Seu autor, por sua vez, o jornalista Justiniano José da Rocha, afirmava que “o estudo reflectido da historia nos patentêa uma verdade, igualmente pela razão e pela sciencia”, e compreendia o movimento da

1 MACEDO, Joaquim Manoel de. Terceira Exposição Brazileira em 1873. Relatório do

Secretario Geral do Jury da Exposição. Rio de Janeiro: Typographia da Reforma, 1875, p. 12. 2 ROCHA, Justiniano José da. Acção; Reacção; Transacção. Duas palavras acerca da

actualidade política do Brasil. 2ª. ed. [1855]. Rio de Janeiro: Francisco Rodrigues de Paiva, 1901, p. 5.

humanidade no tempo enquanto uma “luta eterna da autoridade com a liberdade” em que “ha periodos de transacção em que se realisa o progresso do espírito humano e se firma a conquista da civilização”, e, nesse contexto, concluía Rocha que “as constituições modernas mesmas não são senão o trabalho definitivo dos períodos de transacção”.3

Desse modo, a concepção de história de Justiniano José da Rocha se traduz em uma trajetória da luta pela liberdade que se revela no processo do espírito humano no tempo e se firma na conquista da civilização. Sob tal fundamento, Rocha compreendia que o tempo presente no qual ele próprio estava inserido seria um período de transição alocado próximo ao final da trajetória, situado aparentemente ao alcance do estágio de progresso e desenvolvimento, conforme se observa na periodização que estabelece para o Brasil:

Diviriremos este opusculo em diversos periodos, bem definidos. De 1822 a 1831, período de inexperiencia e de luta dos elementos monarchico e democratico; de 1831 a 1836, triumpho democratico incontestado; de 1836 a 1840, luta de reacção monarchica, acabando pela maioridade; de 1840 até 1852, dominio do principio monarchico, reagindo contra a obra social do dominio democratico, que não sabe defender-se senão pela violencia, e é esmagado; de 1852 até hoje, arrefecimento das paixões; quietação no presente, anxiedade do futuro; período de transacção.4

Rocha também concebe o processo e a temporalidade da história como sucessões de etapas dentro de uma trajetória em direção à civilização em outra obra, no seu Compendio de História Universal, publicado em 1860. Segundo o próprio autor, a escrita dessa obra buscava responder à necessidade de completar as lacunas presentes no curso de história universal do Colégio Pedro II, cuja bibliografia era até então praticamente toda francesa. Dizia Rocha que "os compendios francezes têm gravissimos defeitos", pois teriam sido escritos "pelo patriotismo, a bem da exaltação e do engrandecimento da França", que "não hesitam em apresentar todos os factos historicos como determinados pela influencia francesa", como se aceitássemos que "todos os povos gravitam ao

3 ROCHA, Justiniano José da. Op. cit., 1901, p. 15.

4 ROCHA, Justiniano José da. Op. cit., 1901, p. 18. Há reincidências de tal compreensão também em seu folheto Monarchia-Democracia. Ver ROCHA, Justiniano José da. Monarchia-

redor da França". Assim, acusava Justiniano José da Rocha que, em tal bibliografia, "os factos que desmentiriam esse systema são ommittidos" ou "são pelo menos acanhados", e que na história francesa seriam admitidos apenas os fatos "que não protestem contra a verdade franceza".5

Além do ponto de vista francófono da historiografia, Rocha também apontava que o problema de ter uma bibliografia escrita por franceses e para franceses no curso de história universal do Colégio Pedro II seria a fadiga inevitável da qual sofriam os estudantes brasileiros, causada por uma injustificada leitura obrigatória "com tantos Merovingios e Carlovingios, com crimes e enredos dos Brunegildas e Fredegundas", sem que isto de fato dissesse respeito aos "fundadores da bella e livre monarchia a que pertenceram os seus paes":

