Discutir a escola pública na contemporaneidade pressupõe situá-la no plano mais amplo das relações sociais. Efetivamente, é preciso reconhecer que produzimos uma forma de sociabilidade cujo projeto societal hegemônico é subserviente aos ditames do capital. Decorre de tal situação que os interesses mercantis se sobrepõem aos interesses humanos. O que presenciamos atualmente, em planos micro e macro, é que esta forma de sociabilidade destroi o meio ambiente, banaliza a vida humana, precariza as relações de trabalho e, muitas vezes, negligencia princípios éticos de sua missão social tendo como questão precípua a reprodução do capital.
Esse projeto societário hegemônico que elegeu o mercado como a mola propulsora do seu desenvolvimento influencia e, na maioria das vezes, determina o projeto educacional brasileiro, uma vez que estes estão organicamente imbricados, ou seja, operacionalmente, não há como desvincular projeto social de projeto educacional. Acerca dessas implicações do projeto social na escola, Frigotto e Ciavatta (2003, p. 100) asseveram “[...] a educação básica da escola brasileira depara-se com problemas que incorporam e ultrapassam o âmbito nacional e o escolar porque dizem respeito à história e à cultura do país e à reprodução econômica em todo o planeta, [...]”. Podemos, então, depreender que, no seu desenvolvimento, a escola enfrenta desafios oriundos da forma de organização social que construímos.
Um desses problemas, a que os autores se referiram – que ultrapassa o âmbito nacional e o escolar diretamente ligado à reprodução econômica – é a questão relacionada às verbas destinadas à educação. Para entendermos a dimensão desse problema, precisamos considerar que, no contexto social contemporâneo, a política que dá sustentação ao projeto societário hegemônico é o neoliberalismo, aporte político que dá suporte à reprodução do
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capital. O problema é que os interesses do capital são antagônicos aos interesses sociais. Essas políticas, ao tempo em que protegem o capital, comprometem a área social. No campo educacional, isso tem repercussão imediata.
No âmbito nacional exemplo clássico desse antagonismo entre as áreas econômica e social foram os vetos10 do presidente Fernando Henrique Cardoso ao Plano Nacional de Educação (PNE). Esse Presidente justificou que os vetos foram orientados pela área econômica do Governo. Na realidade, funciona assim, pois na óptica neoliberal a minimização do Estado para a área social é um imperativo. Não há dinheiro para a educação pública, os recursos são reduzidos ao limite. Em contrapartida, se há uma instituição financeira na iminência de falir (como foi o caso do banco BANESPA, do BEC e de tantos outros), tal episódio passa a ser prioridade do Governo.
Na vigência das políticas neoliberais, a contradição é notória, pois de um lado, a educação, em particular a escola pública, que precisa cada vez mais de recursos financeiros para melhorar o padrão de qualidade do ensino brasileiro; do outro lado o Estado, que se minimiza no tocante aos gastos sociais. Nessa minimização do Estado, um dos aspectos que se manifestou de forma bastante intensificada na década de 1990, no governo de FHC, foram as privatizações. Acerca desse aspecto, Frigotto e Ciavata (2003, p. 106) advertem:
O ponto crucial da privatização não é a venda de algumas empresas apenas, mas o processo do Estado de desfazer-se do patrimônio público, privatizar serviços que são direitos (saúde, educação, aposentadoria, lazer, transporte etc.) e, sobretudo, diluir, esterilizar a possibilidade de o Estado fazer política econômica e social. O mercado passa a ser o regulador, inclusive dos direitos.
