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A maioria das universidades brasileiras, principalmente as que são mantidas através de recursos públicos, conserva em sua constituição um tripé central como instrumento para a formação de seus estudantes: o ensino, a pesquisa e a extensão. O mais emblemático dos conceitos, e possivelmente o mais complexo, é certamente o conceito de extensão universitária.

É de fácil compreensão, e rápida visualização de exemplos, de como um aluno pode exercer a prática do ensino e da pesquisa dentro da universidade. A prática da extensão gera um pouco mais de dificuldade de compreensão principalmente pelo complexo sentido semântico que a palavra possui. Segundo o Moderno Dicionário da Língua Português Michaelis, a definição de extensão é:

1. Ato ou efeito de estender ou estender-se. 2. Qualidade de extenso. 3. Fís Propriedade que

têm os corpos de ocupar certa porção do espaço. 4. Desenvolvimento no espaço. 5. Vastidão. 6. Grandeza, força, intensidade: A extensão da desgraça. 7. Porção de espaço. 8. Comprimento. 9. Superfície, área: A extensão de um terreno. 10. Gram Aplicação extensiva do sentido de uma palavra ou de uma frase. 11. Aumento de dimensão em qualquer sentido. 12. Fisiol Ação de alongar-se (opõe-se a flexão). 13. Pequeno ramal

telefônico, geralmente em residências. 14. Mus Intervalo entre os sons extremos ou entre o mais grave e o mais agudo em voz ou instrumento. 15. Amplitude, alcance. 16. Ampliação, dilatação. (Dicionário Moderno da Língua Portuguesa Michaelis)

A definição demonstra os diversos sentidos que essa palavra pode significar, sendo os grifos nossos para destacar as definições que mais comumente se associam para a expressão “extensão universitária”. Como propõe sua definição semântica, extensão universitária seria, então, uma ampliação dos conhecimentos acadêmicos até a sociedade, um aumento da sua dimensão, da sua amplitude, do seu alcance. Isso sugere que o conhecimento esteja em posse da Universidade que, em um ato de alongamento, o “leva”, o “transfere”, o entrega até a Sociedade e se coloca a seu serviço.

Se analisarmos mais a fundo esse raciocínio vamos perceber que esta é uma visão reducionista, que supõe uma relação ativo-passiva, onde a Universidade exerce o papel ativo de transferência do conhecimento e a Sociedade o papel passivo de aprendizagem deste conhecimento. Essa visão desconsidera o conhecimento prévio da Sociedade antes da chegada do extensionista, desconsidera a troca de conhecimentos entre ambos e a produção de novos conhecimentos que esta relação proporciona para ambas as partes. Por isso concordamos com Paulo freire quando este diz:

Por isto mesmo, a expressão “extensão educativa” só tem sentido se se toma a educação como prática da “domesticação”. Educar e educar-se na prática da liberdade, não é estender algo desde a “sede do saber” até a “sede da ignorância” para “salvar”, com este saber, os que habitam nesta. Ao contrário, educar e educar-se, na prática da liberdade, é tarefa daqueles que sabem que pouco sabem – por isto sabem que sabem algo e podem assim chegar a saber mais – em diálogo com aqueles que, quase sempre, pensam que nada sabem, possa igualmente saber mais. FREIRE, Paulo. Extensão ou comunicação? Pág. 15.

Daí a importância de procurar conhecer previamente a cultura de onde se vai fazer extensão universitária, ouvir, entender sua cultura, seus métodos, suas relações; para só depois dialogar com essa comunidade, com essa sociedade. É preciso entender também que a aprendizagem é uma atitude ativa e não passiva. A verdadeira aprendizagem só se estabelece quando nos colocamos no papel de sujeitos sociais ativos, interessados, quando nos apropriamos deste conhecimento na perspectiva de concretizá-lo em uma realidade, a nossa realidade. O conhecimento

“exige uma presença curiosa do sujeito em face do mundo. Requer sua ação trans- formadora sobre a realidade. Demanda uma busca constante. Implica em invenção e em reinvenção. (...) Por isto mesmo é que, no processo de aprendizagem, só aprende verdadeiramente aquele que se apropria do aprendido, transformando-o em apreendido,

com o que pode, por isto mesmo, reiventá-lo; aquele que é capaz de aplicar o aprendido- apreendido em situações existenciais concretas. (FREIRE, 1983, Pág. 16)

Sendo assim, a extensão precisa reunir elementos de pesquisa, para melhor entender o contexto e a bagagem cultural de onde está se inserindo. Precisa também desenvolver elementos de ensino, métodos e técnicas apropriados para cada realidade social. Precisa estar sempre aberto para a troca de conhecimento, estar sempre consciente de que não está ali transferindo conhecimento e sim o recebendo em troca e, então, refletir sobre suas atividades na busca da construção de um conhecimento conjunto, fruto dessa interação.

Nesse mesmo sentido, estamos de acordo com o texto elaborado pelo Fórum de Pró- Reitores de Extensão da UFC, presente no site www.prex.ufc.br, que define extensão universitária como sendo

(...) uma via de mão-dupla, com trânsito assegurado à comunidade acadêmica, que encontrará, na sociedade, a oportunidade de elaboração da praxis de um conhecimento acadêmico. No retorno à Universidade, docentes e discentes trarão um aprendizado que, submetido à reflexão teórica, será acrescido àquele conhecimento. Esse fluxo, que estabelece a troca de saberes sistematizados, acadêmico e popular, terá como conseqüências a produção do conhecimento resultante do confronto com a realidade brasileira e regional, a democratização do conhecimento acadêmico e a participação efetiva da comunidade na atuação da Universidade.

Apesar do ensino, da pesquisa e da extensão terem conceitualmente o mesmo patamar de importância na universidade e apesar da experiência extensionista, muitas vezes, ser uma atividade mais abrangente que também inclui experiências de pesquisa e ensino, ela é a menos valorizada das três.

Gostaríamos, pois, de expressar nosso desapontamento ao perceber falta de reconhecimento que a prática extensionista ainda possui nas Universidades: pontuando menos em seleções por currículo acadêmico para mestrados e doutorados, além de ser a que menos recebe verba dos órgãos públicos para sua realização e a que tem uma remuneração menor para o professor coordenador. Todos esses fatores são desestímulos para o engajamento e a dedicação de alunos e professores em atividades extensionistas que já demonstraram ser tão ricas e plenas em aprendizado, como acreditamos que é o Programa de Extensão TVez, do qual falaremos no tópico seguinte.

Benzer Belgeler