A nós filhos de Portuguezes, que já tinham as suas côrtes de Lamego, que já tinham a admiravel legislação das ordenações, apresentam elles [os franceses] a civilisação moderna nascendo do triumpho de Luiz XI, de Richelieu, de Luiz XIV sobre a fidalguia, e quando a Inglaterra já tinha tido o seu parlamento, e sua famosa revolução politico-religiosa, a declaração de direitos do seu Guilherme IV e os escriptos do seu Loke, quando a Italia já de ha muito tinha tido as suas republicas commerciaes, quando a Hespanha já de ha muito ostentava os fóros de Aragão, dizem elles do seu Montesquieu...6

O principal argumento de Rocha para justificar seu Compendio, entretanto, coloca a escrita da própria história não apenas em termos patrióticos mas também em função de valores civilizatórios:

Com os livros francezes, somos obrigados a destacar a historia nacional, fazendo della assumpto de uma cadeira especial; pois nesses livros mal se faz menção das nossas cousas; como se o desenvolvimento do systema colonial não fosse uma das bellas faces da civilisação moderna, como se as occurrencias das colonias, sua progressiva opulencia não tivessem exercido grande influencia nos acontecimentos geraes da humanidade!7

5 ROCHA, Justiniano José da. Prefacio. In: __ Compendio de Historia Universal. Volume I. Historia Antiga. Rio de Janeiro: Typ. do Regenerador de Just. J. da Rocha, 1860. Ver também ROCHA, Justiniano José da. Compendio de Historia Universal. Volume II. Da Idade Média. Rio de Janeiro: Typ. do Regenerador de Just. J. da Rocha, 1860.

6 ROCHA, Justiniano José da. Prefacio. In: __ Op. cit., 1860. 7 ROCHA, Justiniano José da. Prefacio. In: __ Op. cit., 1860.

Observa-se, assim, que Justiniano José da Rocha estabelece uma relação entre a demanda por uma historiografia nacional sobre a história universal e a necessidade do Brasil mostrar sua própria trajetória no tempo enquanto revelação de sua contribuição à humanidade e à civilização.

A reivindicação pela sistematização de um saber autóctone para a história nacional também é patente em escritos do médico homeopata alagoano Alexandre José Mello de Moraes. Na obra intitulada Os Portugueses Perante o

Mundo, de 1856, Mello de Moraes compreendia que o Brasil orgulhava-se de

descender de Portugal porque o país europeu legou a obra da civilização à sua antiga colônia.8 Essa empatia por Portugal é sobretudo evidente na Corographia

Historica, Chronographica, Genealogica, Nobiliaria, e Politica do Imperio do Brasil, publicada em 1858, obra em que Mello de Moraes critica a qualificação

negativa que o Brasil frequentemente recebia em escritos de "estrangeiros". Contra isto, Mello de Moraes explicava que, para a composição do trabalho, buscou o apoio de fontes em escritos preferencialmente de brasileiros e de portugueses, além de documentos, para fazer uma espécie de justiça "nacional- historiográfica" ante a estrangeiros que escreveram sobre o Brasil de maneira pejorativa.

Ao leitor do prefácio, Mello de Moraes observava que, "relativamente ao Brasil, poucos forão os escriptores estrangeiros a quem consultámos, e d'entre elles nos servimos da autoridade dos mais conspicuos". Assim explicava as fontes de sua obra: "preferimos em tudo os escriptores portuguezes, e brasileiros, e os valiosos documentos e monografias que possuimos". A justificativa para isso, nas palavras de Mello de Moraes, é que seriam "poucos os estrangeiros que fallão do Brasil e dos Brasileiros conscienciosamente, quando não proferem banalidades, que movem o riso, ou inventão calumnias escultas".9

8 MELLO DE MORAES, Alexandre José. Os Portugueses Perante o Mundo. Vol. I. Rio de Janeiro: Empreza Typog. (Em Liquidação) Dous de Dezembro, 1856. Ver também MELLO DE MORAES, Alexandre José. Historia da Transladação da Corte Portuguesa para o Brasil em 1807-1808. Rio de Janeiro: Livraria da Casa Imperial de E. Dupont, 1872.