Essa política neoliberal que privatiza ‘os serviços que são direitos’ vai ‘dar prosseguimento’ ao funcionamento do ensino básico de forma precária. Quando dizemos dar prosseguimento referimo-nos ao fato de que as problemáticas inerentes à educação brasileira têm raízes históricas, políticas, econômicas e culturais. É necessário evidenciar, entretanto, que as políticas neoliberais, adotadas pelos governos brasileiros desde a década de 1970 até os dias atuais, são políticas de desmonte dos direitos sociais, e que, portanto, intensificam o quadro de precarização do ensino. As políticas neoliberais são explícitas para fazer funcionar o sistema capitalista priorizando a área econômica em detrimento da social. Retomando as palavras dos autores retrocitados, é um ideário político que esteriliza “a possibilidade do Estado de fazer política econômica e social”.
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No Brasil, na década de 1990, as políticas neoliberais se manifestaram com radicalidade no governo FHC. Nesse âmbito, as privatizações foram características marcantes do referido governo que, apoiado num discurso de que o Estado precisava se modernizar para se desenvolver, vendeu inúmeras estatais brasileiras em nome de um futuro “próspero e feliz” que nunca chegou, como explicitam Frigotto e Ciavatta (2003, p. 113):
A retração do Estado e a privatização dos serviços, ao contrário do discurso oficial e publicitário, não trouxeram benefícios à população. Ao contrário, privatizaram e elitizaram os serviços, transferiram o clientelismo populista para o clientelismo junto às organizações da sociedade civil e introduziram o voluntariado como uma questão de “cidadania”. São políticas que visam a minorar os efeitos da expropriação econômica e cultural que atingem as classes assalariadas (subempregados e desempregados), marginalizados, em diversos níveis, dos benefícios sociais propiciados pelo desenvolvimento das forças produtivas. São políticas pobres para os pobres.
Essa falsa promessa de benefícios à população menos favorecida não é nova. Se relembrarmos os discursos e as ações dos governos brasileiros nas décadas de 1970, 1980 e 1990, veremos que há uma uniformidade quanto ao discurso do desenvolvimento do País. Na época do regime militar, foi criado inclusive um jargão que dizia que “era preciso fazer o bolo crescer para depois repartir”. Desse modo, justificavam muitas ações perversas no plano político e econômico, que, segundo os governantes, iriam fazer o País crescer, desenvolver-se. Na década de 1990, o governo FHC renovou o discurso desenvolvimentista, adotando escancaradamente as políticas neoliberais. Na visão desse governo, para o País desenvolver-se, o Estado precisava ser forte como ordenador de uma política econômica nacional e mínimo no tocante às suas responsabilidades no âmbito social. Desse modo, Frigotto e Ciavatta (2003, p. 108, grifo nosso) assinalam que
A ausência de uma efetiva política pública, com investimentos no campo educacional, compatíveis com o que representa o Brasil em termos de geração de riqueza, vai conduzindo a medidas paliativas que reiteram o desmantelamento da educação pública em todos os seus níveis.
Esta opinião traduz com bastante lucidez os impactos do ideário neoliberal à educação pública. O cerne da política neoliberal é a reprodução econômica, daí que paralelamente ocorre a ausência de uma política pública, com investimentos no âmbito social. Não é leviano dizer que os malefícios da adoção de tais políticas transpõem o que se possa imaginar, uma vez que é impossível quantificar a degradação social decorrente dessa forma de sociabilidade capitalista, que tem como um de seus suportes as políticas neoliberais.
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São muito fortes as palavras dos autores retrocitados quando dizem que as políticas adotadas no contexto brasileiro vão “[...] conduzindo a medidas paliativas que reiteram o desmantelamento11 da educação pública [...]”. É inimaginável o prejuízo social para um país onde a educação pública vai sendo estruturalmente “desmantelada”. Do ponto de vista da educação pública, na contextura da Educação Básica, esse prejuízo é agravado se considerarmos que esta etapa da educação é a base para aprendizagens posteriores, entendida como “passaporte para a vida”.
Frigotto e Ciavatta (2003, p. 112) ainda advertem para a noção de que
As políticas e os planos educacionais, implementados em nível do Estado, no Brasil, acompanham as vicissitudes da sociedade brasileira na falência de não consolidar, até hoje, uma sociedade democrática e de não incorporar amplos setores populares a um projeto superior de país.
Fazendo uma “leitura de mundo,” como disse Paulo Freire, podemos exprimir que o Brasil deu largos passos naquilo que os governantes chamam de desenvolvimento do País.12 Incontáveis avanços comprovam isso (na tecnologia, nas comunicações, no turismo, inúmeras empresas atraídas para o Brasil, crescimento do PIB etc.). Esse desenvolvimento, entretanto, perceptível em tantas áreas, não se configurou na mesma proporção no setor social. Como decorrência direta das políticas neoliberais, a área social foi, nas décadas passadas (e ainda é no presente), brutalmente apenada. Nesta tese, denunciamos o descaso governamental para com a escola pública. Frigotto e Ciavatta (2003, p. 113) alertam para a noção de que “O projeto da sociedade brasileira reivindicava e continua a reivindicar o fortalecimento da escola pública estatal e a democratização da gestão educacional.” Os autores sintetizam os
11Cabe ainda destacar que, no contexto das políticas neoliberais, o fracasso da escola pública é útil para alimentar a ideologia de que o Estado é incapaz de administrar a escola pública e que a iniciativa privada é a melhor opção. Acerca desta filosofia mesquinha, Libâneo; Oliveira e Toschi (2008, p. 101) esclarecem: “No tocante à educação, a orientação política do neoliberalismo de mercado evidencia, ideologicamente, um discurso de crise e de fracasso da escola pública, como decorrência da incapacidade administrativa e financeira de o Estado gerir o bem comum. A necessidade de reestruturação da escola pública advoga a primazia da iniciativa privada, regida pelas leis de mercado. Desse modo, o papel do Estado é relegado a segundo plano, ao mesmo tempo que se valorizam os métodos e o papel da iniciativa privada no desenvolvimento e no progresso individual e social”.
12É interessante aclarar a ideia de que o desenvolvimento do Brasil, sobretudo o econômico, não é um fato isolado, este desenvolvimento está integrado aos fatos e circunstâncias que aconteceram em escala planetária. Cabe, então, destacar que “A riqueza mundial cresceu consideravelmente a partir de 1950 sob os efeitos conjugados da segunda revolução industrial, do aumento da produtividade e do progresso tecnológico. O produto interno bruto mundial passou de quatro trilhões para vinte e três trilhões de dólares e o rendimento médio por habitante mais do que triplicou durante este período.” (DELORS, 2003, p. 69).
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efeitos das políticas neoliberais na escola de Educação Básica (lembrando que 86,7% das matrículas da Educação Básica estão na escola pública), na década de 1990 da seguinte forma:
Com efeito, a educação infantil, a educação de jovens e adultos, a educação de nível médio e superior ficaram relegadas a iniciativas tópicas. A educação infantil, ou de 0 a 6 anos, foi delegada aos governos municipais ou às famílias, com a penalização da classe trabalhadora. A educação de jovens e adultos passou a se reduzir às políticas de formação profissional ou requalificação deslocada para o Ministério do Trabalho ou para iniciativas da sociedade civil. Na educação média, a política foi de retroceder ao dualismo estrutural entre o ensino médio acadêmico e técnico. (FRIGOTTO; CIAVATTA, 2003, p. 114).
O século XXI inicia-se, portanto, tendo à frente o desafio de enfrentar as fragilidades da escola produzidas nos períodos passados. Um desses desafios que se manifesta com grande visibilidade social é o baixo padrão de qualidade do ensino público, porquanto as ações governamentais implementadas aumentaram as estatísticas de acesso à escola, o que é um dado positivo a ser considerado. A grande preocupação, entretanto, em apenas alterar dados estatísticos degradou as condições de democratização do conhecimento no âmbito da Educação Básica, sobretudo na rede pública de ensino. Apresentamos a seguir um quadro panorâmico dessa realidade.