9 MELLO DE MORAES, Alexandre José. Corographia Historica, Chronographica,

Genealogica, Nobiliaria, e Politica do Imperio do Brasil. T.I. Rio de Janeiro: Typographia Americana de José Soares de Pinho, 1858, p. IX.

Como Justiniano José da Rocha, Mello de Moraes apontava sua reclamação sobretudo para escritores franceses que, em sua compreensão, acusavam o Brasil de país desorganizado, semibárbaro e sem "riquezas reaes". Contra isso, rebate Mello de Moraes argumentando que

a inveja e o despeito não são os melhores conselheiros, e nem os mais aptos juizes, quando vemos, que ha mais de seculo e meio, e com a maior tenacidade, a Franca invida todas as suas forças, não perde muitas vezes a inoportunidade das circumstancias, desconhece os tratados que assignou, para se apoderar de uma parte do nosso territorio!!! E isto porque o Brasil não tem riquezas reaes?10

Mello de Moraes observa que o "escriptor francez" não reconhece a natureza fecunda e produtiva do "paiz gigante, immenso" que é o Brasil, "circulado dos maiores rios do mundo" e abençoado pelas "mais abundantes minas de metaes preciosos" e pela "vegetação mais corpulenta e prestimosa que se conhece sobre a face da terra". Ao invés, dizia Mello de Moraes que o escritor francês valoriza "as banhas cheirosas, os sabonetes, as bijouterias, e o que mais exporta, como sejão a falsidade, a calumnia, os vicios com capa de civilisação, com que se enriquece a moral dos outros povos".11

Não por acaso, Mello de Moraes afirmava que sua Corographia Historica havia sido escrita "para instruirmos a esses maldizentes do que seja o Brasil", e ressalva que "esta nossa reprimenda não é geral com os estrangeiros e nem em particular com a nacionalidade portugueza, é sómente applicada a aquelles que fazem do Brasil uma especulação mercantil". Entretanto, apesar da crítica e do repúdio serem dedicados àqueles que teriam vindo ao país "com as mãos vasias, e quando se vêm fartos faltão do paiz que os recebeo com amor", e também a quem teriam conspirado "contra os Brasileiros, que os enriquecerão", a pauta pelo critério da nacionalidade de Mello de Moraes parece não incluir sempre o português no estrangeiro do Brasil. Ao contrário, nas palavras de Mello de Moraes, as "leis a gratidão e do reconhecimento" acolhem o colonizador fraternalmente, como que em estado de graça pela civilização.12

10 MELLO DE MORAES, Alexandre José. Op. cit., 1858, p. X.

11 MELLO DE MORAES, Alexandre José. Op. cit., 1858, p. X. Grifos do original. 12 MELLO DE MORAES, Alexandre José. Op. cit., 1858, p. X-XI.

É possível verificar que esse tom crítico contra a perspectiva historiográfica estrangeira que crítica o Brasil perdura em escritos de Mello de Moraes na década de 1860. Isto pode ser observado em À Posteridade, O Brasil

Historico e a Corographia Historica do Imperio do Brasil, obra publicada em

1867 na qual Mello de Moraes avalia que a história do Brasil escrita pelo inglês Robert Southey se ressentia "não só do espírito de estrangeirismo, como do ridiculo aos nossos usos e costumes, e mesmo ás crenças religiosas". A conclusão de Mello de Moraes generaliza que "não é o estrangeiro o mais proprio e competente para escrever a historia de uma nação como a nossa", porque o estrangeiro, argumentava, "não nos poupará no ridiculo sempre que a opportunidade se lhe offerecer, como a cada passo vemos nos escriptos que se referem ao Brasil e aos brasileiros".13

5.2 Constatação dos problemas do Brasil pela historia, em Mello

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